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Mulheres Socialistas. Mais uma eleição que corre mal
A presidente das Mulheres Socialistas é eleita em maio, em simultâneo com a reeleição de António Costa

Mulheres Socialistas. Mais uma eleição que corre mal

A presidente das Mulheres Socialistas é eleita em maio, em simultâneo com a reeleição de António Costa Gonçalo Fernandes Santos Manuel Agostinho Magalhães 03/05/2016 17:09

Tem uma década a tradição de impugnações eleitorais na escolha da presidente do Departamento Nacional de Mulheres Socialistas. A segurista Sónia Sanfona saiu da corrida acusando o PS de tentar forçar o unanimismo

Sónia Sanfona desistiu da candidatura à presidência do Departamento Nacional de Mulheres Socialistas, a estrutura do PS que se bate pela igualdade de género em Portugal. A ex-deputada e ex-secretária nacional de António José Seguro alega que foi alvo de pressões e - o que considera mais grave - que as suas apoiantes foram pressionadas para apoiar a candidatura única de Elza Pais, apoiada pela atual maioria interna no PS. Sanfona aponta que as mulheres socialistas que a apoiavam foram alvo de um “condicionamento” com sugestão de represálias no PS.

“Muitas camaradas, pelo país fora, foram confrontadas com uma posição ‘oficial’ antagónica a esta candidatura e viram, de forma mais ou menos evidente, posta em causa a sua liberdade de escolha, com reflexo no seu futuro político e mesmo profissional”, diz Sónia Sanfona na carta em que anuncia a desistência.

“Não posso, como democrata e como socialista, compactuar com esta atitude. Não posso e não quero, com esta candidatura, criar qualquer constrangimento ou dificuldade quer às minhas camaradas, quer ao meu partido”, afirma. Não chegará assim a formalizar a sua candidatura, sustentada na moção “Uma Agenda Para Tod@s”.

Sónia Sanfona era apoiante de António José Seguro e foi vista pela candidatura de Elza Pais, apoiada pelas principais figuras do PS, como um resquício da luta interna. Porfírio Silva, deputado e dirigente do PS, escreveu na sua declaração de apoio a Elza Pais, que ela é “a garantia de que esta escolha não servirá para remoer divisões entre socialistas”.

Na carta que tornou pública a saída da corrida à eleição das Mulheres Socialistas (que ocorrerá em simultâneo com a de secretário-geral do PS), Sanfona diz que foi acusada de divisionista. “Desde o primeiro momento em que esta candidatura se perfilou, foi veiculado, dentro e fora do PS, que a mesma consubstanciava uma afronta à sua direção, que era promotora de divisionismo e de sectarismo entre as mulheres, apelidando-a de facciosa”, escreve - acusações que refuta com veemência.

Esta advogada foi eleita deputada em 2005 nas listas de José Sócrates. Perdeu o lugar em 2009 com o fim da maioria absoluta do PS. Foi depois membro do secretariado de Seguro e estava na calha para voltar ao parlamento. Mas, em 2015, Sanfona acabou despromovida na lista de candidatos a deputados. O novo secretário-geral, António Costa, refez a ordem que vinha da distrital segurista de Santarém e impôs o nome de Idália Serrão. E a segurista falhou o regresso à vida parlamentar.

Mulheres em conflito. Esta não é a primeira vez que um ato eleitoral para o departamento das Mulheres Socialistas é envolto em polémica. Desde a criação desta estrutura, há dez anos, que se repetiram casos, com discussões sobre a legalidade de processos eleitorais ou... da falta deles.

A última titular do cargo, Isabel Coutinho, eleita pela ala segurista quando António José Seguro era secretário-geral, foi contestada com a ascensão de António Costa. As pressões para que convocasse novas eleições, com o argumento que a sua legitimidade estava em causa, acabaram por levar Isabel Coutinho a sair antes do tempo.

“Demito-me não por sentir não mais ter o apoio e reconhecimento da maioria das mulheres que integram o Departamento, mas sim por não ter sido este órgão merecedor do necessário respeito institucional por parte do secretário-geral, situação que inequivocamente me impede de poder continuar a exercer as funções que me foram conferidas pelas militantes”, escreveu no pedido de demissão Isabel Coutinho, que tinha sido membro do secretariado de Seguro. Desde julho de 2015 que as Mulheres Socialistas são dirigidas por uma comissão administrativa.

A primeira eleição direta para o departamento foi em 2003, tendo Sónia Fertuzinhos sido a primeira presidente. Mas dois anos depois, quando tentou a reeleição, Fertuzinhos foi acusada de irregularidades no ato eleitoral pela adversária, Maria Manuela Augusto.

Esta ex-assessora de Jorge Coelho, alinhada com a direção do PS e apoiada por Edite Estrela (agora mandatária nacional de Elza Pais), foi dada como derrotada. Mas apresentou queixa no Conselho Nacional de Jurisdição, acusando Sónia Fertuzinhos de aceitar votos irregulares e, em contrapartida, anular votos válidos que lhe eram adversos. Houve reviravolta e a challenger foi declarada vencedora.

Quatro anos depois, a história repetiu-se, mas agora tendo Maria Manuela Augusto como impugnada. E a vitória nesse ano de 2011 foi atribuída a Catarina Marcelino, hoje a secretária de Estado para a Igualdade de António Costa. O processo conturbado começou com uma acusação de impedimento de exercício de voto (na Trofa, por alegada falta de pagamento de quotas). A vitória de Marcelino só se resolveu com a avocação do processo eleitoral pelo secretariado.

manuel.a.magalhaes@ionline.pt

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