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José Paulo Santos 28/04/2016 20:30
José Paulo Santos
Opinião

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Espelho meu, há melhor Diretor de Escola do que eu?

Que pergunta fará a si próprio, no final do dia, o Diretor Executivo (ou Diretora”) de cada um dos 811 Mega-Agrupamentos de Escolas públicas existentes no país, criados desde 2010? “— Terei assinado todos os documentos administrativos? Foram todos os assuntos corretamente tratados nas 8 reuniões que tive, hoje? Terei lido e respondido às 85 mensagens de correio eletrónico?”

Pensemos todos juntos: professores, pais e encarregados de educação, alunos (desde o pré-escolar ao ensino secundário), auxiliares da ação educativa, fornecedores, funcionários da administração escolar, elementos do Ministério da Educação… Todos aqueles que, direta ou indiretamente, contatam com o Diretores de Escolas, pensem: que balanço fazem eles do seu quotidiano, quando chegam a casa (com uma pasta cheia de papelada!), como Gestores de Pessoas?

Esta figura é responsável por unidades de ensino que podem ultrapassar os 4000 alunos e mais de 300 professores, em alguns casos. São Super-Diretores, coadjuvados por 3 a 5 elementos de Direção, dependendo da dimensão destas Escolas agrupadas. Em 1991, o “Presidente (ou Presidenta?) do Conselho Diretivo” deu lugar a este Diretor Executivo. Ele (ou ela!) é o responsável perante a administração educativa pela compatibilização das políticas educativas definidas a nível nacional, com as orientações do Conselho de Escola, tendo em vista níveis de qualidade de ensino que satisfaçam as aspirações da comunidade escolar.

Sublinho: “níveis de qualidade de ensino que satisfaçam as aspirações da comunidade escolar”. E é aqui que vem a pergunta: Que qualidade de ensino? Que aspirações tem a comunidade? Sobre o Director recaem múltiplas aspirações e expectativas: as da tutela, as dos professores, as dos pais, as dos auxiliares, dos edis municipais, dos sindicatos, dos pedagogos, da inspeção-geral, das empresas fornecedoras de materiais, bens e equipamentos, dos observadores europeus, etc. 

Ora, pergunto-me, tendo em conta as várias categorias distintas de competências exigidas a um gestor escolar, de acordo com Barroso (2011) — burocrática, corporativa, gerencialista e político-social —, além da sua própria representação que tem do cargo e de si, qual é, de facto, o seu foco, a sua prioridade e objetivo primordial?

Acredito que não será pela sua absurda (des)compensação salarial que os desejos e ambições de  toda a comunidade escolar serão satisfeitos. Creio que estará na mente de todos os Diretores de Escolas deste país certos ideais: reduzir atritos e situações de conflito entre os múltiplos atores da organização; aumentar o bem-estar e a felicidade de todos; manter consciente que a gestão de uma instituição educativa é distinta da de uma empresa; valorizar e reconhecer as pessoas.

Mas a realidade não é esta. Aqueles ideais, na maior parte das vezes, são descurados ou são abandonados em prol de tarefas puramente administrativas e ridiculamente burocráticas exigidas pela tutela. Hoje, a porta do órgão de gestão mantém-se fechada. O Diretor pouco sai de trás da sua secretária, do seu gabinete, sufocado por montanhas de papéis. Pouco ou nenhum tempo dispensa às solicitações dos professores. Raramente se encontra com eles na Sala dos Professores para conversa informal. Pouco ou nada sabe sobre os alunos que frequentam a sua instituição, exceptuando os indisciplinados e ou alunos de excelência. 

Esta atitude de afastamento da vida quotidiana dos seus pares leva a um esfriamento das relações interpessoais que, como uma epidemia, se modelam e se alastram a todos os professores. As mesmas exigências lhes são feitas: tarefas administrativas, burocráticas, enfadonhas, vazias de sentido e já bem afastadas dos propósitos e ideias que, a todos eles, conduzia e orientava: Educação, Ensino, Aprendizagem, Cidadania, Socialização, Colaboração, Partilha, Humanismo, Democracia, Felicidade.

 

As políticas educativas exigidas pela tutela, e todas as transformações organizacionais que têm vindo a ser implementadas, por imperativos económicos e estatísticos, vão paulatinamente destruindo, deteriorando a essência da vida nas escolas do nosso país. A solidão do Diretor de Escola é visível. Com o desaparecimento de estruturas de apoio mais próximas como os Centros de Área Educativa (CAE) e as Direções Regionais (DRE’s), estes gestores sentem-se limitados e enfraquecidos na capacidade de levar por diante modelos pedagógicos inovadores, de criar projecto educativos assentes na autonomia e numa maior intervenção social, conferindo aos seus atores, consequentemente, maior liberdade e capacidade de iniciativa e liderança. 

A motivação, a entrega pessoal, o espírito democrático e interventivo, a alegria, a felicidade e o sucesso de todos os atores e da comunidade só pode ser possível, quando a dimensão pedagógica for a prioridade das políticas educativas.

Contudo, não deixo de relembrar que o cargo de Diretor de Escolar foi empossado pela Escola e pela Administração Central, ou seja, cabe a cada um dos 811 Gestores colocar em prática esses ideais. Ele tem esse direito e esse dever. As tarefas financeiras, burocráticas e administrativas devem estar plenamente entregues aos serviços administrativos, enquanto o Diretor deve focar-se no seu papel de líder de uma organização de PESSOAS, COM PESSOAS, PARA AS PESSOAS.

Ao fim do dia, quer-se que os Diretores de Escolas se olhem ao espelho e que obtenham a resposta: “Vós, meu Diretor (ou Diretora), sois o melhor.”

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