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Kamasi Washington. Este jazz dispensa chapéu de sol

Kamasi Washington. Este jazz dispensa chapéu de sol

DR Miguel Branco 06/06/2016 12:19

Sorte a nossa: o génio autor de “The Epic”, um dos melhores discos de 2015, atua hoje na Casa da Música e amanhã no Tivoli BBVA 

Já lá vai mais de um ano e ainda não nos esquecemos, igual a dizer que ainda não nos fartámos. Não que sejamos gente com capacidades só passíveis de encontrar na crosta continental da estrutura interna da Terra, mas porque o disco em questão é “The Epic”, estreia de Kamasi Washington, esse saxofonista dos novos tempos, editado pela Brainfeeder a 5 de maio de 2015.

Esses dotes deixamos para o artista, esse génio de Los Angeles que invadiu o circuito como se este jazz fosse pop, como se fazer um disco de quase três horas não fosse, num contexto mais comercial, um objeto-aberração. Se esta expressão hifenizada quiser ser traduzida para obra prima então sim, então Kamasi Washington pode tudo. Pode até tocar hoje, dia 6 de junho, na Casa da Música, no Porto, e amanhã, dia 7, no Tivoli BBVA, em Lisboa. 

Seria porventura mais complexo entender Washington se lhe retirássemos a infância, as horas que (não) perdeu a ouvir o pai a tocar, ou um tal ensaio na casa da família, onde a faixa “Sleeping Dancer Sleep On” é a grande protagonista: “Quando tinha 12 ou 13 anos essa era a minha música preferida. Nessa altura ainda nem tocava saxofone, andava pelo clarinete, houve um dia em que, numa pausa de um ensaio lá em casa, o meu pai deixou o saxofone em cima da mesa e eu, sozinho, não sei explicar bem como, mas toquei aquilo à primeira. O meu pai ficou ‘wow, fixe, fixe’. Aí larguei tudo pelo saxofone”, confessa-nos, através do telefone.

A contextualização não morre aqui. Nem todo o jovem, ou por outra o jovem comum que já percebemos que Kamasi não é, decidir licenciar-se em etnomusicologia na UCLA. Muito menos é o estudante que ao segundo ano de curso arranca para uma digressão nacional com Snoop Dog. “Era um miúdo, de repente vou em digressão e estou em palco para mais de 15 mil pessoas… não é fácil, mas foi muito divertido”, afirma o mesmo miúdo que decidiu seguir este curso porque, quando concluiu o secundário, percebeu que “não sabia nada sobre música, a não ser a ocidental”. Para Kamasi Washington desconhecer é opção dos teimosos, de gente pouco ambiciosa, “a música não pode ser considerada um conjunto de pequenas caixas, é um todo, é como um bolo”.

“The Epic” é um dos mais preciosos materiais da música moderna, do novo milénio, mas engana-se quem acha que virtuosismo como aquele se fez em três dias. Em 2010, Flying Lotus fez-lhe a proposta de editar pela Brainfeeder, 30 dias em modo vampiro que originaram bem mais do que “The Epic”. “Quando saímos do estúdio tinha 45 faixas, demorei bastante tempo a ouvir todo o material e a entender que temas se relacionavam, queria encontrar, no meio daquilo tudo, um reflexo do que sou em termos musicais, em diferentes aspetos. Encontrei naquelas 17 faixas, entre sonhos esquisitos e um processo que nunca mais chegava ao fim, bastante de mim”, admite o músico. E sim, este músico, para muitas gente talvez careça da palavra jazz à frente, essa ideia manietada que os músicos de jazz servem para juntar peças, lá ao fundo do palco, visão que Washington reconhece: “Os músicos de jazz sempre tiveram essa imagem, sempre estiveram na sombra, como ovelhas escondidas no rebanho. Só que isso não é verdade, simplesmente durante bastante tempo era-nos difícil ser outra coisa, acredito que esse preconceito faz parte do passado, que há cada vez mais jovens a querer tocar jazz e mais público para os ouvir”.

Por fim, o confronto, aquele que coloca Washington num pedestal sem escadote de regresso ao lugar dos humanos. É jazz que soa a novo, que não é o mesmo que era feito pelos seus ídolos: “Sim, sinto que a minha música vem de hoje, é de agora, a minha abordagem é tentar expressar quem sou, e quem eu sou é uma pessoa que vive o dia-a-dia, só que também estou consciente do que já conquistei e portanto quero estar à frente do que já fui”, responde. Não se preocupe, Kamasi já lá está.

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