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Sebastião Bugalho 06/05/2016
Sebastião Bugalho

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O Zeca Afonso ia de Uber

Em primeiro lugar, o maior inimigo dos taxistas são os taxistas. Em segundo, estes representam uma ameaça pública. Em terceiro, o PS legitima comportamentos de desordem

Vamos ilegalizar os táxis? A pergunta revela-se drástica, não acha, caro leitor? “Ilegalizar os táxis.” No entanto, é exatamente isso que os senhores taxistas desejam fazer à Uber. Ilegalizá-la. Não querem negociar ou sequer ouvir. Querem excluí-la do seu mercado, das conversas com o governo e, sobretudo, dos subsídios do governo. Querem, portanto, obliterar a concorrência. E porquê? A resposta é mais simples do que devia: porque nunca a tiveram.

Quando um grupo detém o monopólio de determinado mercado, as consequências são adversas para o consumidor. Não só a qualidade do serviço prestado decresce, devido ao desleixo típico de agentes económicos sem concorrência, como o dito grupo desenvolve uma impunidade perante a lei que afeta os restantes.

No caso dos taxistas, o melhor exemplo terá sido a manifestação contra a Uber. A sua marcha lenta atrofiou a circulação das duas maiores cidades do país, e assaltaram um condutor que podia ter sido você, caro leitor. No aeroporto, jornais reportaram que os turistas chamaram a Uber como resposta, fazendo da sua aplicação aquela com mais downloads do dia.

Tal serviu para três conclusões. Em primeiro lugar, o maior inimigo dos taxistas são os taxistas. Em segundo, estes representam uma ameaça pública. Em terceiro, o PS, que já lhes havia concedido 17 milhões dos contribuintes para uma modernização que adiaram por décadas, legitima comportamentos de desordem. Além de o governo aceder a reuniões e grupos de trabalho exclusivos, o presidente da câmara lisboeta declarou-se “solidário” com a luta.

O fenómeno não constitui algo pontual. Qualquer condutor conhece aquela página invisível do Código da Estrada: o taxista tem sempre prioridade, o taxista fala ao telefone - e aos berros - com a mulher, o taxista cobra o dobro da tarifa a estrangeiros, o taxista não respeita o limite de velocidade, o taxista não faz pisca, o taxista não aceita viagens pequenas porque não compensam e o taxista não passa faturas. A Uber, com a transação eletrónica, não tem escapatória.

Como em tudo na vida, existem exceções, mas são tão raras que é preferível andar prevenido.

Já apanhei taxistas bêbados, com condução de risco, olhares inapropriados a raparigas, etc. Gostava muito que as operações stop vigiassem os taxistas tanto quanto vigiam civis. Seria, aliás, uma experiência interessante. Parar cinco motoristas de táxi e cinco motoristas da Uber, às cinco da manhã, numa sexta-feira. E, já agora, comparar o número de acidentes anuais entre ambos.

 Negar a Uber - ou qualquer alternativa que os cidadãos desejem - é uma atitude antidemocrática, rendida a interesses de um grupo que vem exibindo comportamentos violentos. Restringir a oferta ao táxi é o mesmo que ir a eleições e só poder votar num partido. Fiel à história, o Partido Comunista proclamou o seu apoio.

Dizer que o táxi é melhor que a Uber por ter “formação própria” é de quem nunca viu um taxista a guiar. E dizer que as regulações deviam ser idênticas é de quem não reconhece serviços distintos. Nicolau Santos, que não é propriamente a reencarnação jornalística de Adam Smith, conta que a Uber faz sentido do ponto de vista social porque “ajuda muita gente que precisa de ganhar mais algum dinheiro”. Uma mais-valia para a comunidade, resumindo.

Esta semana, uma empresa espanhola semelhante à Uber anunciou que começará a trabalhar em Portugal. Nenhum grupo de funcionários da Uber organizará manifestações contra este novo concorrente. Nenhum grupo de funcionários da Uber agredirá veículos deste novo concorrente. E nenhum grupo de funcionários da Uber receberá um cêntimo dos seus impostos, caro leitor. Vão fazer aquilo que se faz no mundo civilizado. Vão trabalhar para serem melhores. Depois, o povo escolhe. E já cantava Zeca Afonso: o povo é quem mais ordena. Não os taxistas.

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