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Célia Pessegueiro. “Não há liderança na Madeira neste momento”

Célia Pessegueiro. “Não há liderança na Madeira neste momento”

Miguel Silva Filipa Traqueia 06/02/2018 21:33

Foi líder da JS na Madeira, deputada regional, vereadora em Ponta do Sol, onde se tornou a primeira mulher presidente de câmara na ilha

Quais foram as principais dificuldades ao assumir a Câmara de Ponta do Sol?

Eu já estive lá estes últimos quatro anos, portanto já tinha mais ou menos a noção de algumas situações. Obviamente que entrar numa câmara (CM), ter a responsabilidade da governação, ter tantas coisas novas ao mesmo tempo e já com alguns problemas por resolver em que é preciso agir imediatamente... Porque o poder autárquico é isso, é a ação no terreno, quando falhamos as pessoas sentem imediatamente.

Disse que a governação ia implicar muito debate por não ter maioria. Está a ser desafiante?

Até ao momento temos tido entendimento sobre todas as matérias. Salvo o próprio orçamento que contou com uma abstenção do PSD e com o voto contra do CDS. Julgo que há uma responsabilidade muito grande tanto de quem ganhou as eleições, que foi o PS, como da oposição em criar condições ou permitir a governação. Obviamente que eu espero que em algum momento, mais não seja numa tentativa de marcar posição, que haja alguma tentativa de boicote.

Como é que surgiu esta oportunidade de se candidatar à autarquia?

Eu já estou há largos anos ligada à política, fui líder da JS em 2002 e depois acabei por ser deputada regional eleita em 2004. Estive três anos na assembleia - houve demissão do governo -, tive sempre uma experiência mais de âmbito regional do que propriamente local. Em 2013, circunstâncias várias levaram-me à candidatura para a Câmara de Ponta do Sol. Sabíamos que era um desafio muito difícil porque era o último mandato de quem lá estava. Era um pontapé de saída para uma candidatura em 2017 e foi o que acabou por acontecer. Obviamente com uma grande satisfação pela vitória e, sobretudo, por ter sido uma vitória numa zona que nunca tinha conhecido alternância de poder desde o 25 de Abril, esteve sempre governada pelo PSD. Toda a gente entendia ser impossível mas nós dizíamos sempre às pessoas: impossíveis não há. Prova disso foi o que aconteceu em 2013, na maioria das câmaras da região, de 11 só 4 é que não mudaram. Numa fase inicial ainda houve algumas reservas por ser mulher. É muito difícil que uma mulher ganhe, sobretudo numa terra tão conservadora como esta. Era uma candidata jovem, não correspondia ao perfil do que normalmente se indicava como bom candidato. E gostei do PS ter percebido que o fator diferença podia até ser vantajoso para nós.

Que dificuldades encontrou pelo facto de ser uma mulher candidata?

A conversa surgia: ‘Temos de encontrar o candidato ideal’. O candidato, a figura masculina... Há um perfil: uma pessoa bem aceite, que não tenha problemas - então em terras pequenas tem de ter o currículo imaculado! Também é verdade que as coisas mudaram muito, já não há aquele quadro da família ideal. Começou-se a olhar a competência e a capacidade de trabalho e isso acabou por ser valorizado. A questão que se colocava era “podes não conseguir chegar lá por seres mulher”. Porque, por norma, aceita-se melhor um homem em posição de liderança. Nestas coisas da política ou há empatia ou não há e eu sinto que a dada altura houve uma grande empatia. Sobretudo das mulheres, o que é curioso, por tudo aquilo que se dizia, que as mulheres não apoiam as mulheres. É mentira.

Considera que esta vitória lhe dá uma responsabilidade maior, precisamente por ser mulher?

Sinto que posso, de alguma forma, servir, vá lá, de inspiração para que outras mulheres sintam que é possível chegar. Não sinto que isso me acrescente grandes responsabilidades. Também é verdade que hoje temos uma geração com outro nível de formação, com outra disponibilidade, que se recusa a estar relegada a um papel mais da casa. Agora sinto que, às vezes, trabalhamos o dobro para conseguir algumas coisas.

Continua a existir esta política para homens na Madeira?

Eu acho que em todo o país. A composição das listas com os mínimos dos 33%, que normalmente nos relega para o 3-6-9, que é aquela [fórmula] em que em cada três tem de haver pelo menos uma mulher, acabamos no terceiro lugar, no sexto, no nono. Há outra situação que detetámos: algumas mulheres, mesmo tendo sido eleitas, não assumem o mandato e pedem substituição, avançando outras pessoas no seu lugar, portanto, homens. Aquilo que nós pedimos a todas as pessoas que são eleitas é que não prescindam das suas posições.

Recentemente foi mandatária da campanha de Emanuel Câmara para a liderança do PS-Madeira. Considera que o partido estava a precisar de uma mudança?

