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Shiki Miki. O lugar onde o kitsch renasce

Shiki Miki. O lugar onde o kitsch renasce

Cláudia Sobral 23/11/2016 21:44

“The Holy Package” é a primeira exposição da mais recente galeria de Lisboa, que inaugura hoje com uma viagem pelo universo de Bassanti e Binau. Onde homens de ouro se movem entre ovos-elefantes e figuras como Amy Winehouse e Karl Lagerfeld

Não é novo que o kitsch passou a cool, e kitsch pode ser um Karl Lagerfeld numa tela sobre uma artista que descansa numa cama de ar à entrada de uma galeria enquanto se monta uma exposição, que não é sua mas há de ser um destes dias. Cenário certo para um lugar como este a dois dias da inauguração de “The Holy Package – Side A”, exposição de Bassanti e Binau que acontece ser também aquela com que inaugura hoje a mais recente galeria de Lisboa, na Lapa, batizada Shiki Miki por Bassanti, feito artista entre a António Arroio e a Zé dos Bois (ZDB), por onde andou até há poucos anos, quando se mudou para Paris.

Shiki Miki não é um milkshake cor-de-rosa, é slang alemão para kitsch a que o tempo se encarregou de dar o sentido de cool e divertido também, definição mais que perfeita para a versão de kitsch que lhes interessa, nesta galeria que aconteceu mais por acaso do que por outro motivo qualquer, num dia de dezembro, o último dezembro, em que Bassanti teve a ideia de abrir uma loja no seu ateliê em Alfama que afinal não dava para loja e por isso veio dar a este lugar, que melhor do que loja seria galeria. “Vai ser uma galeria, apesar de ser uma galeria que cruza várias disciplinas, uma delas a moda, dado o meu projeto de esculturas vestíveis — wearable art soa melhor do que em português”, sorri Bassanti. “Também gostava de apresentar aqui a minha coleção, da qual trouxe algumas peças de Paris.” Como o macacão preto pintado à mão que vemos estendido no chão ou os quimonos que vão poder ser usados na inauguração.

“A nossa ideia é que as inaugurações voltem a ser divertidas, que as pessoas não vão às inaugurações só porque é suposto ir, para ser visto ou para ver, para fazer negócios ou fazer o trabalho de casa”, diz Bassanti, enquanto faz questão de deixar bem claro que a Shiki Miki não pertence à indústria da arte. “Fazemos parte do mundo da arte, mas são duas coisas muito distintas, com regras muito distintas e essa é uma linha muito importante na nossa estrutura conceptual. Enquanto galeria, é uma galeria comercial porque quer vender trabalho e tem colecionadores, mas não segue as regras da indústria, não é uma indústria.”

Como o “Side A” e “Side B” desta exposição inaugural, em que Bassanti apresenta uma série de obras feitas em conjunto com Binau — “é uma amostra das nossas holy packages, das nossas cabeças misturadas nos mesmos suportes” —, que conheceu em Lisboa, à porta da ZDB, e com quem começou a trabalhar depois de 2013, ano de uma exposição coletiva em que participaram os dois, no 59 Rivoli, em Paris; também a Shiki Miki está partida entre dois pisos, divisão que umas vezes poderá ser levada à letra e outras não. “Estamos preparados para mudar tudo isto para satisfazer os projetos dos artistas que queiram aqui fazer uma performance, por exemplo”, explica Eduardo, irmão de Bassanti e responsável pela programação dos eventos satélite que pretendem abrir a Shiki Miki a outras formas de arte para lá das exposições, com concertos, teatro ou performances.

“Podemos transformar isto numa black box da noite para o dia, pôr aqui cadeiras e fazer disto uma espécie de palco intimista. É isso que também pretende ser a galeria, uma espécie de estrutura de criação que proporciona uma casa a quem neste momento precisa de a ter.” E aí incluem-se, explica Bassanti, uma série de artistas “à margem do circuito galerístico e museológico”, que em Lisboa “é extremamente hermético”, entre os quais estão por exemplo artistas cujo trabalho tem uma dimensão de arte pública, que até há bem pouco tempo não encontravam espaço dentro das salas de paredes brancas. “É um espaço que não existia, que só agora começa a existir com galerias que têm aberto recentemente.” E, com tudo o que tiver de kitsch e de cool, Shiki Miki também é isso, sublinha Binau: “O que é kitsch e o que é cool, e o que é este novo cool que a Shiki Miki reinventa com esta postura que tem perante os artistas e perante o mercado.”

Quanto à festa de inauguração do Lado A de “The Holy Package”, que inaugura hoje às 19h, vão estar personagens do universo Bassanti & Binau como o Golden Man, homem de ouro que cura tudo aquilo em que toca, ou a Helena à procura do seu Valium numa narrativa criada a partir de uma fotonovela dos anos 60, com Jimi Hendrix, e o tal Karl Lagerfeld que já vimos com Amy Winehouse e Freddie Mercury e Coco Chanel.

Pôr isto na agenda é importante porque afinal isto é muito sobre festas, bem lembra Eduardo com uma evocação dos anos 80, que passaram, voltaram, cansaram e agora querem trazer de volta depois da morte de Bowie, até porque o mundo nunca mais será o mesmo. “Há uma vontade nossa de provocar um revivalismo nas pessoas que nos anos 80 faziam parte de um circuito, de uma fauna das artes que era muito mais festiva e glamorosa e que justamente justificava este tipo de mudanças de cenário. Uma vontade garantida de que isto não seja um espaço estagnado, de provocar nas pessoas a vontade de quererem outra vez vestir-se para a festa que é a celebração da fruição da arte.”

 

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