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Cais do Ginjal em Almada, “Já Era”

Cais do Ginjal em Almada, “Já Era”

Rui Pinto 05/03/2018 12:41

O novo Plano para a zona do Ginjal foi sempre apresentado como um elemento  regenerador e qualificador do Património Industrial ali edificado. No entanto, o que se prevê é uma grande operação imobiliária que implica a demolição total do existente

Numa fase já muito adiantada do Plano, os cidadãos são agora convidados a participar na discussão pública em torno de um grande empreendimento que se propõe para o Ginjal, a mais importante zona ribeirinha de Almada. Este território desenvolve-se ao longo de um cais com cerca de 1km, numa espécie de franja linear apertada entre a escarpa e o rio, um percurso que goza de magníficas vistas sobre a cidade de Lisboa, ali mesmo em frente.

Um dito local compara o Ginjal a um a casaco, na medida que dispõe de “casas” apenas num dos seus lados. Esse casario que nasce em Cacilhas e desce com o rio Tejo é composto por um conjunto de edifícios há muito abandonados e muito diversos, maioritariamente fabris e comerciais: uma antiga fábrica de gelo, tanoarias, indústrias de conservas e cortiça, armazéns de vinhos, bem como pequenas habitações encalacradas sobre notáveis construções do século XIX.
Apesar da falência da maioria das atividades que ali existiam, o Ginjal nunca perdeu vida, passando ainda hoje por lá dezenas de pessoas, quer à pesca, em passeio ou a caminho de dois dos melhores restaurantes da grande Lisboa: “Atira-te ao Rio” e “Ponto Final”.

Nos cerebrais anos 90, a Associação Teatral Olho e a Companhia Real de João Fiadeiro sediaram-se num daqueles magníficos armazéns de vinhos, pertencentes à família Teotónio Pereira. Ali realizava-se o Festival X, passaram concertos únicos, passou o grupo de teatro o Extremo, e o realizador Edgar Pera localizou lá o seu estúdio. Tudo isto num misto de atividades criativas em estreita convivência com moradores, restaurantes de caldeiradas e até uma carpintaria, hoje provavelmente impossível face aos normativos higiénicos vindos de Estrasburgo.

Em 2001, num antigo armazém de vinagres, a Associação Centro de Arqueologia de Almada produziu com os seus próprios meios uma interessante exposição que retratou a história da ocupação humana do Ginjal. Promoveu ainda debates acerca do encontro de um possível modelo de ocupação e recuperação daquele território tão rico, precisamente porque congrega vários testemunhos de ocupação ao longo de séculos.

O Plano, cuja discussão pública agora termina e se iniciou em agosto passado, foi sempre sugerido à população enquanto elemento regenerador e qualificador do Património Industrial existente. Mas não é isso que ele propõe. O que se prevê é uma grande operação imobiliária que implica a demolição total do existente, construindo uma nova rua ladeada por duas linhas de edifícios novos. Um Plano radicalmente demolidor portanto. Um Plano que ignora a memória e que com ela não cria nem estabelece qualquer tipo de inventiva.

Curiosamente, a poucos metros deste território, assistimos recentemente a uma das mais bem-sucedidas operações de regeneração urbana: um processo também ignificado pela Câmara de Almada, através de um Programa de Recuperação Urbana (ARU) que revitalizou a Rua Cândido dos Reis em Cacilhas e teve o mérito de atrair dezenas de investidores que, em regime de minifúndio, geraram belíssimos restaurantes, bares com atividades culturais, conseguindo-se a recuperação da maioria dos edifícios para usos diversos, trazendo novos habitantes e fazendo de Cacilhas uma nova centralidade.

Não interessa agora tecer juízos de valor sobre a difícil proposta urbana que se desenha para o Ginjal, mas sim refletir em torno das linhas orientadoras que presidiram sobre a mesma e sobre a lógica liberal que aqui, como em contextos tão diferentes como as florestas ou zonas costeiras, pressionam e dominam o Ordenamento do Território.

A ideia dominante e cega de um rápido retorno financeiro sobre estas transações imobiliárias acaba por produzir os seus próprios limites, na medida em que os ciclos entre crises económicas são cada vez mais curtos, tornando mega investimentos como este cada vez mais arriscados. Mas se sobre os riscos da ganância vamos dormindo bem, perder de uma vez só e irremediavelmente uma fatia tão grande do património desta cidade, afigura-se um pesadelo.

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