Só quem não percebe muito da dinâmica dos partidos é que acharia que poderia haver um candidato único. Carlos Pereira foi-o da outra vez, não seria ad aeternum. Emanuel Câmara é uma pessoa tão dinâmica, tão ativa, com uma  grande capacidade de trabalho e resistência, sempre muito disponível para estar tanto no seu município - é presidente da Câmara de Porto Moniz, onde foi candidato e vereador da oposição durante muito tempo e por isso conhece os dois lados da faceta. Aliás, eu costumo dizer que a nossa vantagem em relação ao PSD-Madeira é que nós conhecemos os dois lados da barricada. Esta experiência da oposição o PSD não tem. É uma boa escola, espero que aproveitem também este momento para aprender. Mas Emanuel Câmara é uma oportunidade de voltar a abrir o PS a uma participação mais ativa. Nós tivemos o laboratório de ideias e Emanuel Câmara quer lançar uma plataforma semelhante que permita a discussão de grandes temas de interesse para a sociedade com a participação de não militantes. De todas as vezes em que abrimos portas aos não militantes, ganharam os militantes e a estrutura do partido. O atual presidente da Câmara do Funchal, Paulo Cafôfo, fazia parte do laboratório de ideias da Madeira quando foi convidado a ser candidato à CM do Funchal, encabeçando uma coligação. Eu acho que foi um encontro muito feliz. Paulo Cafôfo descobriu esta cidadania, esta participação mais ativa, e nós também descobrimos em Paulo Cafôfo algo muito natural nele: um contacto muito próximo das pessoas, uma disponibilidade infinita para ouvir, para conversar, um político nato. Foi uma feliz descoberta.

Paulo Cafôfo será o “trunfo” do PS nas próximas eleições regionais?

A campanha de Emanuel Câmara foi muito clara nesse sentido. A solução para umas eleições regionais não podia ser, como tradicionalmente, apresentarmos listas próprias, fazendo finca-pé num fechamento do PS. Sempre que nos fechamos damo-nos muito mal. E sendo essa a estratégia para 2019 só há condições para ser uma estratégia vencedora. Paulo Cafôfo goza de uma popularidade imensa, tem sido muito bom presidente de câmara. Prova disso é a sua reeleição agora com maioria absoluta. As pessoas querem mudar. Acho que o PSD cometeu uma série de erros. Não se percebe o que é que quer para a Madeira. É um futuro tecnológico para a região? É um futuro virado, por exemplo, para as energias renováveis, para reduzirmos a nossa dependência do exterior? Precisamos de ter essa referência, se não parece que estamos apenas a sobreviver. Não há liderança na Madeira neste momento.

Paulo Cafôfo vai a eleições, que objetivos irá defender?

Eu apostaria muito em tudo o que pudesse representar este grande objetivo: a redução da dependência do exterior. Sendo uma ilha, o constrangimento da distância, do custo que é pôr os produtos na região, o custo do transporte, o facto de estarmos muito dependentes do turismo. Estamos a passar um momento muito bom, é bom que estejamos todos a aproveitar esta situação, mas é preciso que haja já uma preparação. É preciso termos muito cuidado porque o momento bom que se está a viver agora pode não durar sempre. É preciso o plano B para que todas as pessoas que hoje trabalham em hotelaria não sejam lançadas no desemprego como aconteceu em 2004 e agravado em 2008. Gostaria que o PS conseguisse fazer este debate e apresentasse já algumas respostas sobre o caminho a seguir para diversificar a oferta e para que não estejamos tão dependentes - exclusivamente quase - desta receita que o turismo nos dá.

Cafôfo está envolvido num processo judicial por causa da queda da árvore que matou 13 pessoas e feriu 52 a 15 de agosto do ano passado. Este processo pode vir a prejudicar o resultado do PS?

Obviamente que não é bom. Seria estranho que ele não fosse constituído arguido tendo existido mortes. Isto é o processo normal da justiça. É preciso é ver que a árvore não foi ali plantada em 2013, ela já existia. Isto envolve muita coisa, envolve inclusivamente opiniões diferentes de peritos. Até é recorrente aquele largo ter muitas intervenções, porque tem árvores de grande porte já muito antigas, para o corte de galhos, para monitorização do seu estado. Um autarca obviamente não consegue ir a este detalhe, de saber ou de conseguir sequer sonhar ou imaginar que está ali uma situação de perigo. Falava-se nos alertas, mas os alertas foram dados para outras árvores e tinham a ver com a queda de galhos dos plátanos. Foi algo completamente inesperado. Agora, é verdade também que Paulo Cafôfo já passou, de certa forma, por essa avaliação nestas eleições. Isto aconteceu em agosto, em plena campanha eleitoral. É lamentável algum aproveitamento que foi feito, da forma como foi feito, sobretudo por pessoas que tinham estado nas mesmas funções na CM. 

