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Mário Cordeiro 18/07/2017
Mário Cordeiro

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Limita…cão

Se formos a ver as razões por que um cão não deve entrar num estabelecimento – ou, no caso do verão, numa praia –, nada têm a ver com o cão em si, mas com o comportamento dos donos… e aplicam-se a qualquer ser, humano ou canídeo.

Devo dizer que não entendo as limitações que se colocam, praticamente em todos os estabelecimentos, à entrada de animais. Aliás, as coisas ficam ainda mais esquizoides quando se vê que, por exemplo, numa livraria, o acesso a cães é permitido e entusiasmado – a minha cadela já esteve na “mesa” de duas apresentações de livros – e, noutra, o segurança “rosna” e diz para o canídeo ficar cá fora… onde pode arranjar briga com cães que vão a passar, incomodar as pessoas, amedrontar-se ou até fugir.

Não entendo também porque é que um centro comercial grande (Allegro Alfragide – fica a publicidade, parabéns!) decidiu abrir as suas portas aos cães enquanto outros as fecham, olhando para os donos como potenciais membros do Daesh.

É curioso. Excluindo os espaços de restauração, que me parecem lógicos – embora então devêssemos exigir coberturas antipombos que, em Lisboa, não fazem cerimónia de esvoaçar, encher tudo de penas e até debicar o que estamos tranquilamente a comer, como me aconteceu há uns tempos numa esplanada de São Pedro de Alcântara, ou defesas antipardais, menos nojentos e mais simpáticos, mas igualmente insistentes.

A farmácia ao lado de minha casa deixa entrar os cães… noutras, a menos de cem metros de distância, o animal é escorraçado.

Se formos a ver as razões por que um cão não deve entrar num estabelecimento – ou, no caso do verão, numa praia –, nada têm a ver com o cão em si, mas com o comportamento dos donos… e aplicam--se a qualquer ser, humano ou canídeo.

Um cão à solta numa praia pode ser caótico no que perturba o bem-estar de quem está sossegadamente a ler ou a dormitar ao sol, ou simplesmente deitado na toalha a contemplar o mar. Mas o que dizer dos adolescentes que jogam à bola, das pessoas que colocam rádios em altos berros, que gritam e soltam um palavrão em cada duas palavras que dizem, que correm e nos enchem de areia?

Um cão pode fazer cocó – é certo. Para isso existem saquinhos bem baratos, usados pelos donos nos passeios quotidianos. E as pessoas, sejam “tias” ou “do povo”, que enterram beatas na areia, para depois uma criança as desenterrar e comer, podendo morrer? Sim… com uma beata no estômago pode morrer-
-se; com um cocó de cão, por muito nojento que seja, não se morre.

Os cães fazem xixis. Dará para enterrar, mas será mais difícil limpar. E as crianças? E os adultos, quando estão parados com água pela cintura, fingindo hesitar em mergulhar… e no fundo estão a “aliviar-se”?

No fundo, a questão não é o cão. São as regras que há que seguir, cão ou pessoa, seja de que idade for. Talvez algumas mulheres prefiram ter um cão a olhar para elas quando decidem tirar a parte de cima do biquíni do que uma data de “velhos babosos” que, curiosamente, colocam o chapéu-de-sol a uma distância menor do que curta para verem “TV à borla”!

A raiva que muita gente que não tem cães destila para quem gosta deles é inversamente proporcional à indiferença de quem tem cão relativamente a quem decide – com todo o seu direito – não ter.

Animais é como os chapéus do Vasco Santana, “há muitos”... e, de entre eles, os que convivem connosco. Ter animais é um hábito para muita gente e há casas onde o animal doméstico faz parte integrante da “família”.

Sem querer pronunciar-me sobre se é bom ou é mau ter animais em casa – cada caso é um caso, ou cada casa é uma casa... –, há, no entanto, vários aspetos em que a nossa sociedade tem de evoluir, até porque ter um cão não é, neste momento, uma raridade, e muitas famílias fazem férias com os cães exatamente para não terem de os abandonar ou deixar em locais estranhos e alguns, até, pouco recomendáveis.

Quando penso no meu cão, fico a pensar qual o mal que teria, hoje, por exemplo, num aprazível dia de verão na região Oeste, em que nem está muito calor (o que seria mau para ela), levá-la à praia e passear com ela à beira-mar. Não a levo porque não estou nem para ter uma discussão que seria desgastante, nem para me arriscar a pagar uma coima que pode ir aos 2 mil euros… mas se fumasse e deixasse beatas, ou latas de cerveja, ou vidros partidos de cerveja, ou detritos humanos de todo o tipo, aí duvido que alguém me viesse dizer alguma coisa.

O que é mais curioso é que há praias em que a presença de cães é autorizada, noutras não é, sendo praias similares e os tais “riscos” ou “inconvenientes para os banhistas” iguais – conclui-se, portanto, estarmos perante um poder discricionário e idiota.

Acho muito bem que os donos sejam responsabilizados pelo que acontecer e que o animal ande com trela – e as espécies consideradas por lei como “potencialmente perigosas” com açaime. No fundo, é tal e qual como na rua.

Se o dono prevaricar, então sim, deve pagar o preço da sua irresponsabilidade. Todavia, isso acontece com qualquer outra situação, como quando o tipo bêbado destrói um bar, o energúmeno da mota de água se diverte a fazer piruetas junto dos banhistas, ou os que colocam a sua vida em risco, mais as vidas dos amigos e familiares que os tentam salvar – já sem falar nos nadadores-salvadores, porque, sendo sempre “mais espertinhos do que os outros”, não respeitam os sinais das bandeiras e entram pela água dentro com a bandeira vermelha, achando que sabem sempre mais do que os outros.

Curiosamente, a dona de uma livraria em Lisboa que aceita cães confidenciou--me ter tido dois “acidentes” numa esquina mais escondida do estabelecimento…. Só que não foram os cães, foram meninos a quem os próprios pais disseram para fazer xixi ali, no cantinho, onde ninguém veria…

O nosso mundo, que se gaba, e muito bem, de ser civilizado, deve pensar onde se engloba na palavra “civilização”. Uma das noções de civilização é respeito.
E isso nada tem a ver com cães, tem a ver com pessoas.

Pessoalmente, tendo em conta a companhia que os animais de companhia fazem (designadamente os cães), incluindo a pessoas de idade e a pessoas sozinhas, creio que há que ter a coragem de dar passos em frente – como, aliás, já em tantos outros países da Europa – e vencer tabus e olhares de esguelha de quem ainda não compreendeu que cães, pessoas e natureza potenciam o respeito, a civilização e o enquadramento uns dos outros, e não são – nunca poderiam ser – antípodas, adversários ou opções mutuamente exclusivas.

 

Pediatra, Escreve à terça-feira


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