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ANEFA. “Sai mais caro trabalhar com madeira queimada”

ANEFA. “Sai mais caro trabalhar com madeira queimada”

Diana Tinoco Sónia Peres Pinto 19/06/2017 11:28

A Associação de Empresas Florestais explica que a madeira que ficou queimada em resultado do incêndio no concelho de Leiria vai ter uma utilização quase nula.

A madeira queimada nem sempre pode ser utilizada, tudo depende do estado em que tenha ficado. A garantia é dada ao i pelo presidente da Associação Nacional de Empresas Florestais, Agrícolas e do Ambiente (ANEFA). Mas no caso da madeira queimada pelo incêndio que deflagrou no concelho de Leiria, diz Pedro Serra Ramos, a sua utilização vai ser quase nula.

“Há madeiras que poderão ser aproveitadas para o mesmo fim que teriam se não estivessem queimadas. Mas pelas imagens que tenho visto pela televisão dá-me ideia que a dimensão do fogo foi de tal ordem que aquela madeira terá pouca utilização”, garante o responsável ao i.

Ainda assim, Serra Ramos admite que se não puder ser usada para celulose certamente servirá apenas para a produção de energia.

Pedro Serra Ramos critica, no entanto, as vozes que surgem nestas alturas e que acusam os empresários do setor de provocar incêndios para adquirir a madeira mais barata. “É errado pensar que a madeira por estar queimada vai ser mais barata porque a madeira, no seu geral, está a baixo preço”, acrescenta.

E o responsável explica o porquê destes preços: o mercado das madeiras, ao contrário de outros, não funciona com a lei da oferta e da procura. “Há alguém que estabelece o preço e, a partir daí, o preço faz-se por aí abaixo, retirando o valor das operações que vão sendo realizadas até chegar ao produtor. Quanto menos dinheiro a indústria pagar pela madeira – que é o que se está a passar neste momento – mais barata terá de ela ser paga ao produtor”, alerta.

Por isso mesmo afasta a ideia de que quanto mais incêndios existir mais o setor sai favorecido. “É um estigma que vem de há muito tempo. E é um estigma porquê? Normalmente as empresas que trabalham com madeira são empresas locais e muito familiares, se elas queimarem o que está à sua volta vão deixar de ter com que trabalhar”, acrescenta Pedro Serra Ramos.

E faz uma comparação à atividade de um padeiro: “ninguém acredita que um padeiro vá dar cabo de todos os fornecedores de farinha que estão à sua volta para ter de ir mais longe para fazer o mesmo pão e cobrar o mesmo preço. Na madeira funciona exatamente da mesma forma. As empresas não ganham nada em pegar fogo às matas que estão à sua volta porque vão ter de deslocar máquinas e pessoal para zonas mais longe, fica mais caro e recebem o mesmo valor pela madeira. É um custo acrescido”, salienta o presidente da ANEFA.

 

Perdas para o setor

O responsável vai mais longe e diz mesmo que sai “mais caro trabalhar com madeira queimada do que com madeira normal” e há casos em que as perdas podem ser muito elevadas fazendo as mesmas operações – cortar a madeira e levar até à fabrica.

Pedro Serra Ramos chama ainda a atenção para a crise que se vive no setor, com muitas empresas a fecharem as portas ou a mudarem de atividade. E dá exemplos: “Grande parte das empresas de serviços técnicos e de arborização estão a fechar ou estão a despedir gente ou a mudar de atividade. Os viveiristas florestais estão a mudar de atividade e estão a produzir planta agrícola”, diz ao i.

Os números falam por si: a associação conta com duas mil empresas empresas e 75 mil trabalhadores, quando há apenas quatro ou cinco anos esse universo atingia os 250 mil colaboradores. “O setor está a caminhar para o abismo”, alerta.

 

Falta política florestal

Para Pedro Serra, que também é técnico florestal, o problema que se vive no país é reflexo de uma “falta de política florestal que devia assentar numa gestão efetiva do ativo principal que temos que são as florestas e que não é feita”.

O responsável acusa ainda os municípios de fazerem “planos sobre planos” e de não gastarem essa verba na gestão florestal efetiva. No seu entender, “as florestas bem geridas previnem um incêndio”. E conclui: “Andamos a preocupar-nos em financiar estruturas que não contribuem nada para o desenvolvimento florestal”.

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