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Sebastião Bugalho 06/04/2016
Sebastião Bugalho

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O Congresso do PPD e do PSD

Como escreveu lucidamente João Zamith, os 95% que votaram em Passos Coelho não o reelegeram para líder do PSD, reelegeram-no para bode expiatório do PSD.

Antes do Congresso deste fim-de-semana, a afirmação parecia-me exagerada. Depois de observar a actuação de Passos Coelho e de ouvir José Eduardo Martins e Pedro Duarte - os marcelistas que mais pareciam enviados de paz - entendi que não. De Espinho regressou a Lisboa o burburinho das facas a afiar: "Todos sabemos que não ganha nem autárquicas, nem legislativas. Se for preciso, fica em lume brando os dois anos e depois refresca-se o partido."

Este tipo de raciocínio, tanto básico como desleal, tem várias falhas.

Aqueles que predizem um 'golpe das primárias' como aconteceu a Seguro no PS, desenganem-se. Rui Rio não tem a mão que António Costa tem sobre o aparelho e Passos limitar-se-ia a ignorar a proposta ou a sorrir, dizendo: "Os estatutos do partido não o permitem. As nossas primárias foram no dia 4 de Outubro de 2015".

Eu não tomo a vitória da coligação PàF nas últimas legislativas como grande factor de legitimação de Passos Coelho e acredito ainda menos que a mesma estratégia torne a resultar. O eleitor português procura sempre o 'centro'. Os motivos podem ser múltiplos: imaturidade institucional da república, imaturidade política do eleitor ou imaturidade ideológica dos partidos.

A razão para o resultado atípico das eleições de 4 de Outubro de 2015, além da maior abstenção de sempre, foi precisamente a ausência desse centro. A imagem tecnocrática de um e a voz populista do outro afastaram os votos de ambos. Como o PS nunca ganha a fugir ao centro, votou-se no mal menor. Além disso, em Portugal, todos os governos que terminaram o primeiro mandato ganham a reeleição.

Claro que agora de pouco nos serve a história. António Costa contornou toda a tradição política portuguesa, o Bloco tem outro poder e tornou a haver uma opção centrista que dispersará ainda mais o voto. Paulo Portas percebeu isto antes da maioria e saiu a correr.

O PSD estar dependente que a gerigonça se aguente até poder eleger um novo líder é uma tão estratégia tão perigosa quanto Passos estar dependente que a gerigonça não se aguente até o seu mandato como líder terminar. Assim que perder uma eleição, 4 de Outubro deixa de servir como bandeira, mas dificilmente se demitirá e é com isso que o partido conta. Se o sucesso de Passos Coelho depende, essencialmente, do insucesso da gerigonça, o sucesso do PSD depende, escandalosamente, do insucesso de Passos Coelho. Quanto mais desgastada a sua imagem, mais salvador parecerá o seu sucessor. Não é por acaso que Rui Rio ficou em casa, em vez de ir a Espinho, ou que Marcelo anda a manter António Costa tão feliz.

Mais do que dividido entre liberais e sociais-democratas, o partido está dividido entre passistas e contra-passistas. Não tem a ver com crenças, tem a ver com pragmatismo. Um líder partidário que não serve para ganhar eleições não serve a partido nenhum. Marcelo quer um Bloco Central, talvez adoçado por Assunção Cristas, e Pedro Passos Coelho também não serve para isso.

Sabiamente, Santana Lopes colocou-se acima da disputa. Ao elogiá-lo, foi o único aplaudido de pé pelo pavilhão inteiro. As palmas foram de remorso. Mas isso é a política. 

Eu não vejo Passos querer saber. Finalmente, está livre da Troika, de Belém, do Tribunal Constitucional e do CDS. Não presta contas a ninguém, tem rédea solta. Por isso é que não se reinventa, mantém o discurso liberal e não hesita em promover Maria Luís Albuquerque. Até brinca, comparando-se com os sociais-democratas nórdicos, sabendo perfeitamente que a nossa economia não produz nada ao lado da deles e que Bruxelas jamais olhará da mesma para forma para Portugal e para o norte europeu.      

Mais teimoso que Passos Coelho, só Martim Moniz, que se entalou entre as portas do castelo para o resto da tropa afonsina entrar. É isso que o partido lhe quer fazer. Pena que ele nunca tenha mostrado paciência para mártires.

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