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Cornucópia: Marcelo extravasou os seus poderes? Há quem ache que sim

Cornucópia: Marcelo extravasou os seus poderes? Há quem ache que sim

João Porfírio Margarida Davim 19/12/2016 07:57

Todos condenaram o modus operandi presidencial.

Marcelo Rebelo de Sousa apareceu ontem no Teatro da Cornucópia para uma reunião com a companhia durante a qual perante as câmaras e os jornalistas tentou conseguir um estatuto especial para impedir o fim do grupo fundado por Luís Miguel Cintra. O Presidente chegou a pedi-lo ao ministro da Cultura que inesperadamente apareceu no encontro. Mas se há muito quem queira salvar a Cornucópia, também há quem ache que a Marcelo extravasou os seus poderes ao intervir no caso.

As críticas vêm de vários quadrantes. Um dirigente socialista que se tem empenhado nas redes sociais na defesa do Teatro da Cornucópia, um ex-assessor de Pedro Passos Coelho e um ator. Todos condenaram o modus operandi presidencial.

"Não descobri o teatro na véspera da comoção. Não descobri o Teatro da Cornucópia na semana passada.  Não fui ao velório de ontem, desde logo porque os compromissos com amigos me merecem tanto respeito como as instituições. Mas fiquei descansado em não poder ir quando antecipei que a ocasião iria ser mais um palco para algo que Eduardo Paz Ferreira descreveu, noutro contexto, como alguém “extravasar os seus poderes constitucionais”.", escreveu o deputado e dirigente socialista Porfírio Silva no seu blogue.

Assumindo-se como "admirador declarado de Luis Miguel Cintra", Porfírio Silva critica a atuação de Marcelo, que acusa de aproveitamento político da situação.

"Não subi ontem ao palco da Cornucópia como predador, em exercício de doentia insistência na política como espectáculo", escreve o socialista, que defende que a Cornucópia deve ser ajudada, mas não através de um estatuto especial como defendeu o Presidente.

"Se há regulamentos, procedimentos, leis injustas – mudem-se, não para a Cornucópia, mas para todos", frisa Porfírio Silva.

De resto, a forma como o Presidente pediu ao ministro da Cultura um estatuto especial para a companhia de teatro de Luís Miguel Cintra é alvo da ironia do ator Albano Jerónimo.

"Não somos todos excepcionais? (Mi liga Presidentii, tou me sentindo ordinário) [sic]", escreveu Albano Jerónimo na sua página de Facebook.

Também sarcástico é o comentário do ex-assessor de Pedro Passos Coelho, que vê na atitude do Presidente um precedente perigoso.

"A mediação presidencial para impedir o encerramento da Cornucópia será certamente replicada em quaisquer outras situações periclitantes: escolas, centros de saúde, unidades fabris, explorações agrícolas, cafés, restaurantes, mercearias e comércio em geral. A falta do vil metal cederá a esta onda de afectos. Em época natalícia, só podemos ter esperança no futuro", ironiza o social-democrata no Facebook.

Contactada pelo i, fonte oficial da Presidência não esteve disponível para fazer comentários sobre a forma como decorreu a reunião informal do Presidente com a companhia teatral perante a presença da comunicação social e com a aparição do ministro da Cultura.

O i sabe, contudo, que o ministro já tinha por outras vezes reunido com representantes da Cornucópia, tendo ficado decidido que o Ministério da Cultura continuaria a financiar o pagamento da renda da companhia até ficar terminado o processo de encerramento.

No último quadro de apoio da DGartes, a Cornucópia recebeu 309 mil euros para quatro anos, a que acresce o valor da renda do espaço do Teatro, que é paga pelo Ministério da Cultura.

Em 2006, a companhia chegou a receber 600 mil euros por ano. Mas, apesar dos cortes, continua a estar entre o grupos de teatro que mais recebem do Estado, sendo que no período entre 2013 e 2016 o apoio máximo atribuído por companhia foi de 400 mil euros.

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