26/9/18
 
 
Conto Interrompido. Com tanta comunicação, as falhas fazem o dia-a-dia

Conto Interrompido. Com tanta comunicação, as falhas fazem o dia-a-dia

Com a exposição que leva até 13 de janeiro à Underdogs, Mário Belém olha para um mundo com “tantas formas de comunicação” e “excesso de informação”, mas onde as falhas de comunicação imperam, transformando as relações humanas

Nos dias que correm, a informação encontra-se à distância de um clique e as pessoas comunicam a qualquer momento umas com as outras. Para uns, existe um excesso de informação; para outros, uma proximidade como nunca antes vista. Uma proximidade onde as falhas de comunicação por vezes imperam e a leitura escasseia. “Fiquei fascinado como hoje em dia temos tantas formas de comunicar com as outras pessoas”, mas “achas que estás a comunicar perfeitamente e depois não”, num “mundo com excesso de informação” e onde “deixámos de ler independentemente de ser uma mensagem curta” – leituras onde “retiras apenas o que te interessa daquilo”, subvertendo a própria razão de o fazer.

Este foi o mote que levou Mário Belém, ilustrador digital e designer gráfico, a sujar novamente as mãos para avançar com a exposição Conto Interrompido, em exibição na Galeria Underdogs até 13 de janeiro e com entrada livre. A exposição é produto de nove meses de trabalho e convida o observador a refletir sobre como as inovações na comunicação alteraram as relações humanas, gerando, por meio das peças, “confusão na leitura” e “ambiguidade”. “As pessoas estão tão saturadas de informação que às tantas têm vários filtros, tampões que as bloqueiam”, explica o artista.

Numa peça em madeira pode ler-se que “somos estranhos que se conhecem intimamente”. Para Belém, “é fascinante por ser precisamente – e se calhar a nossa geração já não é tanto assim – aquela coisa de conseguires passar uma vida inteira com aquela pessoa sem a conheceres muito bem”. Outro exemplo é a relação entre o discurso e a prática, com uma outra peça onde se pode ler “falas, falas, mas eu não vejo nada”. O intuito da exposição é precisamente “olhar para aquilo [a exposição ou uma peça em concreto] e ter mais de uma leitura”, realçando as falhas de comunicação e até as diversas interpretações resultantes da ambiguidade. No fundo, o observador poderá encontrar a razão no meio do caos “ou não encontrar absolutamente nenhuma”.

Entre o caos, o observador pode refletir sobre as suas próprias relações pessoais, sejam amorosas, familiares ou de amizade. “A forma como projetas as tuas intenções sobre a outra pessoa quando estás no início de uma relação” poderá ser uma dessas conclusões de uma peça em concreto, por exemplo, explica o artista. A construção e disposição da exposição vai precisamente neste sentido. “Em vez de ser aquela galeria clássica em que tens uma tela com espaço branco à volta, tens muitas coisas para criar confusão”, diz Belém. A numeração da exposição também rompe com as comuns exposições. “Normalmente tens uma folha de sala com uma numeração muito limpa, mas aqui tens uma numeração aleatória e, quando olhas, parece um caos.”

A nostalgia dos velhos tempos

Para o artista, a exposição representa “um pouco a nostalgia desses velhos tempos” em que não se era bombardeado por informação e publicidade, mas também um pouco da sua experiência pessoal em relações em que “uma das coisas que aconteceram muito foram falhas de comunicação”. E explica: “Faço parte da primeira geração que começou a levar com publicidade de rua assim mais à séria e quando era miúdo prestava muita atenção às publicidades, mas hoje em dia posso estar a ser bombardeado que já não presto atenção absolutamente nenhuma.”

Esta exposição também é um marco na carreira do artista por as peças em exibição se encontrarem entre a pintura e a escultura em madeira, suportes que tem privilegiado nos últimos tempos. “Estou a começar a ficar cada vez mais fascinado pela forma como as peças conseguem saltar da parede para fora”, o que, em conjunto com a iluminação, faz com que ganhem sombras. “Sombras dentro das peças, para se perceberem as várias camadas” que possuem. Para além deste efeito visual, a madeira parece ser um ótimo material para gerar a confusão desejada pelo artista, ao tornar as “letras ou as frases difíceis de se lerem”. Obrigam a um olhar semicerrado, espoletando dúvidas no próprio observador, como se de uma falha de comunicação se tratasse.

O percurso profissional de Belém influenciou profundamente as obras em exposição. Em todas elas é possível identificar o trabalho de um designer gráfico transposto para a madeira. “Não começo a desenhar antes de ter a ideia fechada, a imagem visualizada na minha cabeça”, algo que, confessa, remonta ao “processo criativo do design gráfico” e resulta de ter “aversão a telas”.

E expetativas? “Estou-me a cagar para vender”, diz com confiança, expressando o desejo de qualquer artista: “O que quero mesmo é fazer um corpo sólido e ter sucesso cá, viver cá e trabalhar cá.”

 

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