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Vanessa. Os ex-amigos são um problema

Vanessa. Os ex-amigos são um problema

Ana Sá Lopes 26/04/2016 16:19

A Vanessa acha que uma zanga irresolúvel entre amigos consegue ser pior do que os divórcios. É que depois de um divórcio ainda há qualquer coisa a fazer: as pessoas ficarem amigas. No fim de uma amizade, resta o nada. E não há mesmo nada a fazer.

Sempre me espantaram as pessoas que se queixam de não ter nada para fazer. Não me lembro de algum dia isso me ter acontecido. E não é apenas porque em geral tenho imensas coisas para fazer - e até faço muito menos do que gostaria. É só porque, na realidade, adoro fazer nada. Zero. Nenhum. Fazer nada é muito difícil (o trabalho e a vida limitam) mas quando apanho um bocadinho de tempo que posso usar para fazer nenhum agarro-o com extrema felicidade.

A Vanessa telefonou-me no sábado passado, à tarde.

- Olá, o que estás a fazer?

- Nada.

- Não queres ir fazer alguma coisa?

- Estou tão feliz aqui no nada.

- Anda lá. Tens que fazer alguma coisa!

- Não. O que eu tenho mesmo que fazer é nada. Está-me a saber tão bem o sofá.

Ao contrário de mim, a Vanessa nunca gostou de estar sozinha. Nem de fazer nada. Sempre precisou de “fazer coisas”, nem que fosse limpar o pó. Eu reconheço o valor fundamental das pessoas que preferem limpar o pó a ficar espojadas no sofá - no fim de contas o pó fica limpo e ninguém gosta de viver em casas cheias de pó. Mas eu não sou uma dessas pessoas, embora não goste também de viver em casas com pó. Mas aquele momento em que se é obrigado a pegar no pano amarelo é doloroso. Nós, as más donas de casa, as que preferimos fazer nenhum a aprimorar a casa, devíamos criar uma associação de consolo mútuo e de libertação dos complexos de culpa.

A Vanessa chagou-me tanto, recorrendo inclusivamente à chantagem emocional - é fácil chantagear-me nesse capítulo - que eu levantei-me do sofá e pus-me a andar, rumo a uma cervejaria onde dantes costumávamos ser muito felizes.

Quando nos sentámos e pedimos duas imperiais (não havia Peroni, não há Peroni em quase lugar nenhum em Lisboa), a Vanessa atirou-me:

- Este ano separei-me cinco vezes.

- WTF?

- Sim, zanguei-me com cinco amigos. Tenho cinco ex-amigos. O que se faz aos ex-amigos? Com os ex-namorados é tudo mais fácil. Com o ex-namorados podemos ficar amigos. Com o ex-amigos não se pode fazer nada. A verdadeira separação dolorosa e impossível de recompor é com os ex-amigos. A seguir ao amor, podemos ficar com a amizade. A seguir à amizade vem o nada.

(Quando ela falou no nada, eu pensei que preferia voltar ao meu estado de fazer nada anterior a esta conversa de sentido duvidoso)

- Vanessa, a vida é assim. As pessoas aparecem e desaparecem das nossas vidas. Devias estar habituada. Tens idade suficiente para saberes como são as coisas.

A Vanessa já tinha interiorizado que, por norma, as relações amorosas falhavam. As exceções eram uma coisa magnífica, mas a norma era o amor ser uma realidade trémula. Agora, a ideia de que a amizade também era uma coisa trémula, frágil, sujeita ao desaparecimento súbito tornava-se mais difícil de compreender. E estava ali, a bebericar a espuma da imperial, com um olhar triste.

- Vanessa, deixa-te disso.

- Não consigo deixar de pensar nisso. Cinco divórcios num só ano!

- Não foram divórcios, caraças.

A Vanessa insistia que o fim das amizades era uma separação quase tão dolorosa como um divórcio. É que depois do divórcio ainda havia alguma coisa a fazer - a amizade, precisamente.

- Vanessa, deixa-te disso. Marimba-te. Essas pessoas nunca foram tuas amigas, ponto final. Esquece.

- Tens razão. A partir de agora vou tornar-me “unattached”. Dizem que é a última moda em comportamento.

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