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António Ribeiro Ferreira 18/04/2016
António Ribeiro Ferreira
Opiniao

antonio.ferreira@newsplex.pt

Costa & Lacerda, Lda.

Os amigos são para as ocasiões e para os negócios. Fáceis ou difíceis, como o malfadado SIRESP, os helicópteros russos que não voam, a compra de uma empresa ruinosa para a TAP ou as estranhas negociações com acionistas privados de um banco. É o PS do costume, sempre disponível para meter a mão na massa, pública ou privada

A geringonça anda mesmo aos tombos por estes dias. As nuvens do Programa de Estabilidade, que Costa e Centeno vão aprovar esta semana, da banca, em particular da Caixa Geral de Depósitos, e das trapalhadas da venda do Banif começam a ficar bastante negras e exigem da esquerda parlamentar toda a imaginação para não se escangalharem antes do tempo previsto. Costa, Jerónimo, Catarina e Marcelo andam numa roda viva para concertar os cacos e tentar desviar as atenções das coisinhas mesmo graves que andam a passar-se nesta República das bananas, nas barbas do povo a quem foi prometido o céu e a terra, o fim da austeridade e uma montanha de afetos para o compensar de quatro anos de maldades. Nesta missão quase impossível de controlo de prejuízos, ninguém consegue bater as engraçadinhas e os engraçadinhos do Bloco de Esquerda.

Na semana horrível para o chefe do governo, recheada de acontecimentos, como as demissões de ministros, secretários de Estado e chefes militares, as revelações sobre os negócios da firma Costa & Lacerda Lda. e as suspeitas sobre as mentiras de Centeno na comissão de inquérito ao Banif, as raparigas e os rapazes do Bloco de Esquerda lembraram-se de apresentar no parlamento uma proposta verdadeiramente imbecil, na vã tentativa de desviar as atenções e provocar um debate nacional sobre tamanha imbecilidade que, apesar de imbecil, tem pés para andar, ou não estivesse este desgraça de país entregue a um bando imbecil que é capaz de tudo para não largar o pote.

O assunto é o cartão de cidadão e importa reproduzir uma bocado da prosa idiota que justifica a proposta de alterar o nome para cartão de cidadania: “A designação deste documento de identificação não respeita a identidade de género de mais de metade da população portuguesa. O Grupo Parlamentar do Bloco considera que a sua designação não deve ficar restrita à formulação masculina, que não é neutra, e deve, pelo contrário, beneficiar de uma formulação que responda também ao seu papel de identificação afetiva e simbólica, no mais profundo respeito pela igualdade de direitos entre homens e mulheres.”

Dito isto, vamos ao que interessa. O senhor primeiro-ministro tem todo o direito a ter amigos do peito, da escola primária ou da faculdade. Ninguém tem nada a ver com isso. Mas só num país terceiro-mundista, sem regras, sem transparência, corrupto se admite que um senhor chamado ao governo use os serviços de um amigo, à margem do Estado e às escondidas, para tratar de negócios, claros ou escuros, que ainda por cima custaram aos contribuintes muitos milhões de euros. A firma Costa & Lacerda não existe apenas desde novembro, quando o PS foi para o poder com a mão da extrema-esquerda.

Soube-se a semana passada que já dura desde 2005, quando Costa foi para a Administração Interna no governo de José Sócrates. E entrou verdadeiramente a matar. Começou por anunciar a denúncia do contrato de aquisição do malfadado sistema de comunicações SIRESP, negociado de forma muito pouco transparente pelo executivo de Durão Barroso com uma empresa do universo do BPN, para pouco tempo depois assinar um novo contrato com a mesma empresa a troco de um desconto de milhões. E como se soube esta semana, na sombra do negócio lá andou o amigo Lacerda, que Costa admite ser um génio para negociar tudo e um par de botas. Depois veio o brilhante negócio de compra dos helicópteros russos Kamov por 42 milhões de euros, uma embrulhada que ainda dura 11 anos depois e está a ser investigada pelo Ministério Público. E também neste embrulho lá andou o dedinho do amigo Lacerda. Como andou na compra da empresa de manutenção do Brasil, desta feita como membro da Geocapital, que lucrou e muito com a venda posterior de uma empresa falida à querida TAP.

Percebe-se cada vez melhor o papel de Lacerda na reconversão da privatização da TAP, como se há de perceber mais cedo do que tarde o seu papel nos negócios privados do BPI. A firma Costa & Lacerda, Lda., agora com contrato firmado com o Estado, é bem o retrato deste país de esquerda. 

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