14/12/19
 
 
Mário Cordeiro 26/07/2016
Mário Cordeiro

opiniao@newsplex.pt

A banalização do mal

Uma coisa era a violência nos desenhos animados dos anos 60. Não havia internet nem centenas de canais via cabo. Agora, a vida de muitos adolescentes faz-se entre telemóveis, consolas e computadores. Estar com as pessoas, a família ou nas aulas é o “intervalo” do grande recreio que é estar “ligado” de olho no ecrã (às vezes em dois). Depois não nos queixemos… 

Hannah Arendt, a filósofa que cobriu em Israel o julgamento do nazi Adolf Eichmann, colocou a questão do bem e do mal, e da banalização deste, que pode chegar ao ponto de se cometerem as piores barbaridades “apenas para cumprir ordens superiores”. O indivíduo deixa de pensar e perde a ética e a moral. Torna-se numa máquina que só pretende um objetivo - no caso dos nazis dos campos de concentração, era cumprir as ordens: exterminar.

Passemos ao presente. A descrição do jogo diz, na webpage: “Está preparado para atropelar pessoas de carro? Neste jogo você terá de ter sangue-frio para conseguir atropelar o máximo de pessoas no menor tempo possível. Mas tome muito cuidado, pois se você bater com o carro contra os muros, prédios e outros carros, o seu ‘Health’ vai diminuir e quando chegar a zero você perderá o jogo! São vários níveis de dificuldade e você terá de correr atrás do tempo e atrás das pessoas que estiverem na rua, mas não se esqueça de pegar as caixas de remédio que estiverem no caminho, pois elas lhe (sic) ajudarão a ganhar mais ‘Health’ e continuar no jogo.” E termina com um desafio: “Vamos brincar a bater e atropelar pessoas de carro?”

Há muitos anos, mais de 15, escrevi um artigo sobre um jogo que então existia, o Armageddon - que hoje os adolescentes considerariam uma bodega em termos gráficos, mas que já era suficientemente realista -: “pilotava-se” um carro e saltava-se para o passeio, tentando atropelar o maior número de pessoas. Ziguezaguear era mais eficaz. No final, quantos mais mortos, mais pontos, com um aspeto “interessante”: atropelar grávidas, bebés e idosos valia a dobrar.

Hoje, a “alegria da pequenada” é, entre outros de igual calibre, manifesta pelo sucesso do GTA - não, não é sigla de Grupo Terrorista Arménio ou Anatólio ou Árabe. Não foi criado por nenhum Ali nem nenhum Ahmed. Foram David Jones e Mike Daily, e mais uns quantos amigos, e GTA quer dizer Grand Theft Auto, o que, em língua inglesa, se refere (na vida real, é preciso dizer, porque a determinada altura já não sabemos onde estamos e a quantas andamos) a roubos de automóveis de valor superior a 40 mil dólares (cerca de 35 mil euros). Carjacking, afinal….

Ao jogar, o adolescente (ou a criança…) assume a personalidade de um criminoso que tem todo o tipo de atividades ilegais - violência, tráfico de droga, assassinatos, exploração de prostitutas -, tudo através de muita ação, aventura e condução no referido carro roubado. Nas primeiras 24 horas, o videojogo arrebatou mil milhões de dólares, recebendo os maiores elogios pelos seus cenários “quase reais”. 

Numa mistura de ação, aventura e direção, o jogo dedica-se a temas como violência, assassinato, drogas, incitações e exposições sexuais, tortura, mutilação, etc. Mas o que é mais “apelativo” é a grande liberdade que o jogo dá em relação ao que o personagem pode fazer: agredir e matar pessoas, roubar veículos, propagar o caos, saltar para o passeio e atropelar os transeuntes, entre muitas outras coisas, tudo motivado por um desejo de “vingança contra o mundo” que o leva a “fazer tudo para atingir os objetivos”, mesmo que seja associar-se a gangues e matar inocentes. Finalmente, existem ainda as forças da autoridade, mas o grande jogador é aquele que é capaz de as fintar e abater, numa escalada em que se envolve a polícia, depois a CIA, depois o FBI, em que o próprio Estado é o inimigo a combater.

Diz-se que a série causa controvérsia, mas para mim, devo dizer, não vejo qualquer controvérsia, porque me parece que crianças e adolescentes estarem horas a fio “metidos” num ecrã com grande realidade, a praticar e exercitar atropelamentos, assassinatos, uso de armas e de drogas, crimes sexuais e outras coisas, não é assunto que deixe dúvidas. Aliás, a xenofobia faz parte dos jogos, como não podia deixar de ser, e a frase “Kill the Haitian dickheads” (dick refere-se aos genitais masculinos…), agora sabiamente retirada, era dita com frequência. Mas no GTA San Andreas, um dos preferidos da pequenada, o jogador pode, no ecrã, ter relações sexuais com a namorada e ganhar pontos se chegar ao orgasmo.

O leitor que veja quantos GTA existem em sua casa, nos ecrãs das consolas e dos computadores dos filhos. Depois, pense em Nice, no Daesh, nas primeiras páginas dos jornais que tanto o chocam, nas aberturas dos telejornais, e pense em Hannah Arendt e no conceito de banalização do mal.

Não se trata de moralismo, não… porque se há coisa de que não gosto é de fundamentalismos e visões simplistas de fenómenos complexos. Trata-se, na minha opinião, da defesa de uma civilização e de um modelo educativo que se baseie na paz e na resolução pacífica dos conflitos. Não basta dizer “Je suis quelque chose” ou contar histrionicamente a história dos portugueses que escaparam à matança de Nice, comover-se com a porteira de Paris ou dizer que “há anos até estive na estação de metro de Maelbeek, imagina do que eu escapei!”, ou “até estive perto do centro comercial Olympia quando fui ver o estádio do Bayern”, e depois deixar que os nossos filhos se habituem - no mundo virtual/real em que já vivem grande parte da vida - a manipular o mal e, pior, a “ganharem pontos” com isso.

Ou então, se abdicarmos por inércia, preguiça ou cobardia, caímos na armadilha de pensar que é só um jogo e que as crianças e adolescentes são uns pobres ingénuos e não estão em fase de formação ética, e poderemos então gritar, como José Millán-Astray, o fundador da Legião Espanhola e um dos militares da extrema-direita, “Viva la muerte!”. Eu, pessoalmente, prefiro que as ideias de Hannah Arendt me provoquem dúvidas, inquietações e até irritações, como as que vos veiculei hoje, e pensar que, mesmo num joguinho de consola, não se salta para passeios com o objetivo de atropelar o maior número de pessoas...

Mas provavelmente sou eu que sou pessimista e não entendo já o mundo das crianças…

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×