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Sebastião Bugalho 01/04/2016
Sebastião Bugalho

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Passos que se mexa

Se Passos não quiser tornar-se personagem secundária na tragicomédia nacional, é bom que se despache. A sua cortina está a fechar e os aplausos não são para ele. Venha o congresso.

Durante a campanha presidencial, generalizou-se a sensação de cumplicidade entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. Mais uma vez, Marcelo mascarava-se de não político, elogiando o antigo aluno. Costa seguia a sua linha prática, dando a entender que ter o professor na Presidência não lhe tirava o sono.

A cumplicidade perpetuou-se após a vitória marcelista, desde a promulgação do Orçamento à luta contra a “espanholização” da banca. Como escrevia graciosamente João Vieira Pereira, parecem Dupond e Dupont.

No entanto, não creio que esta relação seja motivo para assustar a direita, do mesmo modo que a amizade do nosso primeiro-ministro com Wolfgang Schäuble seja motivo para aliviar a esquerda. Nem Belém nem o Eurogrupo são jantares de curso, embora convenha lembrar que o Eurogrupo tem a legalidade de uma tuna académica.

Creio, por outro lado, que o prof. Marcelo e Pedro Passos Coelho seriam um bom casamento entre chefe de Estado e executivo. É certo que a distância do então comentador ao então líder de governo causou algumas feridas, mas a relação de Passos com Cavaco Silva também não tinha a mais saudável das origens.

O grande problema da governação de Passos Coelho foi uma questão de imagem. Ao fazer bem, falava mal. Quando nos é imposto um programa económico tão tecnocrático, o carisma deve servir de escudo à imagem do governante. Se ríspida, a frontalidade não tem qualquer valor político. Com Portas a promover produtos nacionais lá fora e Cavaco em hibernação, Passos encontrava-se demasiado vulnerável e não se soube proteger.

O erro começou no princípio: o “enorme aumento de impostos” devia ter sido justificado com a dívida que o PS escondeu durante as negociações do memorando. Passos, sob eventual pressão de um Cavaco que ainda sonhava com pactos de regime, poupou o recém-chegado Seguro e guardou o trunfo para eleições. Um erro crasso. Para o povo, essa explicação não valeu os quatro anos de austeridade. E assim se foi uma maioria absoluta.

Apesar de o novo Presidente parecer herdar o sonho dos acordos ao centro, é importante entender que não haverá lugar para consensos se aguentar a “gerigonça” tanto tempo que o regresso da troika se torne inevitável.

Se um novo governo de direita optar por manter o low profile europeu, os portugueses precisam de alguém que possa ser mais cético sobre a UE. A esquerda unida como oposição já será demasiado radical; um Presidente solidário é a solução indicada. Também julgo que alguém convenceu Passos Coelho disto tudo. Quem governou com uma câmara alta no Palácio Ratton governaria tranquilamente com uma câmara alta no Palácio de Belém.

A parelha seria ideal pelas suas diferenças e pelas suas semelhanças. Ambos se sacrificaram politicamente pelo país e pela estabilidade económica. Marcelo viabilizando dois Orçamentos de Estado enquanto líder da oposição; Passos recusando deixar o governo cair e o país tornar-se uma Grécia.

Passos acredita que compensa contar a realidade aos eleitores, o que faz dele um discreto idealista. Marcelo sabe que tem de dar ideias aos eleitores, o que faz dele um falador realista. Um tem tendência para a gafe, que é o estatuto que os portugueses conferem às verdades, e o outro favorece o sound bite, que é o estatuto que os portugueses preferem como promessas. 

São diferentes e têm um jogo de cintura distintamente acentuado. Jogam no mesmo palco, mas sem os mesmos papéis. Se Passos não quiser tornar-se personagem secundária na tragicomédia nacional, é bom que se despache. A sua cortina está a fechar e os aplausos não são para ele. Venha o congresso.

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