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Vanessa. As pessoas que julgam que “estão” connosco

Vanessa. As pessoas que julgam que “estão” connosco

Ana Sá Lopes 12/04/2016 15:56

A Vanessa está irritada com o Vítor, um tipo com quem andou a sair uns tempos, porque ele teve a lata de dizer a frase “quando nós estávamos”. Parece que o verbo estar é a antecâmara do namoro e a Vanessa não gosta de pessoas que namorem com ela sem ela saber

Antigamente era tudo simples. As pessoas namoravam ou não namoravam. Havia um código claro. Ou minimamente claro. As pessoas enganavam-se muitas vezes, como a Marianne  Dashwood com o Willoughby, um sacana em estado puro do século XIX, na “Sensibilidade e Bom Senso” da Jane Austen. Mas não acontecia com tanta frequência o que acontece hoje, a confusão sobre o raio do laço que junta duas pessoas. Ultimamente, as pessoas dizem que “estão”. Estão? O estar é um verbo terrível. Os brasileiros, de longe muito melhor nestas coisas da linguagem que nós, inventaram o “ficante”. Há uma diferença entre o “ficante” e o namorado. Em Portugal, “está-se”, o que dá origem a uma série de mal-entendidos. “Está-se” com quem? Uma one-night stand não é “estar” (geralmente é um engano ou uma bebedeira) mas existem pessoas que actuam como se fosse.

A Vanessa telefonou-me ontem de manhã, a rir-se.

- Sabes que fui jantar com o Vítor? Lembras-te dele?

O Vítor? Aquele gajo de que te falei, aquele que só falava em mamas?

- Já não me lembro.

(Eu de manhãzinha lembro-me sempre de pouca coisa).

- Claro que sabes quem é o Vítor. É aquele com quem eu saí umas vezes, há dois ou três meses.

- Tenho uma ideia.

- Vê lá tu que o gajo, quando chegámos à sobremesa, disse-me que “nós estivemos”. Já viste a demência? Eu nunca estive com ele!!!! Saí umas vezes e pronto!

- Então estiveste!

- Ah isso é que não estive. Tu não percebes que há uma diferença entre “estar” e “sair”?

- Não.

A Vanessa já tinha adoptado com rapidez os novos códigos.

- Sair é uma coisa, “estar” é outra. Estar é uma coisa próxima de uma relação. Eu nunca estive com o gajo, juro! A coisa que mais me irrita são as pessoas que dizem que namoraram connosco quando nós nem demos por isso!

É verdade que a coisa acontecia. O sexo sempre se prestou a confusões. O amor também, mas pelo menos as coisas eram um nadinha mais claras.

- Mas como é que distingues as coisas? Se não se diz nada, é difícil distinguir. Embora as relações perfeitas sejam aquelas em que não é preciso dizer nada.

- Sim, mas não estou a falar de relações perfeitas. Estou a falar  das coisas comuns. O perfeito não é o comum.

O sexo e o amor eram coisas imperfeitas em geral. É verdade que havia bom sexo e mau amor, mau sexo e nenhum amor, bom sexo e amizade, mau sexo e inimizade. Ou não havia nada, que é o que Rubem Fonseca aconselha aos mais velhos porque já não há pachorra, no Diário de um Fescenino: “O sujeito começa a envelhecer quando não quer mais amar, quando perde o entusiasmo pela comunhão sexual, não tem mais coragem de enfrentar a incandescência, os refinamentos eróticos e também as desilusões, aflições e a logística exasperante da aventura amorosa”.

A logística da aventura amorosa era exasperante, mas a linguagem nova tornou-a mais complexa.

- Eu nunca namorei com o gajo! Eu não percebo como é que o gajo tem a lata de dizer que “quando nós estávamos”.

- Mas então estar é o estádio anterior a namorar?

- Nem sempre. Mas pode ser. Depende das pessoas.

- Mas se é o estádio anterior é normal existirem confusões. Coitado do Vítor. Ele ainda continua a falar de mamas continuamente?

A Vanessa respondeu mas eu não rebati porque estava à procura das cápsulas do café.

- Agora que já não estamos, já não fala tanto. Porque será?

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