24/10/19
 
 
Ana Sá Lopes 15/04/2016
Ana Sá Lopes
Política

ana.lopes@ionline.pt

Confissões de uma ansiosa que se esforça por disfarçar

Neste momento, estou ansiosa, o que é normal. Tenho aproximadamente 25 minutos para escrever este texto e o risco de ficar péssimo é enorme. Mas é um risco calculado: há muitos anos que escrevo em cima da hora de fecho e sei que este bocadinho de ansiedade não é grave. 

O editorial nunca ficará como eu gostava que ficasse – isso nunca acontece. 

Sei que, como eu, há imensas pessoas ansiosas. A maioria, como eu, esforça-se por disfarçar. Não temos a coragem da deputada socialista Isabel Moreira que escreveu já sob aquela coisa misteriosa que vem não sei de onde. As tonturas. A sensação de que se está à beira de um ataque cardíaco. O desmaio iminente. A estranheza. As vertigens. A coisa. De onde vem a coisa?

Até ao fim do dia hesitei se devia escrever sobre isto. A Marta Reis, a autora do trabalho sobre a ansiedade, extraordinária jornalista, insistiu que eu o fizesse. Disse-lhe que tinha dúvidas. Não era nem americana nem inglesa, era incapaz de fazer o mesmo que Scott Stollel, director da revista “The Atlantic”, que contou a sua história em 2014 num magnífico texto “Surviving anxiety”. Havia uma questão máxima: os meus pais, ao lerem isto, vão ficar ainda mais preocupados comigo. Já acham que trabalho demais e que não me alimento como deve ser. 

Aqui há dias estava a entrevistar um eminente político e tive que parar a entrevista. Em 28 anos de profissão aconteceu pela primeira vez. Disse-lhe: “Desculpe temos que parar. Estou com uma tontura. Pode ser um ataque de ansiedade”. Consegui retomar mas já não foi a mesma coisa. Há o medo de que o ataque volte. 

Passei a vida a tentar disfarçar a ansiedade. Felizmente ela não acontece todos os dias em todo o lado. Mas de vez em quando pode surgir em momentos inexplicáveis: no meu sofá, nas férias, num jantar com alguém que me parece fantástico, a passear na minha cidade preferida, Londres. A solução é sempre igual:  esperar que passe. E aceitar que se irá repetir de novo, num lugar inesperado.

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