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Eutanásia. “As pessoas continuam a pedir-me ajuda para morrer”

Eutanásia. “As pessoas continuam a pedir-me ajuda para morrer”

João Girão Mariana Madrinha 13/04/2016 21:37

Com a petição pela morte assistida prestes a dar entrada na AR, a fundadora do movimento continua a receber pedidos de ajuda de gente desesperada. “Muitos doentes não conseguem discutir a eutanásia nem com os próprios médicos, é frustrante”, contou Laura Ferreira dos Santos ao i

Desde que o movimento que pede a despenalização da morte assistida foi lançado, em novembro passado, que a fundadora Laura Ferreira dos Santos começou a receber na sua caixa de correio eletrónico pedidos de ajuda, alguns de pessoas verdadeiramente desesperadas. “Recebo emails de pessoas doentes que estão num sofrimento atroz e não sabem com quem falar, sentem-se sozinhas”, conta. “Tento sempre dar uma palavra de conforto, dizer aquilo que posso dizer e que não vai contra a lei.”

No entanto, Laura Ferreira dos Santos não esconde que receber estes pedidos é uma realidade que lhe pesa. “São emails que, obviamente, me perturbam, porque estas pessoas estão na impossibilidade de falar disto quer com quem as rodeia – que não quer ouvir falar sobre o assunto –, quer com os próprios médicos.”

E discutir as questões de fim de vida com os médicos que acompanham os doentes é, para a antiga professora universitária, uma das pedras de toque da questão. “Não poder discutir isto com o próprio médico, porque o médico não quer ouvir falar, é lamentável.” Esta é uma realidade que lhe é bem próxima, contada na primeira pessoa. “Já tive relatos de pessoas que tentaram falar com os médicos sobre isto e que obtiveram como resposta, da parte do clínico, ‘eu não ouvi nada’. Isto é frustrante.” 

Para a fundadora do Direito a Morrer com Dignidade, podiam “evitar-se muitos casos até de tentativa de suicídio se os médicos pudessem falar abertamente sobre estas questões e, claro, se houvesse uma despenalização”, considera. 

Os suicídios de pacientes que não aguentam a pressão de um novo tratamento também não são uma realidade desconhecida para Laura Ferreira dos Santos – que, aliás, já falou publicamente sobre a hipótese de cometer suicídio à revista “Visão”. “Sei de situações de suicídios de pessoas que tiveram cancros reincidentes. Os doentes recusaram-se a fazer mais tratamentos, mas a família insistiu tanto que aqueles pacientes, já em novo tratamento, acabaram por se suicidar. Não há estatísticas: nos casos que me contaram, muito pouca gente soube a verdadeira razão daquele suicídio, são realidades que ficam muito escondidas”, denuncia.

Petição Na segunda-feira, a comissão que lidera o movimento cívico fixou a data de entrega da mesma na Assembleia da República (AR): 26 de abril.

Neste dia, pelas 15h30, o presidente da AR, Eduardo Ferro Rodrigues, receberá as assinaturas. Cumpre-se assim a ideia inicial de forçar a discussão no parlamento, objetivo que os proponentes do manifesto do movimento Direito a Morrer com Dignidade – que lançou a petição – nunca esconderam. “Claro que se desencadeámos este processo foi para tentar que ele desembocasse num final feliz”, considera Laura Ferreira dos Santos. E o fim feliz é, neste caso, o início da discussão em São Bento. 

Já para João Semedo, a entrega das assinaturas na AR é “um convite aos deputados, aos grupos parlamentares e aos partidos para tomarem a iniciativa e apresentarem os seus projetos de lei que conduzam à despenalização da morte assistida”. O médico e antigo dirigente do Bloco de Esquerda tem sido um dos maiores animadores da demanda, e espera agora que a “discussão da petição no plenário seja esclarecedora quanto à necessidade de a Assembleia cumprir a sua função legislativa e não continuar a adiar um problema que, mais cedo ou mais tarde, surge na vida de todos nós”. João Semedo considera que “é verdade que até agora ainda nada mudou”, mas também argumenta que nunca, até agora, a sociedade tinha “ido tão longe na afirmação tão forte, tão plural e tão representativa desta vontade de admitir a eutanásia”. 

Para Laura Ferreira dos Santos, a chegada das assinaturas à Assembleia tem um significado ainda mais pessoal. “Durante muitos anos, lutei sozinha por isto.” 

Treze anos depois de se ter debruçado sobre estas questões e mais de 700 páginas escritas sobre o tema distribuídas por dois livros – “Ajudas-me a Morrer” e “A Morte Assistida e Outras Questões de Fim-de-Vida” –, Laura Ferreira dos Santos diz ter a sensação “de dever cumprido”.

Embora afastada dos debates públicos por incapacidade física, decorrente das metástases ósseas que a assombram desde 2011 [foi, aliás, a meio de uma sessão de fisioterapia que nos falou], tem seguido de perto os passos dados pelo movimento que lançou. “Finalmente há um grupo de cidadãos que mostra decididamente que está interessado em discutir a questão e que isto lhes interessa muito.”

Sobre o que se vai passar após 26 de abril, Laura Ferreira dos Santos não tem dúvidas de que se tratará de um processo moroso, mas que já não estará nas suas mãos. “Independentemente do que irá acontecer, é uma primeira vitória. Pelo menos estamos a dar voz a pessoas que não a tinham, e isso, só por si, é algo bom”, considera. “Nós fizemos a nossa parte, as pessoas fizeram a sua parte ao subscrever a petição, agora depende dos deputados darem a última palavra.” 

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