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'Quando Paulo Baldaia me despediu, disse-me que queria agradar à corte de Lisboa’

'Quando Paulo Baldaia me despediu, disse-me que queria agradar à corte de Lisboa’

Diana Tinoco Sebastião Bugalho 06/05/2017 09:26

A chegar aos 50, o colunista Alberto Gonçalves abre-se sobre a sua polémica saída do “Diário de Notícias”. Com algum humor, não deixa de criticar a adesão mediática ao governo

Tirou Sociologia. Porquê?

Sempre estive orientado para seguir Matemática. Não segui porque tive um problema com uma cadeira, Química, e não tinha mais nada em mente. Pensei que, como não queria ir logo trabalhar, convinha tirar um curso (risos). Descontada a primeira opção, não tinha nenhuma apetência especial e escolhi uma coisa que não me desse muito trabalho.

E não deu?

Não. Só deu trabalho aturar os professores que eu tinha. Era uma espécie de delegação do Bloco de Esquerda que, à época, se chamava Política xxi. Era um ninho curioso.

Ainda há essa preponderância ideológica no meio académico?

Eu conheço muito mal a academia, incluindo aqui a do Porto. Mas creio que sim. Talvez dependa um pouco dos cursos. Varia sempre, não é? Mesmo na Faculdade de Letras, História estava mais à direita que Sociologia. Pelo menos, naquela altura.

Então foi para Sociologia porque...

Porque calhou. Era totalmente apolítico. Só comecei a pensar um bocadinho a política nessa altura.

Por causa do curso?

Sim, como reação ao meio. Gostava de ler sobre política, lia os jornais – sempre houve jornais lá em casa –, mas não tinha opinião em especial.

Os seus pais faziam o quê?

O pai era engenheiro e a mãe fez a carreira toda na função pública, na Câmara de Matosinhos. Ainda hoje a chateio por isso (risos).

Virou para a direita, então.

Não gosto de dizer isso assim. Digamos que não fui parar à esquerda graças à influência do curso, dos professores e da maioria dos alunos. O ambiente fazia-me pensar: se isto é assim, tem de haver melhor noutro lado.

E começou a escrever aí?

Não, só comecei depois de acabar o curso. Houve uma coisa que me fez aproximar da escrita e das crónicas. Foi ter descoberto, quando era miúdo, o Miguel Esteves Cardoso. Fui sempre um leitor, desde que ele foi para o “Expresso”, e depois comprei “O Independente” desde o início. Foi então que descobri o Vasco Pulido Valente, ainda mais decisivo.

Eram as duas grandes referências dessa altura.

Em língua portuguesa, sim, sem dúvida. O Vasco mantém-se até hoje; o MEC, não posso dizer que o siga muito. O tom que ele usa agora, não é que me desagrade, mas também não me interessa particularmente.

Despontou nos “vintes”, portanto.

Sim, escrevi uns tempos para um jornal regional e pouco depois acabei por ir parar, imagine, ao “Correio da Manhã”. Alguém conhecia alguém que conhecia alguém que me convidou. Nunca pensei ganhar um cêntimo para escrever o que me apetecesse. Depois, a “Sábado”, desde o início, e depois o “DN”. Estive dez anos em simultâneo nos dois sítios.

Esse gozo de escrever o que lhe apetece, ainda o tem?

Já tive mais. São muitos anos de profissão.

É porque passou a ser obrigatório?

Sim, agora não é exatamente um prazer.

Quando chegou essa noção?

Quando comecei a ganhar o suficiente para não precisar de fazer outras coisas. Trabalhei na Faculdade de Psicologia, trabalhei como sociólogo, e cheguei a um ponto em que não precisava de trabalhar. A partir daí, tornou-se uma profissão. Não escreves quando te apetece, escreves porque tens de escrever. Mas, atenção, gosto do que faço: sou um privilegiado, tenho os meus horários, tenho ganho muito melhor que a média, trabalho em casa.

Não deixa de ser elogioso os seguidores que vai acumulando.

Há umas pessoas que leem, sim (risos). Mas também não posso pensar muito nisso. Dá-me algum gozo, claro que sim. Mas não me deixo influenciar por uma ideia das pessoas que gostam do que escrevo. Às vezes posso escrever uma crónica que não agrade a determinado leitor.

Mas não escreve para o leitor; é isso que está a dizer?

Não posso. Ultimamente, até tenho escrito crónicas que poderão ser simpáticas para o eleitor médio do PSD, mas nada me impede de fazer o oposto. Se não concordar com alguma coisa, por exemplo, dita por Passos Coelho, é evidente que o mostro. Esses leitores não vão gostar, mas não posso estar a pensar nisso.

Já teve alguma abordagem de um partido?

Não, nunca. E acho isso uma medalha. Não me devem achar confiável. Muitos dos meus colegas, da minha geração e mais novos, já tiveram abordagens. Não quer dizer que todos tenham aceitado, mas tiveram. Conheci muita gente, entrevistei alguma, especialmente quando ia mais a Lisboa, mas nunca me abordaram.

