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Nina Donovan: "Não vou pedir desculpa por usar uma linguagem tão ou menos ordinária quanto a que usou Trump"

Nina Donovan: "Não vou pedir desculpa por usar uma linguagem tão ou menos ordinária quanto a que usou Trump"

Raquel Carrilho 07/02/2017 22:17

Até à Marcha das Mulheres, passado dia 21 de janeiro, era uma perfeita desconhecida de 19 anos. Mas quando a atriz Ashley Judd subiu ao palco, em Washington, e declamou o poema "Nasty Woman", Nina Donovan tornou-se um símbolo para uma geração de jovens mulheres. O B.I entrevistou-a

Estudar, trabalhar em part-time num restaurante e participar em workshops e sessões de poesia. Era assim o dia-a-dia de Nina Donovan, uma jovem do Tennessee. A sua vida era como a de tantas outras raparigas de 19 anos. Até à noite em que viu Donald Trump chamar Hillary Clinton, durante um debate presidencial, “nasty woman”. Tomada de assalto por uma vontade de dizer o que pensa - no ano em que, pela primeira vez, poderia votar, Nina escreveu um poema que rouba o título à expressão proferida pelo agora presidente dos EUA.

No passado dia 21, durante a Marcha das Mulheres que reuniu milhões de pessoas nos EUA e em todo o mundo numa voz comum contra Trump, a atriz Ashley Judd declamou as palavras criadas por Nina Donovan. Ela que escreveu que é uma “nasty woman», mas não tão “nasty” (má, suja, grosseira, obscena, perversa) como “o homem que parece tomar banho em pó de Cheetos” e definitivamente não tão má como “o racismo, a fraude, os conflitos de interesses, a homofobia, o abuso sexual, a transfobia, a supremacia branca, a misoginia e a ignorância” de Trump.

Foi durante um dos debates presidenciais que Donald Trump chamou a Hillary Clinton “nasty woman”. Assim que ouviu a expressão pensou imediatamente em escrever sobre isso?

Definitivamente soube logo que queria escrever sobre isso (risos)! Estava a ver o debate com a minha família e assim que ele chamou à Hillary “nasty woman” soube imediatamente que o meu próximo poema teria de ser sobre aquilo! No princípio tinha um poema cómico em mente, mas à medida que fui pesquisando mais sobre os temas que queria abordar, mais sério, emocional e importante o poema se foi tornando. Apaixonei-me e não conseguia parar de escrever - acabei por escrever uma peça de sete minutos, que é o dobro do tamanho das peças que costumo escrever. Este poema vai ser sempre especial, para mim. Nem nos meus maiores sonhos imaginei que pudesse ter o alcance que teve.

O alcance que teve deveu-se ao facto de Ashley Judd o ter recitado quando subiu ao palco, em Washington, durante a Marcha das Mulheres, no passado dia 21 de janeiro. A atriz ouviu o poema durante a sessão State of the Word, em dezembro, na qual o declamou pela primeira vez. O que é que ela lhe disse depois do espetáculo?

Ela chamou alguns de nós à parte para nos dar os parabéns e virou-se para mim, de repente, e disse: “Estou a pensar em usar o teu poema na Marcha das Mulheres em Washington”. Fiquei completamente boquiaberta. No princípio pensei que ela estivesse a gozar comigo (risos). Mas depois percebi que ela estava a falar a sério e agora estou mais do que agradecida por esta oportunidade. A Ashley mudou a minha vida.

O que sentiu ao ouvir o seu poema ser declamado perante uma multidão?

Estava a fazer stream da performance no meu smartphone enquanto estava a caminho da Marcha das Mulheres em Nashville, e não conseguia parar de sorrir e de agradecer a Deus. Continua a parecer um sonho. Ver o fogo nos olhos e a paixão na voz da Ashley e saber o grande número de pessoas que ela estava a educar... Ela é uma mulher talentosa, humilde, forte e bela, e sinto-me honrada por lhe poder chamar amiga. 

Considerando a forma agressiva com que o presidente Trump tem respondido a todos aqueles que o criticam, não teve receio? Ou, antes pelo contrário, até estava desejosa que ele dissesse algo para lhe poder responder?

Para ser honesta, ainda continuo à espera que ele me responda no Twitter (risos), mas não estou a contar com isso. Admito que temo que alguns dos seus apoiantes venham atrás de mim, mas se isso acontecer, apenas serve para mostrar os monstros que existem dentro deles. Se alguém me atacar apenas por eu estar a fazer uso da minha liberdade de expressão, só mostra que tive todos os motivos para escrever este poema. Não acho que ninguém me venha atacar, mas há pessoas que queriam que eu fosse despedida [Nina Donovan trabalha em part-time na cadeia Dunkin’ Donuts], apenas porque não concordam com aquilo que disse.

Algumas pessoas têm criticado os termos que usou, como a palavra “pussy”. Como responde a essas críticas?

Onde é que estavam essas pessoas quando o Trump disse “grab’em by the pussy”? Não há nada suave acerca da misoginia. Os maus tratos dados à comunidade LGBT, às mulheres e às minorias étnicas é algo nojento e não há nenhuma maneira simpática de descrever os preconceitos dos quais elas são vítimas. Não vou pedir desculpa por usar uma linguagem tão ou menos ordinária quanto a que usou Trump.

Sente-se pressionada para ser uma das vozes desta geração por ter criado este poema?

Sinto-me muito pressionada, principalmente em relação àquilo que vou escrever a seguir. Não escrevo sempre poemas políticos, mas sinto-me pressionada a começar a fazê-los em exclusividade. Vou continuar a ser fiel a mim mesma, uma rapariga meio pateta e tonta, e espero que as pessoas consigam aceitar esse meu lado e os poemas que possam ser fruto dessa patetice, sobre temas não muito políticos. Sinto-me honrada de as pessoas me verem como uma figura pública moderada e espero que continuem a sentir a esperança que tento transmitir com os meus poemas. 

Com que idade começou a escrever?

A primeira poesia slam que escrevi foi durante o meu ano de caloira no liceu. Nem fazia ideia do que era recitar! Aprender mudou a minha vida.

A sua escrita foi sempre politizada?

Tento não escrever sobre a mesma coisa em todos os poemas. Quero ser uma artista multifacetada. Gosto de ser imprevisível, mas admito que o humor tem presença constante nas minhas peças. Tento misturar algumas piadas patetas com temas mais sérios.

Votou?

Logo nas votações antecipadas! Estava excitadíssima por poder votar pela primeira vez na vida. Senti-me tão importante só por estar naquela cabine de voto! Nunca não votarei. Demasiadas mulheres antes de mim lutaram com unhas e dentes para eu poder ter este direito.

Estuda Sociologia na Faculdade Comunitária Estatal da Colúmbia. Pretende exercer?

Espero vir a ser professora de Sociologia! Estou super interessada em ensinar, principalmente se for algo relacionado com Estudos de Género ou Estudos Feministas.

A verdade é que já ensina poesia a crianças. A poesia voltou a estar na moda?

Alguns músicos, como a Beyoncé ou o Kendrick Lamar, usam a recitação em alguns dos seus álbuns, e acho que isso definitivamente deu uma nova popularidade à poesia. A verdade é que as artes nunca se vão embora e a poesia é uma das mais importantes.

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