22/9/18
 
 
Alexandra Duarte 04/12/2017
Alexandra Duarte

opiniao@newsplex.pt

Não quero ser mãe à distância

Vivemos no tempo em que as gerações mais jovens elegeram como uma das prioridades conhecer o mundo. São os novos globetrotters, que saem para estudar, fazer um gap year, trabalhar, e depois não voltam

O Natal está a chegar. Para uns, a melhor festa do ano. Para mim, seguramente, a melhor época do ano. Em novembro, já sinto o espírito natalício a invadir-me… Basta ver a colocação dos enfeites de Natal, espalhados pelas ruas, e imagino a cidade toda iluminada e colorida de tons quentes. Basta subir a Avenida da Liberdade, chegar ao Marquês e ter pela frente a roda gigante, e um sorriso assoma-se ao meu rosto, tal e qual uma criança que espera ansiosamente pela manhã de Natal para abrir os presentes. Até fico mais tolerante com o trânsito caótico e sem fim à vista, imaginando que todos andam nos preparativos do Natal, nas compras, a correr para desfrutar de um chocolate quente ou a levar as crianças para verem os presépios e as luzes espalhados pela cidade. Tudo tem uma outra cor, mais luz, e paira uma musicalidade no ar que me embala neste frenesim próprio de dezembro.

Nesta altura, própria de grandes emoções e sentimentos, somos levados a pensar em muito do que vivemos e somos, não só pela aproximação temporal do final de ano, que nos coloca naquele estado de transição entre o que já passou e o que há de vir, mas também porque Natal é sinónimo de dádiva, de família, de fé, de esperança, de solidariedade, de amor e muito mais. Ficamos mais sensíveis ao que nos rodeia, desejando profundamente que todos possam ter uma festa de família com conforto, mesa cheia, calor e carinho. Incomoda-nos saber que pelo mundo fora há crianças órfãs, sem teto, sem o calor de um abraço, no meio de escombros, famílias separadas pela guerra, povoações inteiras que não têm alimentos ou água… Uma realidade quotidiana, mas que nesta época em especial nos toca de uma outra forma, quase que sentindo uma culpa pelo que lá se passa ou uma impotência em mudar, um pouco que seja, a vida destes esquecidos pela estrela de Belém. E por isso, aqui neste cantinho, fazemos o melhor que podemos e sabemos, contribuindo para instituições que, por nós e com a nossa ajuda, se juntam às famílias que precisam deste apoio e lembrança e lhes levam um pouco daquilo que deveria ser o seu Natal.

Todos os anos estes pensamentos me ocorrem, como que um ponto de embraiagem na minha felicidade, que parece não conhecer limites nestas semanas. Este ano não está a ser diferente, mas a preocupação foi outra. Talvez pelas histórias que vou ouvindo à minha volta, de pais em estado mais adiantado do que eu, no dia em que, todos juntos, engalanámos a casa para receber o Menino Jesus, dei por mim a olhar para os meus filhos e a perguntar até quando os teria ali comigo a celebrar o Natal.

Entre pulos por cima das caixas de decoração espalhadas pelo chão e discussões sobre quem punha a estrela no topo da árvore, entre a música de Natal que saía de um iPad com o volume no máximo, comprometendo toda a qualidade do “Adeste Fideles”, e o frenesim de ganhar o título do mais criativo nas decorações, lembrei-me das muitas histórias que amigos me contam sobre o que é para eles o Natal, agora, com os filhos crescidos. E estremeci.

Vivemos no tempo em que as gerações mais jovens elegeram como uma das prioridades conhecer o mundo. São os novos globetrotters, que saem para estudar, fazer um gap year, trabalhar, e depois não voltam. Acabam por encontrar os seus amores lá fora, instalam-se e, sem dar por isso, fixam-se noutro país, com outra família. A maior parte ilude-se pensando que é temporário, até mesmo os pais se iludem nesta perceção. O tempo acabará por confirmar que muitos não voltaram mais e que são os pais que lá vão ter com eles.

Corajosos estes pais, mas sofredores. Orgulhosos do sucesso dos seus filhos, mas saudosos de os terem por perto. Sinto as suas alegrias, tal como a dor provocada pela distância, silenciosa e escondida, para que os filhos não descubram o quanto lhes custa. O conformismo sobrepõe-se ao vazio e todos se adaptam a esta geografia global, com fusos horários incluídos, e sujeitos a horas de avião e à sua disponibilidade.

Olhando para eles, sou firme quando sinto que não estou preparada para começar a pensar num futuro no Reino Unido ou na Dinamarca (os dois destinos mais procurados pelos estudantes portugueses), ou até outras opções bem apelativas como Alemanha, Áustria, Finlândia, Grécia, Polónia ou Suécia, todos estes com propinas gratuitas.

Pesa-me o meu egoísmo, mas prefiro pensar que é um amor desenfreado que não consegue imaginá-los longe e alimenta-me o conforto de sentir que só faz sentido se estivermos todos juntos. Para eles e para mim. Claro que a probabilidade de não correr como desejo é enorme, até porque os amigos deles todos os dias conversam sobre isto, tudo à nossa volta são exemplos destas opções. Convicta, vou acompanhando, abraçando cada dia como se fosse um dos últimos, consciente de que tê-los comigo todos os dias é uma bênção que devo agradecer todas as noites.

Ontem, entre árvores e luzes, caixas abertas espalhadas e bolas saltitantes, festões colocados nas ombreiras das portas em jeito de alpinista, gargalhadas e caras feias, estrelas que teimavam em cair e árvores que quase caíram, eu só trauteava: “All I want for Christmas is you…”

Escreve quinzenalmente à segunda-feira

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×