Carlos Pereira, o ex-líder do PS-Madeira, acusou  a ala de Emanuel Câmara de ser “barriga de aluguer” de Cafôfo. Existe uma divisão no PS?

Há uma divisão de opiniões, há pontos de vista diferentes. Eu acho normal que sendo Carlos Pereira candidato ao PS  com a ambição de ser candidato ao governo em 2019, usasse todos os argumentos possíveis para combater uma candidatura adversária. A votação das pessoas não foi só em Emanuel Câmara e Carlos Pereira, foi nas estratégias apresentadas por um e por outro. Emanuel Câmara dizia que seria candidato a presidente do PS e que, ganhando, seria apenas presidente e encontraria uma solução vencedora para 2019, a candidatura de Paulo Cafôfo. Carlos Pereira apresentava-se a presidente do PS e a presidente do governo. Portanto, de certa forma. já houve umas primárias no PS. Esta decisão é de uma grande responsabilidade: nós não escolhemos apenas o presidente do PS, escolhemos já o candidato a presidente do governo.

O resultado da eleição ficou próximo. Emanuel Câmara ganhou com 57% dos votos. Dá a ideia de haver uma divisão.

Foram umas eleições muito disputadas. Depois é algo que nunca se sabe muito bem como corre porque votam os militantes com as quotas pagas e houve pessoas que, se calhar, porque não gostam tanto deste clima de tensão, não quiseram pagar as quotas para não irem votar. Estão no seu direito, embora ache um bocadinho estranho porque estamos nisto para fazer escolhas, tomar decisões.

Existe sempre o voto em branco.

Por exemplo. Carlos Pereira esteve dois anos com os militantes, se calhar até tinha mais responsabilidades, mais obrigações de ter um melhor resultado. Mas a sua opção foi passar mais tempo em Lisboa do que na Madeira e isso acabou por dar no resultado que deu. Não há mal nenhum, atenção, mas ao ser presidente do PS, por melhor trabalho que se possa desenvolver na Assembleia da República, a defender alguns dossiês de grande interesse para a Madeira, Carlos Pereira sabia a batalha que tinha: preparar o PS para umas eleições autárquicas, o que obrigava a mais tempo na região. Quando a estrutura não tem liderança ou é uma liderança à distância, por telefone e por Facebook, perde-se aquilo que é a rede a funcionar. Foi uma escolha que ele fez e que teve o desfecho que teve.

Os militantes penalizaram-no por não ter estado presente.

Também. Porque sentiram esse afastamento. Ele poderia ter estado na Madeira. Foi para lá agora, já numa fase final, mas faltou mais auxílio, até no processo de preparação das listas. Às vezes é preciso ter alguma ajuda extra. Ele deveria ter estado mais presente nalguns concelhos. Poderíamos não ter perdido o Porto Santo se tivesse havido mais empenho da parte de Carlos Pereira.

Em relação ao estado atual da política da Madeira, com o PSD dividido, a sofrer erosão nas autárquicas, ao avançar com um candidato que divide o PS não acha que os socialistas podem estar a perder a oportunidade de mostrar ao eleitorado uma imagem de unidade?

Eu não acho. Só se aqueles que perderam estas eleições, de alguma forma, continuarem a fazer uma oposição interna destrutiva - interna e não só, porque depois estas coisas acabam por ter eco nas páginas dos jornais - para causar instabilidade de propósito. Já houve outros momentos de eleições disputadas em que depois os vencedores e vencidos trabalharam em conjunto e tiveram muito sucesso. Eu acho que, se estivermos focados num objetivo maior que não apenas o desejo pessoal e o umbigo, esta é uma oportunidade de ouro para ajudarmos as pessoas a se livrarem de um PSD que não lhes dá horizonte. Temos tudo para estarmos unidos e trabalharmos todos juntos.

Tinha dito que ia conciliar a Câmara de Ponta do Sol com a vida do PS. Considera uma possibilidade candidatar-se à liderança do PS no futuro?

Ui, nunca pensei nisso! Nestas coisas nunca se pode dizer que nunca a nada, porque a vida dá muitas voltas, mas não estou minimamente a pensar nessas coisas. Já perdi, já ganhei, ao menos sinto-me tranquila com uma coisa: sempre assumi muito bem as minhas posições, nunca estive em cima do muro em jogo duplo e, portanto, se em algum momento colho também algumas inimizades, em outros também acabo por ter esse respeito da parte dos militantes. Estou disponível para aquilo que o PS e a sociedade madeirense quiserem de mim, daquilo que eu possa dar, darei sempre o meu melhor. Eu não sei agora o que me espera, mas acabei de ser eleita. Tenho muita coisa para fazer em Ponta do Sol certamente.

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