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Gentileza de um Gigante. A natureza como ela não é
O Homem que constrói paisagens, à mesa de um arquiteto

Gentileza de um Gigante. A natureza como ela não é

O Homem que constrói paisagens, à mesa de um arquiteto Vera Marmelo Cláudia Sobral 30/03/2016 18:56

Ou aquilo a que chamamos natureza, na verdade cada vez mais ficção. É sobre isso o espetáculo de Gustavo Ciríaco, hoje no Negócio da ZDB

Caminhamos para o dia em que o céu vai cair. Vai rachar e desfazer-se em pedaços sobre as nossas cabeças. Pelo menos é o que dizem os índios, ou alguns dos índios que sobram de todos os que já houve no Brasil. “O homem tirou tanta matéria amarela do seio da Terra que estamos a chegar a um ponto de não retorno, em que o céu vai cair”, explica Gustavo Ciríaco, coreógrafo, performer e artista contextual brasileiro que é o responsável por esta mesa de arquiteto que vemos no escuro em “Gentileza de um Gigante”, para ver até sábado no Negócio da ZDB.

Uma mesa à qual dois corpos nus, homem e mulher arquitetam, constroem e destroem paisagens - ou destroem para construir, num ponto em que já é impossível distinguir causas e consequências. O mundo construido pelo homem à sua imagem. “É com delicadeza que ele pensa o mundo, que o articula, à mesa de um arquiteto. A ironia é que a sua ideia  volta para si em forma de um de um Frankenstein sobre o qual ele não tem  controlo.”

Estes são os tempos da natureza como ela não é, uma fase a que se chama antropoceno, em que “o Homem ganha uma força de transformação do seu habitat tão forte que o lança para além de si”. E o mundo vai sendo transformado, com a natureza - e as paisagens - a serem modificadas. O Homem que tanto constrói o mundo à sua imagem, a ponto de estar a perder noção do ambiente a que pertence. Por exemplo, comer um bife. Quando comemos um bife não nos lembramos que o bife veio de uma vaca que se alimentou num terreno terraplanado para servir de pasto.

Uma selva plantada “No futuro haverá formas de natureza que não serão mais possíveis. Coisas tão simples como mergulhar no rio, como sentir o vento passar pelas árvores. Como é que vai ser a natureza num ambiente que o homem continua a fabricar?”, questiona Gustavo. “Porque ele já a fabrica, mas vamos chegar a um momento em que só vai existir mesmo aquilo que ele fabrica.” A Floresta da Tijuca, por exemplo, não é natural. É uma selva artificial, plantada numa zona que era de plantações de café depois de uma seca no século XIX. “Na Amazónia, os índios também criam os seus jardins e aquilo parece-nos floresta mas é pomar. A gente é que não percebe, a gente perdeu o fio da meada, porque quando a gente chegou a festa já estava montada.”

“Gentileza de um Gigante”, que depois de Lisboa será apresentado no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, no festival Walk&Talk, que prestou apoio à criação do espetáculo, e em São Paulo e no Rio de Janeiro, é sobre o quão impercetível pode ser uma ação que tem efeitos gigantescos. “Como por exemplo comer um bife.”

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