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Maria Helena Magalhães 20/04/2016
Maria Helena Magalhães

opiniao@newsplex.pt

Valha-nos Santa Maria do Marco!

Quem visita desprevenidamente esta cidadezinha de interior, hoje mais acolhedora e arranjadinha, não cuida de imaginar que aqui se encontra uma das obras emblemáticas de Siza Vieira

São do Norte os arquitetos laureados com o Prémio Pritzker, também considerado o Nobel da arquitetura, Souto Moura e Siza Vieira, internacionalmente conhecidos e considerados, com obra espalhada pelos quatro cantos do mundo.

É precisamente a norte e de Siza Vieira a Igreja de Santa Maria, no Marco de Canavezes. Quem visita desprevenidamente esta cidadezinha de interior, hoje mais acolhedora e arranjadinha – depois de uns anos de poder local mais ou menos arrevesado... –, não cuida de imaginar que aqui se encontra uma das obras emblemáticas do famoso arquiteto. Dada a sua localização central, a igreja só passa despercebida ao observador desatento, pois destaca-se – até haverá quem diga destoa – no conjunto urbanístico local. A envolvente é suficientemente feia – imagine-se que confronta com uma grande estação de serviço de combustíveis! –, o que dá à igreja um ar modernaço um tanto ou quanto descabido: como uma moçoila em traje regional com uma blusa Ana Salazar. Não combina!

Erguida num terreiro, espécie de pódio, a pedir arranjo paisagístico que já tarda, o exterior do edifício exibe as marcas do tempo, 20 anos volvidos após a inauguração. Estão anunciadas obras de conservação. Veremos. Se o aspeto exterior nos surpreende, o interior da igreja é espantoso: linhas retas e curvas que se entrecruzam numa harmonia de luz – rasgadas aberturas geométricas nas paredes – e som: no arrojado batistério é cantante o som da água que corre da pia batismal. A singularidade dos objetos de culto – altar, sacrário, crucifixo gigante – e do mobiliário, numa combinação de materiais nobres, empresta a este templo uma espiritualidade inesperada, porém convincente. Voltando ao exterior, e pegando numa curiosa abordagem antropomórfica – “Análise à igreja de Álvaro Siza Vieira Marco de Canaveses”, de A. Costa-Macedo –, o edifício assemelha-se a uma “mulher”: a caixa de luz por trás do altar é a “cabeça”, a nave retangular o “tronco”, e as paredes curvas os “ombros”, sendo as “pernas” os espaços do batistério e da torre sineira. Magnífico!

Enquanto, nesta primavera invernosa, o país político se afadiga no corpo a corpo partidário, e a oposição, como é hábito, se esmera a opor – esforço que se revela na proporção direta dos partidos: o maior esbraveja mais –, o país real vai tocando a vida, tateando e tentando não se afundar sob o coro de ameaças de crises presentes e anunciadas. Obviamente, os donos do dinheiro são os que mais se empenham em nos esfalfar. Assarapantam-nos com o peso da dívida e, como não perdoam juros, estão dispostos a espremer-nos até à exaustão: a CE determina e exige o cumprimento do seu figurino orçamental; o BCE, cujo presidente veio cá a convite e não mostrou nenhuma cerimónia, pelo contrário, afina pelo mesmo diapasão; o FMI, useiro a dar uma no cravo e outra na ferradura, alinha no coro das “medidas de contingência”. Todos se dizem a favor do desenvolvimento e, principalmente, do crescimento económico, mas comem-nos, e querem mais, a melhor fatia da riqueza nacional. Estaremos condenados a ficar enfezados?

Valha-nos Santa Maria, a distinta igreja do Marco!

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