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Eurovisiologia

Eurovisiologia

Jorge Mangorrinha 15/02/2018 10:58

A música e a performance veicularam discursos diversos em contexto epocal, fazendo parte da história social, cultural e política do nosso país

O maior espetáculo musical televisionado do mundo já deu origem a um novo campo de estudos, em diferentes perspetivas. Em Portugal, tem dado os primeiros passos. Há cinco décadas, seria inimaginável.

Já houve quem tenha dito que, a 2 de fevereiro de 1964, a RTP contraiu uma doença terrível: o Festival da Canção, na época intitulado “Grande Prémio TV da Canção Portuguesa”. Através dos tempos, ele tem merecido críticas contundentes ou alheamento por parte da sociedade portuguesa, mas também promoveu uma cultura à sua volta junto dos fãs e o interesse dos investigadores. A música e a performance veicularam discursos diversos em contexto epocal, fazendo parte da história social, cultural e política do nosso país e da sua singular representação externa.

O mediatismo recente em torno da Eurovisão, designadamente em Portugal, prende-se com aquilo que alguns fãs portugueses consideravam como possível. A vitória na Eurovisão foi alcançada através de uma nova visão de encarar o programa-marca da RTP e, sobretudo, do talento de Luísa Sobral, Luís Figueiredo e Salvador Sobral. A beleza da canção e da interpretação, o carisma do cantor e a diferença deste em palco foram as razões deste sucesso. Não porfiado, porque a RTP nunca quis ou pôde ganhar, em toda a história. Mas a vitória despertou as atenções para este fenómeno televisivo.

O que importa sublinhar é a grande oportunidade que a realização do Festival da Eurovisão traz à cidade de Lisboa, à música portuguesa e aos estudos integrados, através do consórcio estabelecido em Lisboa e de uma nova área de estudos que definimos como “Eurovisiologia”.

A canção portuguesa conferiu, efetivamente, um novo paradigma musical, um sobressalto, embora com precedentes na história da Eurovisão (Suécia, 1974; Irlanda, 1980; Noruega, 1995; Israel, 1998; Finlândia, 2006). Estes casos foram memoráveis. Mas terão sido eles verdadeiramente transformadores do panorama geral? Sim, pela diversidade que potenciaram, mas o que “Amar Pelos Dois” passou a representar foi a forma como se encara, recente e talvez definitivamente, este concurso internacional, ou seja, a simplicidade, o bom gosto e um país com poucos recursos financeiros podem vencer e convencer.

No mesmo sentido, a organização do evento em Lisboa revela que, muito provavelmente, é possível equilibrar despesas e receitas, sem desastre financeiro. Dado o investimento realizado há 20 anos noutra grande realização (Expo’ 98), a existência de um espaço coberto com condições viabiliza agora a sustentabilidade de Lisboa 2018. E depois da Eurovisão, a capital portuguesa deve continuar a potenciar a força criativa da cidade e a internacionalização dos eventos.

Do ponto de vista dos estudos acerca da temática, em Portugal, eles podem ter um impulso a partir de agora, começados que foram por nós há cinco anos, quando incidimos no enfoque da promoção externa do nosso país, nos retivemos no “estado da arte” à escala internacional e defendemos a necessidade de querer ganhar a Eurovisão. Presentemente, o confronto social, cultural e político do caso português com outras realidades é um campo aberto à investigação e à troca de experiências universitárias.

Em Lisboa, todos a bordo, pois claro!

Professor universitário

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