19/9/17
 
 
José Sá Fernandes 22/05/2017
José Sá Fernandes
Cronista

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Os meus irmãos: Ricardo e Paula

A proteção dos meus irmãos permitiu-me encontrar todas as vezes que foi preciso o caminho direito, mesmo quando atravessava a vereda mais inclinada

Sou aquilo que hoje sou em grande parte pelo bom exemplo que os meus irmãos Ricardo e Paula sempre foram para mim e pelo apoio que sempre me deram.

Tenho a sorte de ter dois irmãos extraordinários. São os dois muito inteligentes: o Ricardo, com uma força interior e uma perseverança e otimismo invulgares; a Paula, com um ímpar sentido de responsabilidade e noção de equilíbrio certo em cada momento.

Sempre fui o mais rebelde, provavelmente, o mais alegre e, certamente, o que fez mais asneiras – talvez características dos irmãos mais novos. Mas a proteção dos meus irmãos permitiu-me encontrar todas as vezes que foi preciso o caminho direito, mesmo quando atravessava a vereda mais inclinada. Foi talvez por isso que, desde novo, me alcunharam de “Rato Sábio”.

Tenho outros irmãos – primos, amigos, cunhados – e com eles guardo segredos, cumplicidades e intimidades várias. Uns acompanham-me há muito tempo; outros, por diversas razões ou acasos, fui escolhendo e reencontrando pelos anos fora. Muito embora com origens diferentes, para todos posso resumir e definir o começo de relacionamento com o verso de Pessanha: “Bom dia companheiro, te saudei/ Que a jornada é maior indo sozinho.” Uns, infelizmente, já partiram – que saudades!... Alguns fui perdendo – nunca se sabe de quem é a culpa. A maior parte continua e com cada um tenho memórias; com cada um tenho encontros, mais ou menos frequentes; com todos, amizade fraterna, um sorriso, uma esperança de que lhes corra tudo bem e, quando os sei doentes – as melhoras aos que agora estão mal –, é como se alguma coisa também me doesse.

Com os meus irmãos é tudo isso, mas, por termos a mesma raiz, o mesmo sangue, o mesmo amor aos nossos pais – o nosso querido pai já faleceu e a nossa mãe continua esperta e arguta, e carinhosamente preocupada e protetora connosco (“Olá, Mãe!”) –, o mesmo orgulho pela família (eu e o meu irmão estamos inchadíssimos por sermos tios-avós e já vem aí outra neta de outro dos filhos da nossa irmã), é uma coisa mais intensa, com mais laços e história.

Já passámos por partilhas (facilmente) – às vezes, motivo de desavenças entre irmãos –, infortúnios vários (separação dos nossos pais, morte do pai, dos avós, de tios, da prima, doença da nossa mãe), dificuldades financeiras (mais eu), derrotas profissionais, mas tudo juntos superámos com a honra, dignidade e sentido prático (nisto, o meu irmão é mestre) que nos incutiram (muito o nosso avô João Augusto). Tudo cimentou ainda mais a nossa união, que hoje é como se fosse uma rocha, granítica, de Trás-os-Montes, de onde ambos os nossos avôs vieram.

Somos os três formados em Direito e o forte sentido de justiça e a elevada vontade e obrigação de lutar por ela trespassaram dos meus irmãos para mim.

Somos os três benfiquistas – que emoção este tetra!

Adoramos os três o convívio à mesa e as nossas festas familiares são sempre vivas e alegres, feitas de risadas, atualidades, discussões que saltam de tema para tema – agora, cada um acompanhado pelo vinho que os meus irmãos, e respetivas famílias, produzem em Trás-os-Montes e na Beira duriense, e eu sempre a dizer que também há bom vinho na região de Lisboa.

E tantas mais coisas ainda. Termos esta paixão total pela nossa cidade – Lisboa – e estarmos normalmente do mesmo lado da barricada cívica e política. Aqueles entreolhares durante as conversas dos outros que só nós percebemos (entre mim e a minha irmã, é uma constante). O carinho mútuo pela família de cada um, desde os filhos e enteados aos sobrinhos, cunhados e amigos, que recebem de todos o mesmo abraço, o mesmo beijo. Tanta coisa…

Os três recebemos formação cristã e, este ano, lá fui de Lisboa em peregrinação a Fátima. Aos 59 anos, já demorei quase cinco dias: até à Azambuja sozinho, como de costume; e, depois, na boa companhia de um amigo dos tempos do colégio. Pensei muito neles, na nossa vida e na de todos os outros, na nossa sorte e no azar de muita gente neste mundo cheio de injustiças.

Esta “viagem” culminou com dois factos que nunca mais vou esquecer: um foi a prenda de um amigo não crente (agora, infelizmente, vejo-o muito pouco), que me ofereceu um terço abençoado pelo Papa – a lição de saber dar e receber, normal entre irmãos; outro foi a redação da minha sobrinha Luísa, de dez anos, que escreveu: “Se os meus irmãos estivessem em perigo, eu faria tudo para os salvar (…), eu subiria a maior montanha do mundo, atravessaria um vulcão, um precipício, uma muralha de 100 metros, e ainda lutaria com um dinossauro.” É isso. Também eu o faria, minha querida! A olhar para o próximo Dia dos Irmãos, 31 de maio, que bela redação esta.

Os brasileiros têm um ditado que diz: “O dia do benefício é a véspera da ingratidão.” Para nós, irmãos, é o contrário: é gratidão – “O dia do benefício é o da gratidão.” Obrigado, Manos!

 

Advogado, vereador da Câmara

Municipal de Lisboa

 

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