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Delphine de Vigan. “Quis perceber porque é tão importante para as pessoas distinguirem verdade e ficção”

Delphine de Vigan. “Quis perceber porque é tão importante para as pessoas distinguirem verdade e ficção”

Nemo Perier Stefanovitch Raquel Carrilho 06/06/2016 19:54

Em “A Partir de Uma História Verdadeira”, a escritora francesa procurou testar as fronteiras entre o real e o ficcionado

Escreveu o seu primeiro livro sob um pseudónimo porque não sabia se correria bem e queria preservar o emprego que tinha. Mas correu bem, o emprego ficou para trás, e Delphine de Vigan tornou-se uma das mais aplaudidas escritoras francesas da atualidade.

Em 2008 venceu o Prémio dos Livreiros franceses por “Nô e Eu”, um livro que vendeu mais de 750 mil exemplares em França, foi traduzido em mais de 25 países e adaptado ao cinema em 2010. Em 2011 voltou a ser distinguida, com o PrémioRomance Fnac, com “Rien Ne S’Oppose à La Nuit”, uma obra sobre a mãe. Agora acaba de lançar “A Partir De Uma História Verdadeira”, um livro sobre jogos de poder, a condição do escritor e, sobretudo, sobre as fronteiras entre a realidade e a ficção.

Acabou de estar com o realizador Pedro Almodóvar. Como aconteceu esse encontro?

Ele pediu para me conhecer porque gosta muito dos meus livros. Foi uma surpresa e uma alegria, até porque gosto muito dos filmes dele. Ambos falamos muito de relações familiares, o meu anterior livro, por exemplo, é sobre uma mãe, a minha, e uma filha, eu.

Falaram sobre a possibilidade de trabalharem juntos?

Sim, a jornalista que estava connosco perguntou-lhe se ele se imaginava a adaptar o meu anterior livro, “Rien Ne S’Oppose A La Nuit”, para o cinema – e eu já recebi várias propostas para o fazer, mas recusei sempre. Mas ele disse que não porque achava que era um livro com muitos níveis, muitas camadas de leitura, e num filme só conseguiriam contar um. Mas depois disse que poderíamos trabalhar juntos num guião original. Porque não? Ele é um homem tão interessante.

Porque recusou todas as propostas para adaptar “Rien Ne S’Oppose A La Nuit” para o cinema?

É um livro sobre a minha mãe e a minha família, muitas das pessoas de que falo ainda estão vivas, e já foi difícil aceitarem o livro. Acho que verem-se retratadas num filme seria demais. Não as queria expor ainda mais, nem queria ver atores a interpretarem a minha mãe ou a mim. Mas este livro que estou a lançar agora, “A Partir De Uma História Verdadeira” será adaptado ao cinema, tal como dois dos meus livros mais antigos.

Este livro tem um título que já tem muito a ver com cinema. É frequente vermos essa mesma frase nos genéricos de filmes.

Sim. Este título tem uma lógica comercial: se é baseado numa história verdadeira para muitas pessoas é logo mais interessante e esta é uma ideia que não saía da cabeça quando quis escrever este livro.

As fronteiras entre o que é ficção e o que é verdadeiro parecem estar cada vez mais esbatidas. Foi este o ponto de partida para este livro?

Exatamente. Estava muito focada na tentativa de perceber porque é tão importante para as pessoas distinguirem o que é ficção e o que é verdade. No meu anterior livro expliquei desde o início que era a história da minha mãe mas que a tinha escrito como se fosse ficção porque eu não era nascida quando ela era uma jovem e portanto tive de recriar algo que não vivi. Claro que tentei recriar a vida dela com base na verdade, só que era a minha versão da verdade. Mas quando o livro saiu toda a gente me perguntava se era mesmo verdade e quais as partes que eram mesmo reais.  Dava sempre este exemplo: a minha mãe era bipolar e a primeira vez que foi para o hospital foi uma crise muito violenta para ela e para a família. Conto essa história no livro, e apesar de eu ter o relatório da polícia, eu só tinha 13 anos e a memória é seletiva, temos muitas maneiras de contar a mesma história e todas podem ser verdade. Mas depois disto comecei a pensar insistentemente porque seria tão importante para as pessoas saberem o que era a verdade.

Portanto o tema para este livro surgiu quando ainda estava a promover o anterior. Mas depois demorou algum tempo até efetivamente o começar a escrever. É mais difícil libertar-se de um livro quando ele é tão pessoal, traz mais fantasmas consigo?

Provavelmente. Precisei do meu tempo, foram necessários quatro anos. Era sempre muito emocional falar do meu anterior livro, sobretudo porque o escrevi dois anos após a morte da minha mãe. Além disto senti-me muito ansiosa com todo o sucesso que estava a ter.

Curiosamente, acabou por, de certa forma, escrever mais um livro biográfico, porque “A Partir De Uma História Verdadeira” fala do ato de escrever e do papel do escritor na sociedade.

Acho que há três formas de ler este livro. A primeira é como um thriller psicológico entre duas mulheres e os jogos de influência e poder entre elas. Mas também queria dissertar sobre o que é isto da ficção e da realidade e o porquê de as pessoas estarem tão preocupadas em distingui-las. Por último, a terceira forma, queria mostrar os bastidores da criação literária, o que assusta um escritor, o que nos paralisa, as dúvidas. Tentei juntar estes três níveis, e tive isto sempre presente ao escrever o livro.

Quando começa a escrever tem a história já toda desenvolvida na sua cabeça?

Trabalho sempre assim. Escrevo como um arquiteto, preciso de ter as fundações todas para começar a escrever. Tiro muitas notas, faço um plano, e depois começo a escrever. Sempre sozinha.

Se queria escrever sobre jogos de influência e de poder porque o decidiu fazer entre duas mulheres? Em que sentido é que isso influencia a história?

Eu queria contar a história da Delphine e o que lhe aconteceu depois de escrever o seu livro, e queria que ela fosse uma espécie de alter-ego meu, uma espécie do meu lado sombrio. E esta Delphine é fascinada pela L., pelo seu lado feminino, pela forma como ela se veste. L. é a mulher que Delphine gostaria de ser, mas Delphine é a escritora que L. queria ser. Mas nada é assim tão linear. Nem uma nem outra são exatamente aquilo que parecem.

O facto de ter lidado, durante anos, com a doença bipolar da sua mãe, influenciou-a, de alguma forma, para criar estas duas mulheres que, no fundo, poderiam ser duas faces da mesma mulher?

É uma hipótese de leitura para este livro. Estou sempre muito interessada na fronteira entre a razão e a loucura, é um dos temas que abordo regularmente nos meus livros, e sim, talvez tenha a ver com a minha mãe.

O facto de, no seu primeiro livro, não ter usado o seu nome verdadeiro foi mais uma exploração das fronteiras entre o que é real e o que é ficção?

Não. Escrevi dois livros muito autobiográficos e um deles foi esse primeiro. E na altura senti que seria mais fácil para mim e para a minha família se usasse outro nome. Além de que também tinha outro emprego e essa era uma forma de separar as minhas duas vidas. Mas no segundo livro já usei o meu nome. Mas brinco com isso ainda hoje. Ainda neste livro brinco comigo enquanto escritora e comigo enquanto personagem. Até meio do livro pensam que falo de mim, depois começam a duvidar, e é isto que me interessa.

Já está a pensar no próximo livro?

Já, mas também estou a escrever dois guiões para cinema e a promover este portanto não vou começar já a escrever.

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