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Pedro Carrera Bastos. “Não chega voltar ao tempo dos nossos avós”

Pedro Carrera Bastos. “Não chega voltar ao tempo dos nossos avós”

Marta Cerqueira 25/10/2017 13:27

Investigador na área da alimentação, Pedro Bastos vê na dieta do paleolítico mais do que comida. “É um estilo de vida”, garante. E mais saudável 

Professor de Nutrição Funcional, investigador na área da alimentação saudável e defensor de uma dieta que, acredita, vai muito além da comida, Pedro Carrera Bastos reconhece que voltar à alimentação do Paleolítico pode não ser fácil para quem o quiser fazer de uma forma rigorosa, mas admite que há pequenas mudanças que podem mudar uma vida.

 

Alguém que queira começar a seguir uma dieta paleolítica deve fazer o quê?

Como em qualquer outra dieta, deve consultar um nutricionista. Para a maioria das pessoas, esta mudança será benéfica, mas há casos em que isso não acontece.

Então a dieta paleo não é para toda a gente.

Nenhuma dieta é para toda a gente, tem de ser sempre personalizada. Esta dieta é um modelo baseado nos grandes padrões alimentares da nossa História e há sempre um conflito entre o que foi esse padrão e aquilo que estamos a fazer hoje.

Mas quem é que não deve seguir esta dieta?

Um paciente renal terá de ter uma dieta adaptada, porque aqui há um grande consumo de proteína. Quem tem excesso de ferro, também.

E porque é que faz sentido mudar para uma dieta paleo?

Porque aquilo que as pessoas fazem hoje em dia não faz sentido. O nosso estilo de vida atual é o grande responsável pelas grandes doenças crónicas como a diabetes, osteoporose, cancro e doenças autoimunes. Atualmente, a vida é mais confortável - não temos de lutar pela sobrevivência ou de sair para caçar -, mas temos hábitos alimentares que não são os corretos. Temos hoje uma maior disponibilidade de alimentos e, principalmente, combinações de alimentos que não existiam. Gordura, farinha e açúcar é um conjunto presente em quase todos os alimentos processados. 

Foge um pouco à nossa dieta mediterrânica.

Estamos a copiar o modelo americano, o que considero o pior de todos. O exemplo do que é mau, para mim, é a dieta americana.

Mas é preciso voltar ao Paleolítico ou basta regressar ao tempo dos nossos avós?

Acho que não chega voltar ao tempo dos nossos avós. Ouço muitas vezes isso, a ideia de que os nossos avós eram muito mais saudáveis que nós. Isso não é verdade. A minha avó morreu sem uma perna por causa da diabetes e a minha outra avó esteve dois anos numa cama por causa de uma fratura da anca. Já a minha bisavó morreu de insuficiência renal por causa da diabetes.

No que diz respeito à diabetes, há quem defenda que a dieta paleo é melhor do que a mediterrânica para estes doentes.

O meu grupo de trabalho fez vários estudos sobre os benefícios da dieta paleo face à dieta mediterrânica em pacientes com diabetes tipo 2. A grande diferença entre as duas é que a paleo não usa cereais nem laticínios e a ingestão de sal é baixa.

Mas os cereais e os laticínios são tão maus como os pintam hoje em dia?

Os cereais, a nível nutricional, são pobres quando comparados com a carne, o peixe e as hortaliças. Além disso, do ponto de vista energético, obtemos mais calorias da fruta ou das hortaliças do que propriamente dos cereais. Já quanto aos laticínios, sabe-se que o leite aumenta mais a insulina do que o próprio açúcar. 

Mas o homem evoluiu desde o Paleolítico. A alimentação não devia acompanhar essa evolução?

O problema é que não evoluiu para o lado certo. Tivemos alterações genéticas, claro, mas a maioria vieram de agentes infecciosos, de maneira a conseguirmos responder em caso de infeções.

Que alterações genéticas são essas?

A acumulação de ferro, que já tinha mencionado, por exemplo. Outra coisa, o leite é digerido pela lactase. O problema é que, depois da amamentação, uma parte significativa da população deixa de produzir a lactase.

Então isto das intolerâncias não é uma mania.

Não. Existem é populações que, por terem introduzido a pastorícia mais cedo, se adaptaram e conseguem digerir a lactose ao longo de toda a vida.

Não foi o nosso caso?

O problema é que, com as migrações e a globalização, já não se pode falar no nosso caso.

E temos agora tudo o que o homem do Paleolítico tinha?

Não, claro que não. A fruta domesticada é diferente da selvagem, a carne que existe hoje em dia é de animais obesos, domesticados, bem diferentes dos selvagens. Quando falamos em imitar o passado, não falamos em imitar na totalidade. Tem de haver adaptações, diminuindo sempre a ingestão de alimentos processados e cereais.

É fácil seguir essa dieta hoje em dia?

Se quisermos ser rigorosos, não. Se estivermos dispostos a fazer alguns compromissos, sim. Reduzir o açúcar, aumentar a ingestão das hortaliças são passos simples e que fazem a diferença.

É mais caro?

Pode ser mais caro, sim. A carne e o peixe de qualidades são caros. O pão e o leite são muito baratos, por exemplo, mas as verduras e os legumes deviam ser muito mais.

Quais são os principais benefícios para a saúde?

Aumento da saciedade, ou seja, come-se menos, o que ajuda em casos de excesso de peso. Esta dieta não restringe, ao contrário das outras, apenas direciona as pessoas para determinados alimentos. Um diabético de tipo 2 pode melhorar a resistência à insulina, por exemplo. Diminui a tensão arterial, os triglicéridos.

Há mudanças que se sentem imediatamente?

Depende. Quem já faz exercício e uma alimentação cuidada não sentirá assim tanta diferença. Agora, quem seja sedentário, obeso e com tensão alta vai ver melhorias imediatas. Além disso, alguns aspetos da dieta, como a ingestão de ómega 3, podem ser benéficos em casos de doenças como a artrite reumatoide.

A dieta paleo tem só a ver com comida?

Não, é um estilo de vida. As pessoas que a seguem preocupam-se com a atividade física, com a ingestão de produtos biológicos, com os padrões de sono, com os níveis de stresse. Há até quem faça meditação, mindfullness, ou evite a exposição à luz que não seja a natural. 
 

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