15/12/17
 
 
Nuno Ramos de Almeida 01/08/2017
Nuno Ramos de Almeida

nuno.almeida@newsplex.pt

O cimento das pessoas

Cultiva-se para o futuro. Durante muito tempo, as coletividades foram o maior exemplo de sementeira para criar gerações futuras. Aí se dava o espaço para a prática desportiva, o convívio e a cultura. A sua morte significa a destruição de uma memória, mas sobretudo de uma forma generosa de ver a vida: semeamos para outros poderem colher

No início do seu último livro, a antropóloga Paula Godinho conta a história de um velho camponês que sabe que vai morrer em pouco tempo mas que, apesar disso, se afadiga até ao último sopro de vida a lavrar as suas poucas terras e a deitar-lhes as sementes para uma colheita que ele sabe que nunca verá. “O futuro é para sempre”, concluía a antropóloga, que aprofunda o sentido dessa ideia, citando as palavras do poeta Federico García Lorca, cedo ceifado pelas balas dos pelotões de execução franquistas, quando falou na inauguração da biblioteca da sua aldeia da Andaluzia: “Porque é necessário que saibam todos que os homens não trabalham para si, mas para todos os que vêm a seguir, e este é o sentido moral de todas as revoluções e, em última instância, o verdadeiro sentido da vida.” 
Quando olhamos para as coletividades populares que vão sobrevivendo de outras épocas, podemos espreitar a cristalização deste credo em que a memória e o futuro se cultivavam e recriavam coletivamente. 

Ana Dias era adolescente quando passeava com uma amiga pelas ruas de Sines e ouviu música. Entrou pela porta da coletividade aberta e ficou por lá. “Nunca mais saí”, relembra. Aprendeu solfejo e a tocar um instrumento, mas também foi aprendendo a viver e trabalhar com outras pessoas e a escutar os mais velhos a relatarem a história desta terra de corticeiros e pescadores em que mais valia partir que torcer. 

A SMURSS (Sociedade Musical União de Recreio e Sport Sineense) foi fundada, com outro nome não tão suspeito, em 1927. Impedida de continuar pelo regime salazarista, foi “reorganizada” depois da revolução. O termo tem o seu quê de ironia histórica: “refundadores” é também o nome que tomaram os militantes comunistas, nos anos 30, que deram um novo fôlego a um partido debilitado pelas incursões da polícia política da ditadura. Fizeram-no ligando mais a militância às lutas populares nas fábricas e nos campos. Mas voltemos a Sines. A coletividade foi refundada a 1 de maio de 1975, Dia do Trabalhador, e as suas instalações foram erguidas com o trabalho da população, num terreno cedido que hoje se encontra sob a ameaça de ser retirado, desalojando assim uma casa construída pelo povo. A história de muitas coletividades alentejanas é muitas vezes uma história de resistência em que as populações se encarniçam na defesa das suas associações, sabendo que foram também elas que lhes deram o cimento para afrontar um regime que as condenava ao silêncio e à exploração. Depois da ii Guerra Mundial, o regime desconfiava de todos os ajuntamentos de mais de duas pessoas. Para o salazarismo, alentejanos a fazerem coisas em comum, mesmo que fosse “apenas” música, era uma conspiração subversiva. Todos os cuidados eram poucos para a PVDE, que passou a PIDE e acabou disfarçada de DGS, numa terra contestatária e insubmissa como Sines, onde os pescadores e assalariados rurais se tinham revoltado pela liberdade mais do que uma vez. Como provava a greve geral insurrecional de 18 de janeiro de 1934, em que os trabalhadores de Sines, Silves, Marinha Grande, Almada e mais algumas localidades com uma presença importante de operários e assalariados rurais param o trabalho e tentam tomar as suas ruas de assalto. No rescaldo da revolta, centenas de pessoas são presas e muitas vão morrer no campo da morte do Tarrafal, onde agoniza Bento Gonçalves, operário do Arsenal do Alfeite e primeiro secretário-geral do Partido Comunista Português.
As coletividades eram o sítio onde as populações trabalhadoras se juntavam. Aí se construía uma identidade, se vivia e se tentava ultrapassar as limitações impostas aos que trabalhavam.