Há pouco evitou o termo “direita”. Porquê?

Eu descobri que a esquerda não é um lugar bom para se estar, apesar de nunca lá ter estado. Descobri que não queria estar lá. A direita...

Na direita, está. É inegável. As pessoas olham para si e pensam nisso, não é?

É, é verdade. Mas quando olho para mim não penso nisso. Há na direita portuguesa muitas coisas de que não gosto, pessoas, ideias pelas quais não me sinto nada atraído.

Por exemplo?

O salazarismo não me interessa nada. Há uma ala do CDS que é inequivocamente saudosa do colonialismo e do salazarismo, de uma certa ordem que acham que não devia ter morrido. Não é nada isso o que penso. Também há uma direita da área da democracia cristã que não me seduz, não por repulsa, mas porque sou ateu. Esta direita que celebra Fátima não me diz nada.

Em relação aos democratas cristãos é o quê, em particular? Muito Estado social?

Claro, é por aí. Em termos de consequências políticas, é esse o problema. Eu vejo que a nossa direita ou é muito reacionária – mesmo que uma minoria – ou então um pouco socialista. A maioria da nossa direita é demasiado socialista.

Há medo de ser da direita na política portuguesa?

Há, nitidamente. E eu, ao dizer que não sou de direita, pareço partilhar esse medo (risos). Mas na política, creio que será porque a suposta direita mandou no século passado e ninguém se quer associar a isso. Apesar de tudo, depois de todas as tentativas da extrema-esquerda de tomar o poder – estiveram bem perto e já estiveram mais longe do que hoje –, nunca estiveram prolongadamente no poder, nunca criaram os anticorpos que a direita criou. Antigamente, antes d’“O Independente”, ser de direita era ser racista, protonazi, ou coisa parecida. Ainda são frequentes os discursos que insinuam isso.

Esse receio de ser de direita também passa dos políticos para os opinadores?

Claro. A maioria. Há 15 dias escrevi um artigo chamado “O Comentador de Direita”.

Era o Pedro Marques Lopes? (risos)

Não, não era. Eu não estava a pensar em nomes concretos, mas há vários que merecem a definição. Parece que gostam de mostrar: “Eu não sou de esquerda, mas tenho amigos que até são.” Na América há muito a questão de o branco tentar desesperadamente exibir um amigo negro. É parecido. Cá, as pessoas de direita realmente têm amigos de esquerda.

O Alberto tem?

Um ou dois, mas não politizados. Podem votar à esquerda, mas não estão ligados ao comentário político ou aos partidos.

Desses não seria amigo?

Dificilmente. A partir de uma certa esquerda, digamos, dificilmente conseguiria lidar com uma pessoa que, caso pudesse, não permitiria a minha liberdade. Seria um contrassenso. Falo com qualquer pessoa que me seja apresentada, mas não teria nenhum prazer nisso. Não conseguiria ser amigo de um estalinista ou de um leninista.

Não se vê a tomar café com o João Galamba?

Não. Não teria prazer absolutamente nenhum, apesar de conhecer pessoas de direita que vão tomar café com o João Galamba, almoçar com o João Galamba, se calhar, passar férias com o João Galamba. Depois há aqueles comentadores de direita que não dizem uma única coisa que não seja de esquerda. Servem ativamente este governo. Por isso é que escrevi o tal artigo: irrita-me profundamente. Não há painel televisivo em que não se tenha a esquerda e a direita – e em que quem representa a direita não esteja contra Passos Coelho. Embora, de início, eu não tivesse grande respeito por ele, isto traduz algum mérito. É sinal de que o homem não pode estar totalmente errado.

E que erro lhe apontaria?

Antes de ele ser líder do PSD, critiquei-o bastante. Achava que ele fazia – e fez – o jogo de Sócrates para atacar a Ferreira Leite. Depois de chegar a líder, melhorei a opinião. Como governante, não reformou nada. Saneou um bocadinho as contas.

Foi inércia dele ou a situação de emergência?

Acho que teve a ver com o partido. Passos Coelho não conseguiu fazer frente à resistência do PSD.

Há quem também use a Constituição como álibi para a ausência de reformas.

É verdade, foi uma barreira. Aquilo é do tamanho de uma lista telefónica. Há países civilizados que não têm propriamente uma Constituição e outros que tem uma do tamanho de um folheto. A nossa trata de tudo. É assumidamente orientada. O Tribunal Constitucional age contra toda e qualquer medida que possa reformar o país.

Há muita direita, também no PSD, que votou em Marcelo Rebelo de Sousa...

Eu também. Tristemente, mas votei.

Agora parecem achar “nós não votámos nisto”, mas a única crítica social-democrata contra Marcelo veio, discretamente, de Marco António Costa...

Eu espero que o Marco António Costa não seja representativo de nada.

E porque acha que não o criticam?

