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Vanessa disponível para todos os consensos

Vanessa disponível para todos os consensos

Ana Sá Lopes 03/05/2016 19:18

A Vanessa passou a noite de 24 para 25 de Abril comigo no Tokyo. Mas, infelizmente para mim, entrou-me em casa às 10 da manhã desejosa de ver as comemorações no parlamento. Depois de ouvir Marcelo ficou entusiasmada com a hipótese de um consenso

Na noite de 24 para 25 de Abril fui ao Tokyo, uma das discotecas da minha vida. Nos últimos anos, a principal discoteca da minha vida, omnipresente antes de eu ter substituído as noites fora pelas noites esplendorosas no meu sofá. Este ano, o Tokyo recuperou a histórica noite do 25 de Abril e eu insisti com a Vanessa para irmos. Afinal, já não havia 25 de Abril no Tokyo há anos e a procura da felicidade perdida é uma das coisas da Humanidade. Por acaso encontrei-a, à dita felicidade perdida e quando cheguei a casa, quando faziam já 42 anos da caminhada de Salgueiro Maia, achei que também por isto o 25 de Abril tinha valido a pena. Mulheres sozinhas na noite a divertirem-se sem dar cavaco a ninguém e a liberdade que apesar de tudo passou por aqui.

O que me estragou o 25 de Abril foi a Vanessa ter decidido entrar pela minha casa adentro logo às 10 da manhã para assistir às comemorações oficiais na Assembleia da República pela televisão. Eu estava a dormir, confesso. O meu sono é pesado, mas o toque da campainha cruzado com o besouro irritante do telemóvel fizeram o trabalhinho.

A Vanessa entrou, naquele turbilhão do costume, mesmo sem ter dormido quase nada.

– Não tens Gurosan?

Eu tinha Guronsan, o comprimido-fetiche para as ressacas dos bebedolas de meia-idade. Os putos não vão no Gurosan. Acham que é mesmo um medicamento.

Arrastei-me até ao armário da cozinha para procurar o tubo do Guronsan, entreguei-o à Vanessa, liguei a televisão e voltei para a cama. Que me acordasse só quando o Marcelo começasse a falar. Ou há madrugada de 25 de Abril ou há manhã de 25 de Abril. Nem todos temos a resistência dos capitães (enfim, a Vanessa alguma dela teria, para ter a triste ideia de me bater à porta tão cedo).

Acordei a tempo de ver o Presidente da República pousar o cravo no tampo da mesa mais nobre da Assembleia, onde por norma estão instalados o presidente da Assembleia da República, os seus vices e os secretários. Marcelo, o homem dos compromissos, o português que faz parte “da esquerda da direita” conforme anunciou na campanha, optou por arranjar uma espécie de compromisso com o símbolo do 25 de Abril. Nem ao peito como toda a esquerda – e, hélas, Passos Coelho também – nem sem cravo como costuma fazer a direita. Marcelo utiliza a mão para carregar o símbolo. E quando precisa da mão para outras coisas, larga-o. Não me parece um mau compromisso. A vida é feita deste tipo de coisas.

– Olha o homem a falar de consensos. Ele quer consensos para tudo. O que é isto dos consensos?

A Vanessa mantinha acesa a sua paixão por Marcelo e eu ainda não tinha conseguido fazê-la desistir daquela ideia estúpida de casar com ele. É que já não se trata de Marcelo ser avesso ao casamento, na realidade a Vanessa casou três vezes e a ideia de um quarto casamento parecia-me a visão do horror. Mesmo que fosse com Marcelo. É preciso alguma fé para alguém casar pela segunda vez. Agora, querer casar pela quarta vez é ser maluco. Mas, sim, a Vanessa é maluca.

– Com quem é que o Marcelo quer fazer consensos?, perguntou-me a Vanessa.

– Com toda a gente, acho. Mas quer, essencialmente, que haja consensos entre o PS e o PSD.

– Eu gostava de fazer um consenso com o Marcelo.

A Vanessa estava agora a delirar. Uma direta em cima nesta idade não é saudável para os neurónios.

– A sério, eu gostava que Marcelo me propusesse um consenso. Eu estava disponível para um consenso. Já percebi que ninguém quer consensos neste país, tirando o Marcelo e o Ramalho Eanes. Mas eu quero um consenso com o Marcelo. Achas que vai dar? Como é que eu faço para arranjar um consenso? 

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