Isso acontece por todo o lado onde havia influência de uma cultura operária, muitas vezes feita em conjugação com outras camadas da população. Quando entramos na Padaria do Povo, em Campo de Ourique, Lisboa, deparamo-nos com a sede da Biblioteca Cosmos, fundada por Bento de Jesus Caraça, intelectual e matemático expulso da universidade pela ditadura. É neste espaço onde se produzia um pão mais barato para as classes populares da cidade que os livros se acumulavam com a intenção de dar as asas da liberdade a todos aqueles que pretendiam escapar das garras da ignorância, que perpetuavam a sua dominação, que o fascismo lhes reservava.

Há muitos anos entrevistei o antigo operário e dirigente comunista Dias Lourenço, entretanto falecido, e que escapou uma vez da prisão de Peniche, mergulhando nas águas geladas e tempestuosas do mar. Ele recordou-me com orgulho o trabalho que faziam para aprender coisas, desde línguas a matemática, para conseguirem libertar-se de um trabalho escravizante, em condições inumanas, e em plena ditadura. Chegou a passar à mão na cadeia um manual de Álgebra, para outros presos poderem aprender. Num texto sobre a sua morte, escrito no i, sem autoria identificada no site, dizia-se o seguinte: Dias Lourenço nasceu em Vila Franca de Xira em 25 de março de 1915, filho de uma costureira e de um ferreiro. Foi amigo de infância de Alves Redol. “Muitas vezes, quando a maré já estava vazia, íamos de barco até uma rocha que ficava um bocadinho fora do Tejo no momento da vazão da maré. Descíamos e íamos apanhar o marisco. Éramos íntimos amigos”, disse Dias Lourenço em 2007 numa entrevista ao jornal “O Mirante”. Com Redol, Dias Lourenço é corresponsável pela popularização do neorrealismo. “O Alves Redol era o principal, mas eu e vários jovens com tendências intelectuais e políticas demos grande impulso a todo esse movimento literário que é conhecido naquela zona”, contou na mesma entrevista.

Aos 13 anos, Dias Lourenço começou a trabalhar como torneiro mecânico. Aos 17 aderiu ao PCP. “Éramos jovens profundamente ligados à intelectualidade e ao jornalismo. Organizávamos aulas no velho sindicato que funcionava como escola. Chegámos a juntar 50 ou 60 trabalhadores com mulheres costureiras e fiadeiras e operários. Aprendi a falar esperanto para poder dar aulas à malta. Tínhamos muita atividade literária e com forte participação nesses jornais da época. Não só de Vila Franca e do Ribatejo, mas também de Lisboa.”

O desaparecimento das coletividades populares não é apenas uma perda de memória, mas cria um vazio imenso em relação às funções que elas cumpriam na nossa sociedade. A ideia de que as coisas se mudam em comum e que se produz para outros, muitas vezes para tempos que não vamos ver, como fazia o camponês citado pela antropóloga Paula Godinho, é algo de fundamental para a sobrevivência da humanidade em tempos em que aquilo que poluímos e destruímos hoje é muitas vezes cobrado, em destruição, amanhã.

Recentemente participei num debate sobre associativismo no Largo do Intendente, num bairro popular de Lisboa em processo de gentrificação acelerada, em que os moradores populares estão a ser corridos pelo turismo e os apartamentos de luxo. Toda esta transformação da cidade está a ter expressões desumanas que estão a fazer perder a Lisboa a sua característica de cidade onde vivem vários tipos de pessoas. O primeiro passo para destruir essa identidade popular na cidade, tanto no Intendente como na zona oriental da cidade, como Alfama, está a ser a destruição das coletividades existentes: instituições como Os Amigos do Minho ou o Sport Clube Intendente estão a ser despejadas. Mas a destruição do associativismo e da capacidade de associação das pessoas não fica por aqui: novas associações com intervenção cultural, como a Cooperativa Sou Largo, também estão a ser mandadas embora. Toda a coletividade é má para aqueles que querem privatizar Lisboa.

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