27/4/17
 
 
Marta F. Reis 21/04/2017
Marta F. Reis
Sociedade

marta.reis@newsplex.pt

Vacinas de informação clara e no sítio certo

É fácil julgar e invocar toda a racionalidade do mundo quando os outros parecem tomar decisões idiotas. Ninguém quer um retrocesso civilizacional, mas não é a chamar aos outros burros que lá vamos

A gravidez e os primeiros tempos de maternidade fazem-nos parecer as pessoas mais desinformadas e medrosas da história. Comigo foi assim: a cada sinal estranho ia pesquisar na net – e era seguida por uma médica amiga a quem podia ligar, mas às vezes temos receios parvos que há um certo pudor em partilhar. Os medos disto ou daquilo começam cedo. Não sendo o protótipo daquela pessoa que faz questão de cumprir toda a checklist da maternidade moderna (ou pensava eu que não seria, porque até uma ecografia 3D em que não se viu quase nada acabei por fazer), também paguei umas boas dezenas de euros por um curso de preparação para o parto, com o chamariz de que, além das sessões, teria direito a workshops sobre massagens para as cólicas ou como fazer sopinhas – coisas que nos fazem abrir os cordões à bolsa quando o nosso futuro filho não passa de uma lentilha, mas que mais tarde ficam para a lista do que teria sido giro (ou então só perda de tempo) ter feito. Ter um filho passa depressa a fazer parte da normalidade da vida, com todos os inesperados que traz e bom senso que pede.

Estávamos um dia numa sessão do curso de preparação para o parto quando se falou de vacinas. Um dos casais do grupo disse prontamente que não ia vacinar o filho ou filha. Já não me recordo dos argumentos, mas naquela hora a que estavam pessoas disponíveis para ser informadas, tive de ser eu a contrariá-los e a falar da “imunidade de grupo”, de como a decisão deles poderia prejudicar-nos a todos. E lembro-me de me ter irritado o facto de, num espaço onde tanto se falava de dar sempre o melhor aos nossos filhos, de pormenores como não usar toalhitas e limpar-lhes o rabo com compressas molhadas em água, não se ter perdido ali um bocado a desmontar os argumentos da não vacinação. Uma pessoa, quando tem medo e não é esclarecida de forma convincente e por alguém que considere uma autoridade – o que certamente não seria eu, naquela sala uma grávida sem qualquer galão de médica ou enfermeira para apresentar –, vai continuar determinada a fazer o que crê ser melhor, por mais errado que esteja. Lembrei-me deste episódio – eu, meio corada, a bater naquela tecla enquanto o programa da sessão teimava em continuar – nestes últimos dias, em que só faltou crucificar na praça pública os pais que não fazem vacinas aos filhos. Estão errados, claro que estão. Ninguém quer um retrocesso civilizacional. É fácil resolver isto com vacinas obrigatórias? Certamente, ainda que continuasse a haver exceções clínicas. Mas quantos pais não estarão mal informados e com quantos não se terá perdido oportunidade para os informar melhor, por exemplo quando andavam na escola? Se calhar, a imunidade de grupo devia ser um conceito obrigatório nos manuais, como tantos outros de promoção da saúde. Ou no médico ou nos cursos de formação para o parto, etc. Mais do que chamar-lhes burros no calor do momento e fazer a apologia da ciência, desligada daquilo que são os anseios tantas vezes irracionais das pessoas, parece-me que continua a faltar informação precisa nos locais onde a devíamos ter. E vou somando alguns exemplos.

Quando a minha filha se aproximava dos seis meses e se pôs a questão de levar ou não a vacina do rotavírus, que não está no Programa Nacional de Vacinação, a pediatra tinha uma opinião, a enfermeira do centro de saúde que lhe dá as vacinas tinha outra. E nós ficámos no limbo, a decidir como achámos melhor. Antes disso, quando o peso dela naqueles primeiros dias diminuiu, no centro de saúde quase me fizeram sentir criminosa por estar reticente em dar-lhe suplemento depois de meses de persuasão para os benefícios da amamentação em exclusivo. Diziam-me que a miúda precisava da fórmula quando, horas depois, numa consulta de amamentação, ouvimos o contrário, que palpando as fontanelas se via que ela estava perfeitamente hidratada. E nós a apanhar bonés, porque até ali nunca nos tinham falado de ver a hidratação pelas fontanelas. De volta ao centro de saúde, já munidos da informação das fontanelas, lá estava a enfermeira com aquele olhar de quem ou lhe dávamos o suplemento ou ia chamar a polícia. Depois, a pediatra disse que era melhor não tirar o leite em pó e darmos as duas coisas, algo que outra enfermeira veio a dizer que podíamos ter feito... Quando foi da vacina da BCG e a úlcera no braço rebentou com pus, estávamos num spa do bebé (fui mesmo a todas) e a terapeuta olhou-nos como se estivesse a ouvir falar do efeito normal da vacina pela primeira vez. E nós ficámos preocupados, claro, até uma chamada para a Saúde 24 resolver o assunto. Em que ficamos? A medicina não é matemática mas, no combate desleal entre ciência e opinião – de que falou o ministro da Saúde esta semana –, as opiniões não estão só em sites refundidos na internet, somos bombardeados com elas a toda a hora.

Jornalista

Escreve à sexta

 

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