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Todas as sondagens dão a vitória a Macron

Todas as sondagens dão a vitória a Macron

AFP Nuno Ramos de Almeida 06/05/2017 11:57

Franceses vão eleger o novo Presidente no domingo. Todas as sondagens dão a vitória a Macron, mas uma Le Pen com mais de 40% vai ser uma dor de cabeça para as legislativas de junho e tornar a França difícil de governar.

Na última vez que um candidato da extrema-direita foi à segunda volta os tempos eram outros. O candidato era ‘o velho menir’, como é conhecido Jean-Marie, o pai de Marine Le Pen, e criou-se uma espécie de histeria coletiva para impedir a vitória da extrema-direita. Da extrema-esquerda à direita tradicional, toda a gente apelou ao voto em Jacques Chirac. Este último foi eleito com mais com quase 83% dos votos e Jean-Marie Le Pen ficou-se pelos 17% dos sufrágios. Desde desse embate, em 2002, tudo mudou.

A Frente Nacional passou a liderança a Marine Le Pen, que limou os aspetos mais nazis da herança ideológica do pai, e chegou a colocar um processo, no partido, ao progenitor, por negar repetidamente a existência do Holocausto. A extrema-direita, ao ter sido colocada como «inimiga do sistema», foi paulatinamente ganhando o voto de protesto e subindo em todas as eleições. Marine Le Pen atingiu o seu recorde, nesta primeira volta das eleições, conseguindo 7 679 493 votos e 21,30%, mais de 2 milhões de votos que o pai atingiu na segunda volta em 2002.

Se os resultados de 23 de abril fizeram da Frente Nacional o mais poderoso partido de França, devido ao afundar dos republicanos e dos socialistas, a possibilidade de Le Pen conseguir cerca de 40% na segunda volta de domingo faz soar todos os alarmes. A eleição do centrista Emmanuel Macron é também um ato que quebra com um conjunto de hábitos que têm permitido viabilizar o sistema político francês: normalmente um Presidente é eleito, o seu partido ganha a maioria nas legislativas seguintes e depois aumenta esse apoio nas eleições regionais. Acontece que Macron não tem partido. E apesar do sistema francês ser presidencialista e caber ao chefe de Estado a condução do poder executivo, nomeando um primeiro-ministro da sua confiança, o Governo precisa de maioria no Parlamento para poder legislar.

Na ausência de um partido do Presidente, terá de contar com os socialistas e os republicanos. Os dois partidos que garantem a alternância entre si no poder passariam a apoiar o mesmo Governo. O resultado disso seria transformar uma Frente Nacional com 40% dos votos em alternância de poder de facto.

Para este crescimento da extrema-direita, até a uma situação em que pode estar às portas do poder, contribuem a passagem de parte dos votos do candidato Republicano, François Fillon, para Le Pen e a abstenção e voto nulo de uma fatia considerável dos apoiantes do candidato de extrema-esquerda Jean-Luc Mélenchon. Sendo a primeira vez que este setor eleitoral não apela diretamente ao voto contra a Frente Nacional.

Perante a ameaça que pressupõe para a democracia em França e na Europa a ascensão da extrema-direita racista e xenófoba, esta posição, tomada em votação, da maioria da França Insubmissa, de não apelar ao voto, nem em Macron, nem em Le Pen, é legítima? A antiga candidata socialista Ségolène Royal pensa que não: «Não podemos deixar uma sombra de dúvida», disse ao El País,  acrescentando que não está a pedir um apoio a Macron mas uma mensagem muito mais importante. «O mundo inteiro observa-nos. França é um país líder no valores das civilização e dos direitos humanos, por isso a França de Macron deve ser a mais forte neste domingo», defendeu.

Mas há quem no campo intelectual da esquerda justifique uma não opção entre os dois candidatos. O historiador Emmanuel Todd, que em 1976 previu o fim da União Soviética, afirma que vai, pela primeira vez na sua vida, abster-se. «Vou-me abster com uma espécie de entusiasmo religioso. Para mim vai ser um abstencionismo ‘fundacional’, porque um mundo em que se confrontam o macronismo e o lepenismo, não é um mundo para mim. Não é um mundo para a verdadeira França. A vida está muito mais além disso», declarou. O historiador afirma que não se pode escolher entre racismo e servidão. Para ele, Marine Le Pen é o racismo e Macron é a servidão aos bancos e à Alemanha.

