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Repórter X: ‘Chuta que o guarda-redes é anão!!!’

Repórter X: ‘Chuta que o guarda-redes é anão!!!’

Afonso de Melo 12/08/2017 15:19

Reinaldo Ferreira foi um homem de  imaginação absolutamente delirante. Faria agora 120 anos e também se interessou por futebol.

Não devia haver jornalista que não fosse obrigado a ter inveja do Repórter X. Por extenso, Reinaldo Ferreira. Nascido em Lisboa no dia 10 de agosto de 1897. É evidente que a inveja não englobaria o seu vício de morfina, sobre o qual escreveu Memórias de um Morfinómano. Não seria necessário ir tão longe, convenhamos. Mas, para quem se lançou na profissão aos 12 anos de ideia, eis um mestre.

Também convém acrescentar que de Reinaldo Ferreira, o Repórter X, como assinava, se disse, ao longo de décadas, tudo e o seu contrário. Poucas personagens da acidentada vida do jornalismo português terão sido tão absolutamente controversas.

Entretanto, antes de me dedicar ao Repórter X, vou falar de Castelar de Carvalho. Outra figura. Um figurão! Jovem estagiário brasileiro, impaciente como qualquer estagiário que se preze, esperava na Redação do seu jornal pela reportagem que o lançasse nos trilhos de uma carreira inesquecível. Eis que o chefe, à míngua de repórteres experientes, o envia para a cobertura de um incêndio de enormes proporções no centro do Rio de Janeiro. Puro engano. 

Mal chegado, Castelar de Carvalho percebe que o incêndio não passa de um acumular de chamas sem horror nem drama. Extinguíveis com um regador, ou coisa assim.  Não desanima. De regresso à máquina de escrever, lança-se na descrição do movimento do fogo pelas paredes, pelos móveis, pelos objetos. A sua imaginação constrói uma gaiola na qual um passarinho pia de desespero à medida que as labaredas se aproximam. E o passarinho morrerá nesse inferno minúsculo que poderia muito bem ser o retrato de todos os nossos infernos.

Não sei se esta história é autêntica ou não. E lá está: pouco me importa. Castelar de Carvalho tornou-se num dos maiores jornalistas da língua portuguesa e a morte do passarinho tornou-se no símbolo da sua longa carreira.
Anos mais tarde, Nelson Rodrigues chegaria a esta conclusão: «Não há jornalismo sem passarinho!»

Reinaldo Ferreira, o Repórter X, nunca teve a mínima dúvida de que não existia jornalismo sem passarinho. Aliás, ele não se contentava apenas com passarinhos.  Mas não foi estranho a incêndios. Uma vez, Luís Miguel Queirós, no Público, contou que, nos seus primeiros tempos, em ACapital, foi interpelado pelo chefe: «Oiça lá! O menino já fez incêndios?» E ele ofendido: «Eu?! Não senhor!» Pensava que o acusavam de ter tascado fogo a alguma coisa. E, desfeita a confusão, lá foi como Alencar cobrir um incêndio, não se com direito a passarinho ou não.

Do passarinho ao leopardo

Dos incêndios, com ou sem passarinho, passou às entrevistas com gente tão extraordinária como a espia Mata-Hari ou o criador de Sherlock Holmes, Sir Arthur Conan Doyle. E às reportagens fantásticas sobre a fuga de um leopardo do Jardim Zoológico de Lisboa ou o Homem dos Olhos Tortos - o Hediondo Crime da Rua Saraiva de Carvalho.
Tinha uma imaginação decididamente infinita. Trabalhou em Paris, em Barcelona, em Haia. Cobriu a morte de Lenine, no velho País dos Sovietes, e descobriu que o porteiro do Kremlin bem como o médico que embalsamou o corpo de Vladimir Ilitch eram portugueses de gema, com histórias de vida mirabolantes.

Há quem afirme a pés juntos que nunca esteve na União Soviética e que mandava o serviço de Paris. Publica reportagens n’O Século, no Primeiro de Janeiro, na Ilustração, n’A Manhã. Regressa a Portugal, instala-se no Porto. Procura fugir à maldita morfina. Escreve novelas, peças de teatro, livros de mistério. Sempre, sempre, fascinado pelo mistério. O mistério das coisas simples que transformava, ao sabor do passarinho, em intrincadas convulsões humanas de gente desequilibrada. Convence as pessoas de tudo um pouco. De que viveu dias a fio como um mendigo, por exemplo, fazendo-se fotografar andrajoso, mas não mendigando nada senão a própria fotografia endiabrada.
Leiam-no, leiam-no que vale a pena.

Está por aí, editado pela Livros do Brasil, O Cartomante do Raciocínio – Memórias Extraordinárias do Doutor Duque. É um desafio. E é também um delírio.

Delírios de imaginação!

Delirante: é esse, provavelmente, o melhor elogio que se pode colar à pele do Repórter X. Funda jornais, tal o tamanho da sua ambição e o gigantismo da sua produção que o dispõem a escrevê-los quase por inteiro: O Detetive, Repórter X.
Em 1932 está internado. A sua morfinomania torna-se intolerável. Não se livrará da dependência que lhe corrompe a vida familiar e os casamentos, primeiro com Lucília Ferreira, depois com Carmen Cal.

Será sempre esse o seu buraco sem fundo.

Viria a morrer no dia 4 de outubro de 1935.

Mas sem fugir, entretanto ao fascínio do cinema que até meteu futebol e o mais que se estará para saber. 
A Invicta Film, aproveitará o seu folhetim, O Táxi n.º 9297, que também foi levado à cena no teatro, e o filme estreia-se no Cinema Trindade, no Porto, e no Salão Foz, em Lisboa, em Julho de 1927.

A história é tresloucada. Tem como cenário a propriedade de um milionário, Horácio de Azevedo, em Bretolho. Conta com Hair, o adido militar americano e com Arsénio Castro, o homem mais mal afamado de Portugal. Juntam-se-lhes um homossexual drogado, um velho com alucinações, uma dama de companhia, e regista-se um assassinato a tiro.
Tudo o que alguém possa exigir de uma trama.

Nesse mesmo ano, dedica-se ao futebol. Vigário Foot-ball Club é uma comédia da qual restam apenas alguns frames. Ou a imagem icónica do guarda-redes anão e da ideia de que qualquer equipa de futebol que se preze devia ter um.
«Chuta que o guarda-redes é anão!», uma das frases que marcou o anedotário do jogo em Portugal, pode muito bem ser fruto de uma obra que teve Alves da Costa, um dos célebres atores da sua geração, como protagonista. Aliás, Alves da Costa participou igualmente em Rito ou Rita?, outro filme realizado por Reinaldo Ferreira que precedeu em mais de 60 anos Victor ou Victoria?, por exemplo, de Blake Edwards, no qual Rita, chefe da estação telegráfica de Rio Tinto Maduro, é um rapagão disfarçado para fugir à fúria do pai da sua amada Gabriela, o irascível coronel Peixe-Espada.

Se pensavam que eu já tinha desenrolado a fita da imaginação (delirante!) de Reinaldo Ferreira, enganam-se. Há mais, muito mais de onde toda esta informação veio. Com futebol e com passarinho...

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