É uma boa pergunta. Talvez achem que Marcelo faz isto para ganhar poder e legitimidade se um dia tiver de confrontar--se com o governo. Presumo que haja no PSD quem pense o mesmo.

A direita foi enganada ao votar na sua candidatura?

Alguma, creio que sim. Eu votei nele para não votar em Sampaio da Nóvoa. Mas houve quem achasse que ele chegava e corria com a geringonça na primeira oportunidade. O que não me ocorreu de todo foi que Marcelo faria o exercício de legitimação do governo que está a fazer.

Continua a achar a solução de governo contranatura?

Continuo. Ninguém avisou o eleitorado para aquela possibilidade.

Mas a popularidade disparou.

Sim, continua a crescer. A verdade é que, para lá da retórica, ainda não fizeram nada que violasse as regras básicas da “Europa”. Por outro lado, vão fazendo o suficiente para agradar a um certo eleitorado: a função pública, certas clientelas que mantêm. Com isso e com a comunicação social, as sondagens só podem ser boas.

A comunicação social?

Completamente controlada. Ou quase toda – ainda há um jornal que me paga para escrever. Mas a crítica a este governo é diminuta comparativamente ao governo anterior, face a ações semelhantes ou a ações muito mais gravosas. De resto, os jornalistas simpatizam com este governo, naturalmente, com esta ideia de governo, com esta aliança. Nem é necessária grande pressão exterior.

É de direita num país de esquerda, do Porto num campeonato em que o Benfica ganha. Gosta de ser sempre do contra?

Só sou do Porto desde que o Benfica ganha. Não é de propósito, mas é assim que acontece, sim. Sempre fui assim.

O afeto que referiu, entre a imprensa e o governo, esteve envolvido na sua saída do “Diário de Notícias”?

Claramente. Ou porque alguém de cima falou ou porque alguém de baixo achou que prestaria um serviço a alguém de cima.

Paulo Baldaia admitiu não apreciar o seu estilo de escrita...

Quando Paulo Baldaia falou comigo ao telefone, foi a única vez e foi para me despedir. Era diretor há cinco meses. Disse que eu confundia os leitores do “DN”: havia quem só fosse à página do “DN” por minha causa e ficasse confuso com o resto do jornal, e havia leitores “naturais” do “DN” que ficavam confusos com a minha crónica, e a culpa era minha. Segundo o próprio me disse, o objetivo dele era o de evitar confrontos e agradar “à corte de Lisboa”. Não queria chatices.

Ficou chocado?

Honestamente, aquilo divertiu-me. Devo ser das poucas pessoas no mundo que se riram enquanto eram despedidas.

Não ficou com vontade de escrever uma crónica sobre essa conversa?

Deu, bastante. Não escrevi porque correu aquele período inicial e depois passou. Não queria escrever noutro órgão de comunicação social sobre isto. Aqui respondo porque é uma entrevista e me perguntam.

Liga muito às redes sociais? Foi lá que rebentou a polémica...

Não, demorei muito até ter Facebook.

Tem noção de ter uma escrita provocatória?

Tenho, sei o tom irónico do que escrevo. Tinha 24 anos quando a minha primeira crónica foi publicada e começou a sair assim.

E as críticas, interessam-lhe?

Absolutamente nada. Nem os elogios. A não ser que venham de alguém que eu respeite muito. O que motiva as críticas, em grande parte dos casos, é a questão ideológica.

E ideologicamente, como se define? Um conservador?

Não, não. Um libertário, se quiser. Não aprecio as etiquetas mas, se me apontassem uma arma e me obrigassem a decidir, diria que sou um libertário. No conservadorismo, não consigo perceber aquele lado de alguns portugueses que gostavam de viver em Oxford. Isto pode soar como o tal “comentador de direita”, mas não partilho com aquela direita a pose e a posição moralista sobre os costumes.

Mas no que diz respeito ao mundo árabe não é nada liberal...

Isso é outra questão. Eu sou pela liberdade, o mundo árabe é que não. Na versão dita extremista, é o grande perigo dos nossos tempos. Nada nos ameaça mais que isso. Desde logo, demograficamente: vamos chegar a um ponto em que os atentados já não serão necessários. Eles vão ganhar pelo número. Já são maioritários nalgumas zonas, já podem decidir os equivalentes a juntas de freguesia na Alemanha e no Reino Unido. Devemos ser restritivos na imigração, devemos averiguar as intenções de quem entra, devemos prender os imãs que promovam a luta armada em mesquitas. É o mínimo.

Concorda com os argumentos de Marine Le Pen nessa questão?

Não consigo discordar da política migratória da sra. Le Pen, mas se ela ganha em França e isso leva ao fim do euro e da União Europeia, será muito mau para Portugal. Se não estivermos sob as restrições da União, entraremos numa deriva muito perigosa. Sem Europa, num país exposto como o nosso, desgraçávamo-nos bem antes de o islão chegar. Não simpatizo com a sra. Le Pen em praticamente mais nada, mas ela alerta para coisas que fazem sentido porque o centro abdicou de falar sobre elas.

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