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Piriquita. A pastelaria que conquistou a boca do rei D. Carlos

Piriquita. A pastelaria que conquistou a boca do rei D. Carlos

João Porfírio Joana Marques Alves 23/04/2016 13:08

Muitos dizem que é daqui que saem as melhores queijadas e os travesseiros perfeitos. As primeiras começaram a ser confecionadas a pedido do rei. Os segundos já fazem parte das campanhas eleitorais 

Piriquita é sinónimo de travesseiros e queijadas. Não há quem passe por Sintra e resista ao cheirinho da Rua das Padarias – sejam turistas, sintrenses, Presidentes ou reis.

A padaria que mais tarde viria a ser conhecida como Piriquita foi fundada em 1862, exatamente no local onde ainda hoje se encontra, no centro da vila de Sintra, pelo padeiro Amaro dos Santos e a sua mulher, Constância Gomes. É desta senhora que vem o nome do espaço: O rei D. Carlos i – que gostava de passar férias em Cascais e Sintra – tratava Constância por “Piriquita”, devido à sua baixa estatura. A alcunha acabou por pegar e a pastelaria ficou com este nome. 

Terá sido mesmo para satisfazer a gula deste rei que a Piriquita começou a confecionar queijadas – de acordo com as histórias que foram passando de boca em boca ao longo dos anos, D. Carlos costumava, durante as suas férias, comprar pão neste espaço. Um dia, apareceu na padaria com a receita dos doces de que tanto gostava: as queijadas. Constância começou a confecioná-las e num instante se tornaram num sucesso. A padaria acabou assim por transformar-se numa pastelaria – um negócio familiar que é hoje gerido pela sétima geração.

O rei era um dos clientes prediletos da Piriquita, mas a amizade e o apreço mútuo não eram misturados com as visões políticas: “O meu bisavô era republicano convicto. Quando fizemos a Piriquita 2 (existem duas Piriquitas na mesma rua da vila), tivemos de fazer primeiro vários trabalhos e ‘descascá-la’ por dentro. Descobrimos na cave daquele espaço todo o armamento que o meu bisavô escondeu. Havia pistolas, espingardas e balas debaixo do chão”, contou ao i Fernando Cunha, o sócio-gerente do espaço. Existe mesmo a possibilidade de a Piriquita ter sido o local escolhido para encontros revolucionários e tertúlias.

Ideologias à parte, este espaço acabou por ficar conhecido por ser um dos locais preferidos do penúltimo rei de Portugal – um homem que apreciava os desportos náuticos, os avanços tecnológicos, a pintura… e um bom bolo. 

Campanhas com queijadas A monarquia caiu e veio a república, mas o hábito manteve-se: várias figuras políticas continuam a fazer questão de passar pela pastelaria sintrense – quer por “dever”, quer por prazer. 

“Na altura das campanhas eleitorais, a Piriquita é um local obrigatório. Todos passam aqui. Recebemos todos os Presidentes da República e alguns políticos são clientes assíduos, como [o líder social--democrata] Pedro Passos Coelho”, explica Fernando Cunha. “Também recebemos personalidades de outras áreas, como a música, a literatura e a representação. Passaram aqui muitos atores brasileiros, por exemplo. António Fagundes e Giovanna Antonelli são dois deles – esta última até partilhou uma fotografia da Piriquita na sua página no Facebook há pouco tempo”, acrescenta. No desporto, Fernando Cunha faz questão de referir o nome de Vítor Gamito, ciclista vencedor da Volta a Portugal em 2000. “É um amigo da casa e da família”, afirma o sócio-gerente do estabelecimento.

O segredo do travesseiro Muitos associam a Piriquita aos famosos travesseiros, mas estes só começaram a ser confecionados algum tempo depois das queijadas – mais precisamente depois da ii Guerra Mundial, altura em que a família viu a necessidade de criar novos produtos para chamar a atenção dos seus clientes. “A minha mãe [Maria Leonor, a pasteleira-mor da Piriquita] ainda tem o livro com a receita, mas faz tudo de cor”, diz Fernando Cunha. 

O ingrediente secreto continua guardado neste livro e ninguém a não ser a família sabe qual é – nem mesmo os funcionários que ali trabalham: “Há mais de 20 anos, um antigo pasteleiro tentou vender a nossa receita, mas tudo acabou por correr mal. Disse a um industrial aqui da vila que tinha a receita e foi com um ordenado chorudo para essa pastelaria – estava convencido de que tinha descoberto a pólvora. Depois o dono do outro estabelecimento acabou por vir cá pedir desculpa e disse-me que enquanto o bolo estava quente ainda era comestível, mas depois, se mandasse o travesseiro contra a parede, partia-a”, contou ao i.

Rumo à capital Depois de 150 anos dedicada a Sintra, a Piriquita decidiu explorar outros sítios para além da capital do romantismo e dirigir-se mais para ao pé do mar. No ano passado, a gerência abriu um espaço em Cascais, na Rua Frederico Arouca (mais conhecida como Rua Direita). No entanto – e para desgosto de muitos cascalenses –, esta só manteve as portas abertas durante o verão. “O negócio estava a correr bem, mas a parceria não. Quando voltarmos a abrir um espaço, abrimos sozinhos”, garantiu ao i Fernando Cunha. 

E já existem planos para uma nova loja: “Estamos a pensar abrir uma pastelaria em Lisboa. Temos de reorganizar a fábrica, que é muito pequena, mas penso que em 2017 já teremos este projeto bastante avançado”, explicou o sócio-gerente. 

Até lá, os apreciadores destes doces terão de se deslocar até Sintra. Para quem nunca os experimentou, saiba que uma visita aos palácios da vila de Sintra, da Pena e de Monserrate pede uma queijada. Um passeio pela Quinta da Regaleira só sabe bem acompanhado por um travesseiro. Porque não parar na Rua das Padarias, seguir o cheirinho a bolos e experimentar o doce que deixou o rei D. Carlos i com água na boca ou a iguaria com a qual a maioria dos primeiros-ministros e Presidentes da República adocicaram as suas campanhas eleitorais?

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