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Migrações. A história do Armando português que emocionou a Alemanha

Migrações. A história do Armando português que emocionou a Alemanha

Nuno Ramos de Almeida 10/05/2016 22:28

A partir do imigrante um milhão na Alemanha, uma historiadora alemã e uma jornalista portuguesa constroem um fresco sobre histórias de migrantes e refugiados até hoje

As fotografias antigas parecem falar. Quando olhamos as imagens, a preto-e-branco, da chegada de Armando Rodrigues de Sá, carpinteiro de 39 anos, à estação de comboios de Colónia-Deutz, vemos o seu olhar surpreendido. Estávamos no dia 13 de setembro de 1964, centenas de portugueses e espanhóis viajavam num comboio para a Alemanha.

Eram “trabalhadores convidados”, uma expressão que escondia o facto de serem imigrantes com contrato a termo: o governo de Bona não queria que eles ficassem a viver na Alemanha, apenas que contribuíssem durante uns anos para o esforço de reconstrução do país. “Trabalhavam em condições muito piores que os trabalhadores alemães. Viviam em grupos de cinco em habitações precárias, construídas normalmente perto das fábricas em que iam laborar e, ao contrário dos operadores locais, não conheciam a língua e muito menos os seus direitos”, revela a jovem historiadora alemã Svenja Lander. 

Mas não nos adiantemos à história. Armando de Sá, português e natural de Vale de Madeiros, desembarca nessa manhã de há 50 anos na estação de Colónia e vê um estranho aparato, com muita gente e alguma polícia. Na aparelhagem sonora ouve o seu nome e entra quase em pânico. “O meu avó, quando ouviu o nome dele e o pedido para se dirigir a um local da estação, ficou cheio de medo, pensou que era a PIDE para o prender”, conta o neto, António de Sá. Não se tratava de uma prisão. Armando Rodrigues de Sá era o “trabalhador convidado” número um milhão.

Com pompa e circunstância, direito a banda e discursos, as autoridades locais vão fotografá-lo e entregar-lhe como prémio uma motocicleta. As imagens de Armando correm a Alemanha. “A fotografia do carpinteiro português é iconográfica, muitos imigrantes identificam-se com ela e com o reconhecimento do seu esforço. Para nós, alemães, é uma parte importante da nossa história. Paradoxalmente, em Portugal, tanto a história de Armando Rodrigues de Sá como a dos trabalhadores convidados portugueses é pouco conhecida”, diz Svenja.

Foi a partir desta viagem com o neto de Armando de Sá que surgiu a ideia de um livro. Svenja conheceu no Facebook a jornalista portuguesa Cristina Dangerfield--Vogt, descobriram que viviam na mesma cidade e encontraram-se. Foi dessa conversa que nasceu o embrião de “A Vida Numa Mala”. “Juntámo--nos e começámos a pensar nas páginas”, diz Cristina.

Portugal vive a maior vaga de emigração desde os anos 60, a Europa está imersa numa crise de refugiados, o livro pretende perceber tudo isso. “Temos a história da viagem do Armando para a Alemanha, a viagem que fiz com o neto nos dias de hoje, como vêm a sua vida as novas gerações que viajaram para a Alemanha, a situação da imigração turca na Alemanha e o problema dos refugiados nos dias de hoje”, relata Svenja.

Pergunto-lhe se hoje não existe uma reação da população alemã contra os refugiados e imigrantes, e o crescimento da votação nos partidos xenófobos. A historiadora relativiza: “É uma questão muito grave, há muita gente que se solidariza com os refugiados e trabalha para poder responder a esta crise humana, mas é verdade que há setores da sociedade alemã que estão a ser ganhos por ideias xenófobas.” Svenja faz o acompanhamento a uma família síria.

Há pouco tempo estava a passear num jardim de Berlim com um amigo sírio quando foram provocados por um grupo de neonazis. “Eu tive medo e afastei-me com o meu amigo. Começámos a subir uma rampa quando eles começaram a gritar para o meu amigo, ‘Aí na rampa é que estás bem’, fazendo alusão ao sítio para onde os nazis mandavam os judeus nos campos de concentração, e isso assustou-me”, diz Svenja, que ainda assim não concorda que se possa dizer que a sociedade alemã é maioritariamente racista. “Há, de facto, pessoas que aparecem com um discurso a dizer que o Estado está a ajudar os refugiados em vez de ajudar os ‘nossos’ pobres e sem--abrigo, mas essa gente só descobriu os ‘nossos’ pobres e sem-abrigo agora, sempre viveu muito bem com a miséria deles, e neste momento usa--os mais uma vez, desta vez contra os refugiados”, defende.

E como viu a historiadora os acontecimentos do fim de ano em Colónia, onde alegadamente dezenas de migrantes terão assaltado e importunado sexualmente as mulheres que encontravam na rua? “Com medo mas, infelizmente, o cenário não é muito diferente de alguns festivais de verão na Alemanha, em que jovens alemães se embebedam e se metem com as mulheres.” Mas não há falta de adaptação aos valores de igualdade entre homem e mulher em pessoas provenientes de sociedades muçulmanas, em que a religião condiciona esse papel? A historiadora diz que a questão não deve ser ignorada e que toda a gente tem de respeitar esses valores, mas não está convencida de que esta discriminação exista em todos os refugiados. “Acompanho uma família síria e não noto isso”, garante. 