No mesmo sentido é a posição de três intelectuais franceses expressa numa coluna de opinião no diário Le Monde.  Henri Peña-Ruiz, Bruno Streiff e Jean-Paul Scot qualificaram de «chantagem indigna» as pressões para votar Macron. Lembram que a responsabilidade do crescimento da Frente Nacional é dos Governos franceses, nomeadamente o do Presidente François Hollande. Esse ponto de vista é partilhado por um número considerável de eleitores da esquerda francesa, garante Jérôme Fourquet, especialista em sociologia e geografia eleitoral, da empresa de sondagens Ifop. «Há uma parte do eleitorado mais à esquerda que não pode ser suspeito de estar em conivência com a Frente Nacional e que não banaliza, mas para quem o combate contra a deriva liberal é igualmente importante, porque pensa que são políticas como essas que permitem o avanço da extrema-direita», afirmou.

 

O que aconteceu na última semana?

Vamos por partes: o debate de terça-feira entre os dois candidatos terá contentado os eleitorados de ambos, com Macron a mostrar maior domínio dos dossiês e a candidata da Frente Nacional a conseguir o maior número de soundbites.

Apesar de as sondagens aos telespetadores darem uma vitória, no debate televisivo, ao candidato centrista, Marine Le Pen conseguiu imprimir o tom do debate e fazer uma certa ‘trumperização’ do combate televisivo. «Eu sou a candidata do poder de compra, você é o candidato do poder de comprar»; «A França será dirigida por uma mulher, ou por mim ou por Angela Merkel»; «Você é a França submissa [num piscar de olho ao eleitorado de extrema-esquerda de Mélenchon]»; «Você está de joelhos perante a UOIF [organização de muçulmanos franceses], perante os bancos e perante a Alemanha»; «Na minha visão do mundo, nem tudo é para comprar e para vender», foram algumas frases de Le Pen que foram pontuando o debate e a prestação da candidata da extrema-direita. Perante esta tempestade, Macron foi corrigindo dados económicos, enganos factuais e simplificações de Marine Le Pen, chegando a mostrar muita exasperação e irritação com ela, nomeadamente quando a candidata da Frente Nacional insinuou que Macron tinha dinheiro escondido em contas offshore no estrangeiro.

Na parte económica, o ex-ministro dessa pasta jogou os seus trunfos: Emmanuel Macron acha que «madame Le Pen» – como fez questão de lhe chamar ao longo de todo o debate – não está a contar aos eleitores toda a história de uma saída do euro. «As empresas vão continuar a pagar aos fornecedores europeus em euros, e em francos aos trabalhadores. Como é que isso vai funcionar?», começou por questionar Macron, frisando que a França é um país «aberto», onde muitas das empresas têm relações comerciais importantes que se estabelecem na zona da moeda única.

Marine Le Pen contestou que isso foi assim no tempo do ECU – a moeda que antecedeu o euro –, mas Macron lembrou que essa moeda serviu sempre apenas como referência, e não para transações comerciais. Le Pen continuou com a defesa de que os outros países voltariam às suas moedas. «Vai decidir pelos outros?», questionou Macron.

Muitos dos especialistas em Ciência Política e em Marketing político, consultados pela comunicação social francesa, sublinham que estes debates, salvo se correrem desastrosamente, tendem apenas a fixar os votos dos respetivos eleitorados.

 

Um apoio dos EUA

Depois de conseguir o apoio do antigo ministro das Finanças grego Varoufakis e do ministro das Finanças alemão, Schäuble, foi a vez de Barack Obama aparecer num curto vídeo, no Twitter de Macron, a apoiar o candidato centrista. «Devido à importância destas eleições, quero que saibam que apoio Emmanuel Macron», disse Obama, num vídeo com mais de um minuto, que o candidato do ‘En Marche!’ colocou nas redes sociais, sob o título: ‘A esperança está em marcha, obrigado @Barack Obama’.

Quanto ao atual ocupante da Casa Branca, Donald Trump, que anunciou ir visitar Jerusalém, a Arábia Saudita e o Vaticano, os três sítios das religiões monoteístas, não declarou apoio público a nenhum candidato, embora tivesse deixado entender a sua preferência por Marine Le Pen, ao dizer que é uma candidata muito forte em relação às questões da imigração, segurança e fronteiras.

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