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O eclipse de Mário Nogueira

O eclipse de Mário Nogueira

José Sérgio Ana Sá Lopes 22/10/2016 17:25

O silêncio e a mudança de tom do ex-mediático sindicalista Mário Nogueira é, para os professores e diretores, cada vez mais evidente.  

Nem todo o silêncio é bom e há silêncios que são ensurdecedores. É o caso do silêncio de Mário Nogueira, o secretário-geral da Fenprof, que durante o último ano não fez críticas nem agendou protestos contra medidas adotadas, ou não, pelo Ministério da Educação. 

Uma mudança de comportamento que salta à vista dos professores ouvidos pelo SOL e que é comentada entre os corredores das escolas, onde se recordam os protestos de grande dimensão organizados pela Fenprof durante a tutela de Maria de Lurdes Rodrigues e de Nuno Crato.

«Ele está afeto ao PCP que está a sustentar o Governo e, mesmo que queira, não pode dizer mal do Ministério da Educação senão terá problemas com o partido», diz o presidente da Associação de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima. 

A opinião é partilhada pelo professor e especialista em Educação, Paulo Guinote, para quem Mário Nogueira «é um quadro disciplinado do PCP» e que por isso «nunca poria em causa a estabilidade da gerigonça». 

O professor salienta ainda que «pela primeira vez, nos últimos 15 anos, a Fenprof está a apostar na estratégia de negociação e congelou a confrontação nas ruas». 

E isso nota-se, aliás, no tom e na frequência dos comunicados da Fenprof. O ministro Tiago Brandão Rodrigues tinha acabado de chegar à 5 de Outubro, aos 50 dias de mandato, e a Fenprof enviou um comunicado às redações a fazer um «balanço positivo»  da ação governativa. «É como se o Ministério da Educação tivesse realizado obras de saneamento básico, aliás mais do que indispensáveis... A nova equipa ministerial limpou o entulho. Agora, há que partir para as medidas de fundo», salientou no documento o secretário-geral da Fenprof. 

«Não me lembro de terem feito isso com nenhum ministro», frisa Filinto Lima. 

E este é apenas um dos exemplos da mudança de tom no discurso da Fenprof. Mas há outros.  Este Governo já desenhou dois Orçamentos do Estado e «não há qualquer palavra de descongelamento da carreira» dos professores, salienta Paulo Guinote lembrando que esta era uma das principais reivindicações dos sindicatos. Agora «deixou de ser uma prioridade». Aquilo que «há três ou quatro anos seriam medidas inaceitáveis e tidas como ataque à classe, neste momento são alvo de negociação», acrescenta o professor. 

Influência internano Ministério

Entre os professores ouvidos pelo SOL, há quem defenda que o silêncio de Mário Nogueira se deva ao facto de ter «demasiada influência na agenda de Tiago Brandão Rodrigues e nas medidas adotadas pelo Ministério». Até porque «há muitas opiniões do Mário Nogueira que estão plasmadas  no Ministério», constata um professor.

Mário Nogueira «não é um barómetro da Educação», avisam os professores que frisam: «O silêncio dele não quer dizer que está tudo bem». 

Mas há quem veja vantagens no silêncio do sindicalista. «Talvez sem querer, muitas vezes, acabou por prejudicar a imagem da escola pública» porque «dizia mal só por dizer, sem fundamento» e «os sindicatos não podem estar sempre do contra», defende Filinto Lima. Mas o diretor reconhece que a voz de Nogueira faz falta. A tutela «precisa de um contrapeso que chame a atenção e que aponte o dedo às questões». O sindicalista precisa é de «mais moderação» no discurso, remata.  

Protestos da Fenprof 

Este comportamento contrasta com os apelos e as várias iniciativas que o sindicato organizou em 2006 ou 2008, durante o Governo de José Sócrates, sob a tutela de Maria de Lurdes Rodrigues. 

Entre 2005 e 2009, a Fenprof organizou 25 protestos, que passaram por greves a exames nacionais do secundário, a manifestações, a abaixos-assinados. Nessa altura, o sindicato foi o principal motor de duas das maiores manifestações de professores. A 8 de março de 2008 mais de 120 mil professores saíram às ruas de Lisboa contra o sistema de avaliação docente que tinha sido desenhado pela ex-ministra. 

Já antes, em 2006, a Fenprof tinha trazido à rua mais de 20 mil docentes em protesto contra a revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD), que previa a divisão da carreira em duas categorias, com quotas estabelecidas para subir de escalão.  Mas «nessa altura o PS era visto como um inimigo porque o PCP não estava no Governo», remata Guinote. 

Também o ex-ministro Nuno Crato foi alvo de protestos e em 2013 teve um ‘verão quente’. Em junho a Fenprof marcou greve, durante quase um mês, às avaliações dos alunos, o que acabou por atrasar o fim do ano letivo e perturbar o arranque do ano seguinte. Pelo meio, a 17 de Junho, Nuno Crato teve de gerir uma greve ao exame nacional de Português do ensino secundário. 

Mais tarde, a 18 de Dezembro desse ano, foram várias as imagens que chegaram através da televisão de boicote e de vidros partidos em escolas, contra a primeira prova de conhecimentos e capacidades para os professores. Esta prova, que era obrigatória para todos os contratados com menos de cinco anos de serviço,  foi ainda alvo de dezenas de providências cautelares.  

Durante este mandato, o protesto mais marcante foi anunciado pelo sindicato dos professores da região centro, afeto à Fenprof, que  entregou ontem no Tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra uma ação coletiva contra os horários do 1.º ciclo.
 

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