A presença dos turcos no livro justifica--se de várias maneiras: são a maior comunidade de imigrantes na Alemanha, a sua chegada faz-se ao mesmo tempo que os portugueses e Cristina Dangerfield-Vogt viveu na Turquia antes de viver em Israel e, agora, na Alemanha. Ironizo com a jornalista que ela andou a fazer uma peregrinação aos chamados povos do Livro (a Tora, a Bíblia e o Corão).

Fala-me do choque inicial, quando foi para a Turquia, ao ouvir o muezzin chamar para a oração. “Ao início acordávamos assustados. Depois essa música foi--se entranhando e guiávamos o dia pelas cinco chamadas de oração. O meu filho dizia-me que sabia que eu o ia buscar à escola porque era ligeiramente depois da oração da tarde”, relata Cristina. O conhecimento do outro é fundamental para viver em paz, defende. 

Conta-me que, embora a imagem do imigrante um milhão seja pouco conhecida em Portugal, ela é conhecida, com carinho, entre a comunidade turca. Até existem filmes turcos em que é ficcionada a chegada do imigrante um milhão.

No livro “Uma Vida Numa Mala” há uma passagem significativa a esse respeito: “Perguntamos ao grupo de jovens alemães que nos acompanha numa parte da viagem se conhecem a fotografia do milionésimo gastarbeiter [trabalhador convidado, nome que as autoridades alemãs davam aos imigrantes]. ‘Claro que conhecemos, foi um turco, até vimos isso no filme “Almanya’.

Ficam surpreendidos quando lhes apresento António como neto do milionésimo gastarbeiter, o português que tinha recebido a motorizada”, diz-se no livro – uma confusão construída pelo filme turco em que se imagina que um turco seria o milionésimo imigrante, mas que tinha dado o lugar na estação de Colónia a um outro. Uma ficção, até porque os turcos não vinham nos comboios de Portugal e Espanha, e chegavam pela estação de Munique. Mas sendo a decisão de “criar” um milionésimo imigrante uma decisão política – consta que as autoridades escolheram até um português para motivar a imigração destes –, poderia muito bem ser um turco esta pessoa.

Os milhões de turcos começaram a chegar à Alemanha ao abrigo de contratos entre os dois países, a partir do ano de 1961. “Em geral, os trabalhadores turcos de primeira geração fazem uma narração positiva da sua experiência nesse país [a Alemanha]. Porém, as investigações efetuadas pelo jornalista alemão Günter Walraff, publicadas no seu livro ‘Ganz Unten’ [Cabeça de Turco], em 21 de outubro de 1985, contradizem essa perspetiva.

O jornalista, que trabalhou em várias empresas alemãs, durante dois anos, disfarçado do gastarbeiter Ali Levent Sinirlioglu, descreveu no seu livro a experiência de discriminação que viveu no seu trabalho e denunciou a falta de condições de segurança dos trabalhadores estrangeiros na Alemanha”, revela-se nas páginas de “A Vida Numa Mala”.

Günter Wallraff era um jornalista genial que se notabilizou em reportagens em que se infiltrava e disfarçava para denunciar determinadas realidades. Em Portugal fez uma célebre investigação sobre a rede bombista de extrema--direita que atuou no Verão Quente, para o que se fez passar por traficante de armas. Em “Cabeça de Turco”, ainda foi mais perigoso. Por estranho que pareça, foi obrigado a limpar porões de navios cheios de nafta sem máscara, como eram obrigados a fazer os trabalhadores turcos. 

Hoje, as condições de trabalho são melhores, mas as pessoas de origem turca estão sujeitas a outros perigos, revela Cristina. “Depois dos atentados de Paris e Bruxelas, muitas mulheres que eu conheço de origem turca sentiam os olhares de desconfiança e ódio quando viajavam no metro. Algumas diziam-me que tinham vontade de dizer a essas pessoas, ‘eu também tenho medo de bombas, sou muçulmana, não sou terrorista’.

As pessoas não percebem que é uma ínfima minoria de pessoas muçulmanas que são terroristas. Isso é, em grande parte, responsabilidade dos media. Quando um nazi, na Noruega, fez um atentado que matou dezenas de pessoas, ninguém disse que era um terrorista católico, por muito que ele se considerasse cruzado e reivindicasse isso”, condena a jornalista. 

Armando esteve seis anos emigrado. Na altura não havia Skype ou FB para minorar as saudades. As chamadas eram raras e caras. Hoje, os novos emigrantes sentem saudades, mas estão mais integrados num mundo globalizado. No tempo que o imigrante um milhão passou na Alemanha, mandava muitas cartas para minorar as saudades da mulher, Emília. A certa altura, a correspondência interrompeu--se. Emília ficou assustada. Foi à vidente na aldeia. Depois de feita a ladainha, ela disse-lhe que ele estava doente e logo voltaria a escrever. Assim foi: Armando só tinha interrompido a correspondência porque tinha tido um acidente de trabalho que não lhe permitia escrever. 

“A Vida Numa Mala” é uma forma de termos acesso a estes tempos para percebermos os problemas de agora.

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