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Nuno Ramos de Almeida 21/03/2016
Nuno Ramos de Almeida

nuno.almeida@newsplex.pt

Quando o mal está dentro de nós

Quais os mecanismos que nos levam a recusar a opinião generalizada que é veiculada sobre um acontecimento  

Sempre que há uma guerra como na Palestina, uma crise como na Ucrânia ou um conflito político como no Brasil, verificamos nas redes sociais que as pessoas se dividem automaticamente. Todos temos vidas, histórias, educações, ideologias que são diferentes, mas por vezes parece que há mecanismos que fazem com que, na nossa cabeça, haja factos inaceitáveis que, para outros, são perfeitamente justificáveis: a morte de 100 crianças num bombardeamento israelita pode ser intolerável para mim e, para o meu colega do lado, completamente justificável, “até porque os terroristas usam-nas como escudos”, garante.

A propósito desta divisão aparentemente irreconciliável da sociedade, lembrei-me de duas situações: uma experiência e um jogo de futebol.

Em 1961, o prof. Stanley Milgram fez uma experiência destinada a perceber os mecanismos da obediência. Supostamente testava-se numa universidade o papel dos castigos na aprendizagem. Sempre que um indivíduo falhava uma resposta, um dos 40 voluntários na experiência devia carregar num botão e aplicar-lhe um choque elétrico. Estes castigos seriam progressivos: quanto mais o interrogado falhava, mais choques elétricos levava. Supostamente, estes castigos poderiam atingir níveis que fossem mortais. À medida que decorria a experiência, o suposto aluno ia-se contorcendo e dizendo que não aguentava mais, berrando e pedindo para o libertarem. Os voluntários, perante isso, olhavam para o cientista, de bata branca, presente na sala, que dizia de uma forma solene: “A experiência deve continuar.” Perante esta posição da autoridade, cerca de 65% das 40 pessoas aceitavam dar supostos choques de 450 volts que poderiam matar o interrogado, caso a experiência fosse mesmo sobre o papel da dor na aprendizagem. Durante a sessão, não houve um voluntário que tenha interrompido a experiência para ajudar o “aluno”. Uma pequena percentagem de participantes recusou-se a continuar e deixou a sala, mas sem prestar auxílio ou denunciar o teste que alegadamente eletrocutava pessoas.

Essas pessoas era diferentes do ponto de vista etário, de género e social, mas a conformação da maioria delas à autoridade parecia idêntica, como se a reação fosse cognitiva, e não social. Ou como se fosse preciso um exemplo e um gesto para conseguir a desobediência.

O segundo caso que gostava de deixar à reflexão foi o desafio de futebol que aconteceu a 30 de janeiro de 1938, no Estádio Nacional do Jamor, entre as seleções de Espanha e Portugal. Durante os hinos, os dignitários fascistas na tribuna, a multidão e os jogadores fizeram a saudação nazi. Todos? Não, quatro jogadores portugueses recusaram fazer o gesto. Artur Quaresma deixou os braços em baixo. Mariano Rodrigues Amaro e José Ribeiro Simões levantaram, desafiantes, o punho esquerdo, e o guarda-redes, João Mendonça e Azevedo, juntou-se à contestação. No final do jogo foram detidos pela polícia política de Salazar. Artur Quaresma, tio avô de Ricardo Quaresma, explicou em 2004 ao jornal “Record” porque se recusou a fazer a saudação fascista: “Tinha muitos amigos comunistas e oposicionistas, por isso foi uma atitude natural, embora não planificada.” Apesar de terem sido presos pela PIDE, foram libertados em pouco tempo, dado o apelo da direção do clube. Numa conversa, Quaresma acrescentou outra razão de fundo para a coragem dos quatro destemidos jogadores contra tudo e contra todos. Ao que parece, todos eles eram do Barreiro. Apanhar da polícia era tenebroso, mas viver na vila operária com o ónus de ter feito a saudação fascista e ter dobrado a cerviz era muito pior.

Ao que parece, a capacidade de dizer não e de tomar decisões complicadas, mesmo com custo pessoal, que não sigam a manada tem também muito que ver com a nossa inserção numa comunidade, de sentido, com identidade própria e que se recusa a aceitar aquilo que nos impõem.

Talvez seja essa a razão que possa ter levado centenas de milhares de brasileiros à rua, a apoiar um governo condenado por toda a comunicação social brasileira e poderes fácticos. Eles sabem que a direção do PT está longe de ser flor que se cheire, mas que pior que o atual governo só todos aqueles que lhes querem fazer engolir. O Brasil, depois do impeachment, será igualmente corrupto e ainda muito mais desigual. Talvez por isso, o prestígio de algum jornalismo esteja atualmente ao nível da maioria dos políticos.

Jornalista

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