24/1/19
 
 
Maria Helena Magalhães 04/05/2016
Maria Helena Magalhães

opiniao@newsplex.pt

Mixões da Serra, onde tudo escorre...

O ar é puro e a vista lavada. Lá se levam a benzer os animais. Quem lá não chega são os pecadilhos da política e os políticos tolhidos à espera da desforra

Já aqui foi dito e redito que esquadrinhar a região minhota é sempre um prazer renovado, e as surpresas estão a cada dobrar de caminho. Turismo de natureza é, para os apreciadores do género, garantia de opíparas, porque abundantes, experiências por estas bandas. Desta feita, a aldeia de Santo António de Mixões da Serra, no concelho de Vila Verde, valeu a escapada por montes e valados estradeiros sob o sol envolvente da primavera que, afortunadamente, resolveu dar um ar da sua graça. Já a sinfonia dos verdes inaugurou a nova temporada, onde os caminhos e os quintais floridos enxameiam de cor e odores quem por aqui passa. E depois de uns tantos quilómetros e paisagens incríveis ao fundo, no horizonte recortado pelo azul acinzentado, ora violáceo, das cordilheiras aconchegadas no Parque Nacional da Peneda-Gerês, eis que se nos depara o almejado santuário de Mixões da Serra, o da secular tradição da bênção de animais. A aldeia, pequeno aglomerado de casas aninhadas no alto do monte, “com muito pouca gente, e só velhos, que até a escola nos tiraram”, dizem-nos, e da enchente nos dias de festa, mas a tradição já não é bem o que era: “Agora vêm menos bois, fica caro o transporte, e até há quem traga os cães e os gatos.” É tudo benzido. E a romaria segue com os cantares ao desafio e os comes e bebes. Fora isso, o tempo demora-se pelas encostas, lá onde as gentes vão aos campos colher o sustento, que agricultura de exploração aqui não se vê. Atrás do santuário, castiço no seu estilo indefinido, talvez com uma pitada de gosto Walt Disney, fica o miradouro, também com o nome do santo, escadório à maneira e uma soberba vista sobre os vales do Cávado e do Lima. O ar rarefeito embrulha a tarde nos sons de pássaros a esvoaçar e tilintar de chocalhos. É a vida a fluir. Com normalidade.

A estrada que serpenteia a serra Amarela na descida - acentuada e bela de cortar a respiração - para a barragem de Vilarinho das Furnas é, a páginas tantas, interrompida por um inesperado grupo: impávidas vacas, ou bois, postas em descanso, dali não arredam casco, até se decidirem pela fila indiana. Tudo na maior paz e sossego. Sem crispações.

Com normalidade e sem crispações, o povo saiu à rua e festejou o 1.o de Maio, Dia do Trabalhador e jornada de luta pelo direito ao trabalho e dos direitos de quem trabalha. Uns estão de acordo, outros nem por isso, mas o certo é que a sociedade portuguesa se mostra mais distendida. O líder do PSD, que ainda não se conformou com a perda do estatuto de chefe do governo, declarou não achar quaisquer motivos para celebração. Ele lá saberá... Do mesmo modo que observou, não com menor cinismo, que o atual Presidente da República exala felicidade... Percebe-se que do atual governo e da atual maioria parlamentar mantém desdém, e não disfarçado ressentimento, mas do outrora “cata-vento”, que a contragosto engoliu, conserva um atual enfado. Pois.... “é a vida”! Com normalidade (democrática) e sem crispações (partidárias).

Em Santo António de Mixões da Serra, o ar é puro e a vista lavada. Lá se levam a benzer os animais. Quem lá não chega são os pecadilhos da política e os políticos tolhidos à espera da desforra. Porque nem sempre quem espera alcança.

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