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Ciganos. Tradição está mais liberal mas só “um bocadinho”

Ciganos. Tradição está mais liberal mas só “um bocadinho”

António Rilo Mariana Madrinha 27/02/2016 11:23

“Sou uma cigana sonhadora.” É assim que Maria Eugénia, 41 anos, se descreve ao i. Sente que a tradição cigana está mais liberal, “mas só um bocadinho”.

Maria Eugénia tem 41 anos, é solteira e trabalha nas limpezas. Eugénia é cigana, tem orgulho em sê-lo e considera a tradição em que cresceu “lindíssima”. No entanto, admite que há comportamentos xenófobos de parte a parte, embora considere que “há mais racismo de fora [pessoas não ciganas] do que propriamente nosso. Há sempre pessoas que nos olham de lado. Quando há um roubo, apontam logo o dedo aos ciganos”.

Maria Eugénia sabe que não é “uma cigana normal”. “Nunca me casei porque não quis. Os meus pais também nunca me obrigaram, tenho uns pais muito especiais. Estou ótima assim.” Também ela se sente especial. “Acho que sou uma cigana sonhadora”, diz a rir.

Além de ser “solteirona por opção”, como a própria se define, o seu trabalho também difere dos setores de atividade associados à esmagadora maioria destas pessoas. “Adoro fazer limpezas”, confessa. Além disso, também gosta de ver filmes e sonha um dia viajar. “Gostava de ir ao Egito, aos Estados Unidos, a todo o lado!” No entanto, só conseguiu ler as legendas dos filmes de que tanto gosta e que a levam, em sonhos, a esses destinos já depois dos 20 anos. “Fui aprender a ler em adulta, porque quis. Em criança não fiz a quarta classe. A escolha foi minha, disse aos meus pais que não queria ir mais à escola e pronto.”

Hoje percebe que a escolarização é importante e sonha inclusivamente que os oito sobrinhos – que diz serem quase como filhos – prossigam os estudos. “A mais nova diz que quer ser enfermeira. Não posso falar pelos pais dela, mas se fosse por mim, seria. Adorava, era o meu maior sonho.”

Escolaridade Esta é uma das tendências com que Olga Magano – socióloga e docente na Universidade Aberta que estuda as famílias ciganas há mais de 20 anos – se deparou. “A decisão de prosseguir os estudos acaba por ser, muitas vezes, das próprias crianças.” Mesmo que a maioria dos jovens ciganos continue a não completar o ensino obrigatório por lei (até ao 12.o ano), a socióloga nota diferenças nesta matéria. “Há 20 anos, quando comecei a estudar as pessoas ciganas num bairro do Porto, não havia uma única criança que completasse o quarto ano de escolaridade. Agora, o anormal é encontrarmos uma criança cigana que não tenha feito o primeiro ciclo. A partir daí é que a questão se complica”, esclarece. Para a docente universitária, a negligência é tanto das famílias como do Estado. “É importante intervir junto destas famílias para que as mesmas percebam a necessidade da escolarização e como isso pode abrir novas portas para os jovens.”

No caso das meninas, o abandono escolar continua a ser mais precoce e pronunciado. “As jovens ciganas são incentivadas a não estudar por várias razões, mas aqui as questões culturais de casar cedo são as mais importantes. As famílias também não querem que as raparigas estudem para as impedir que conheçam rapazes”, explica Olga Magano.

Eugénia confirma que assim é. “Sim, as famílias não gostam muito que as raparigas estudem com medo que elas se apaixonem por alguém não cigano. Acho mal, acho uma loucura.” No entanto, perante a situação hipotética de alguma jovem da sua família se interessar por um rapaz que não seja cigano, responde sem hesitar: “Isso era horrível!”

Sexualidade “Para as famílias ciganas, a virgindade das noivas é uma questão de honra. O momento em que as mulheres mais velhas e respeitadas atestam se a noiva é virgem é o momento alto da festa”, relata a socióloga.

Maria Eugénia concorda com esta tradição. “Acho muito bonito as pessoas só se entregarem no dia do casamento à pessoa de quem gostam.” E reconhece que o facto de as jovens se casarem tendencialmente cedo “é algo natural”. “Do que eu conheço, as miúdas casam porque querem. A partir dos 14 anos só pensam nisso”, conta. Mesmo sendo contra a lei, a entrevistada refugia-se na explicação milenar: “É a tradição.”

Os casamentos ciganos são um compromisso perante as famílias e, maioritariamente, não envolvem papéis ou religiões. “Já há ciganos que também casam pelo civil”, revela Eugénia. E os divórcios? “São sempre muito complicados, mas também há.”

No entanto, há outros temas que antigamente eram aceites pela comunidade cigana que a chocam. “Não acho nada bem os homens baterem nas mulheres. Hoje em dia já se fazem queixas e as famílias, às vezes, até protegem essas mulheres.” Embora esta seja uma realidade ainda escondida, como afirmam ao i Maria Eugénia e também Olga Magano, há outro tema ainda mais tabu: a homossexualidade. “Isso, principalmente quando são homens, nem se fala!”, exclama Eugénia. “Tenho pena dessas pessoas, mas seria muito difícil serem aceites pelos outros. A tradição cigana está mais liberal, mas só um bocadinho”, conclui.

Xenofobia Eugénia diz que às vezes as pessoas – que não a conhecem – a olham de lado. “As pessoas têm medo dos ciganos. Cada vez que há um roubo, os primeiros suspeitos somos logo nós.” Confrontada sobre a veracidade de algumas destas acusações, responde com humor. “Há ciganos muito ciganões, é verdade. Mas há gente boa e má em todas as raças.”

Sobre a integração da comunidade cigana na sociedade, Eugénia diz ter pena que muitas tradições ciganas sejam ainda desconhecidas. “Nós temos muitas danças, muita música, e a sociedade vê sempre as partes más antes das boas. É pena”.

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