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António Arnaut. “Vi a corrupção e fui-me embora. Fui mais útil ao PS saindo do que ficando”

António Arnaut. “Vi a corrupção e fui-me embora. Fui mais útil ao PS saindo do que ficando”

Diana Tinoco Luís Claro 02/12/2016 16:07

Fundador do PS acredita que Costa vai durar quatro anos e defende que aliança à esquerda deve manter-se a seguir às eleições

António Arnaut entusiasma-se a falar do passado. Nas paredes do seu pequeno escritório, em Coimbra, está lá tudo. A ata fundadora do PS, as dezenas de livros que escreveu e inúmeras fotografias. Com Soares, Miterrand, Miguel Torga. Destaca uma em que está a discursar, em Santarém, nas comemorações dos dez anos do 25 de Abril. Ao seu lado estão Salgueiro Maia, José Saramago, Maria de Lurdes Pintansilgo e Vasco Lourenço. Gente que admira. Mas o seu grande orgulho é o SNS. “Estou vivo graças ao Serviço Nacional de Saúde. A minha reforma não dava para tantos tratamentos”.

Gosta de ser tratado por pai do Serviço Nacional de Saúde?

É uma designação carinhosa. Eu sou o autor da lei que criou o Serviço Nacional de Saúde, mas se a lei tem progenitor, tem sobretudo a mãe. A mãe é que conta e a mãe é a Constituição. Se ela só tivesse o pai há muito tempo que tinha sido revogada e o Serviço Nacional de Saúde destruído. O que lhe tem valido, o que a tem amparado neste percurso acidentado de quase 40 anos é a Constituição da República.

Previa aquilo que aí vinha quando optou por abandonar a política ativa? 

Previa... A corrupção tinha começado e quando começa é como uma epidemia e não há propriamente vacina. Só a denúncia pública. Mas a imprensa também teve a sua cumplicidade nisto, porque em vez de denunciar casos reais pôs-se a espetacular com outros irreais. Hoje tudo está comprado ou vendido. Quase tudo. Eu tenho a minha alma limpa e se tivesse ficado na política eu conservava a minha alma limpa, mas podia ter alguns salpicos, porque estava limitado pela camaradagem e pela solidariedade que devia aos meus correligionários. Eu não podia estar a acusar o partido. Mas eu digo aí (aponta para o romance “Rio das Sombras”) o caso de um sujeito que quis ser deputado dois ou três meses para ficar no currículo e pagou cem contos ao PS para ir nas listas. Isso é verdade, mas não digo o nome. Eu fiquei tão indignado. Estou a falar há 35 anos ou 40 anos. Cem contos era muito dinheiro. Esses contratos não se fazem, mas era assim. Veja o que se passa hoje nos Estados Unidos. Quem não tem dinheiro não pode aspirar a desempenhar um cargo público. Aqui em Portugal tem que ter caciques para angariar os votos. 

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