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Quatro. O cinema a devolver o que roubou

Quatro. O cinema a devolver o que roubou

Cláudia Sobral 28/01/2016 16:05

O último filme de João Botelho, que estreia hoje no Cinema Ideal, conta a história de quatro artistas. Dois mais dois, em quatro partes iguais.

Dois mais dois são quatro, as contas e os pares saíram perfeitos da vontade de João Botelho quando decidiu fazer “Quatro”, o seu último filme que estreia hoje no Cinema Ideal, em Lisboa, e conta a história de quatro artistas “do melhor que há em Portugal”, palavras do realizador numa sinopse que vem na primeira pessoa. Um último filme que não é bem último, filmado antes, durante e depois d’ “Os Maias” e que data de 2014, ano em que foi exibido fora da competição do Doclisboa. E estreia agora e fica em exibição apenas uma semana porque “não é um filme normal, é um filme anormal, é cinema minoritário, destinado a pessoas que gostam de pintura e que gostam de cinema.” Não se fale em público, isso a que se chama público – que públicas são as retretes, já lhe dizia Manoel de Oliveira e ele aprendeu.

Fechando parêntesis, é importante saber de onde veio este filme. “Eu acho que o cinema rouba às outras artes”, diz-nos o realizador numa conversa ao telefone. “Isto é uma espécie de devolução do roubo.” Através de Jorge Queiroz e João Queiroz, Francisco Tropa e Pedro Tropa, dois irmãos mais dois a fazerem de si próprios em quatro partes de 25 minutos para as quais cada um escolheu as suas músicas e em que João Botelho cumpre o prometido. “Respeitar as obras deles e respeitar o cinema que eu faço.” E “Quatro” é mesmo isto, do princípio ao fim, não tivesse o realizador ido com os artistas onde eles o quiseram levar – o que implicou fazer coisas como andar seis horas a pé, sob a chuva e tudo o que mais vinha do céu, para apanhar nas Astúrias o primeiro nevão, que Pedro Tropa queria fotografar, porque João Botelho queria filmá-lo a fotografar.

“Outra regra principal é que eu não queria explicar.” Porque “a arte não se explica, mostra-se. E sente-se. E é por isso que não há nenhuma explicação deles que justifique por que é que são assim, por que é que fazem esculturas daquela maneira, por que é que fotografam daquela maneira.” Apenas dois narradores, Diogo Dória e Miguel Guilherme, que dão a “Quatro” o tom inconfundível do realizador que está este ano a filmar “Sequem as Lágrimas, Ouçam a Pintura das Palavras”, o seu próximo filme.

Jorge Queiroz e João Queiroz, Francisco Tropa e Pedro Tropa. João Botelho escolheu-os porque são “maravilhosos, geniais, fantásticos”. E são seus amigos, uma amizade com os quatro artistas já vem de longe, das festas do porco (título devido ao porco no espeto) que organizavam na Avenida da Liberdade e João Botelho frequentava. Mas não podia ser apenas por isso. E não é. “São pessoas que, tal como eu, acham que a arte é mais importante do que a vida, quando pintam não é para vender, é porque têm necessidade de pintar, quando fazem escultura é porque têm necessidade de fazer escultura. Quando eu faço cinema é porque tenho necessidade de fazer cinema. Esta coexistência de ideias e conceitos serviu muito para fazer um filme desta maneira.”

“Quatro” está em exibição no Cinema Ideal apenas uma semana, para depois passar para o Teatro do Campo Alegre, no Porto. “É um filme minoritário”, repete João Botelho, “mas que merece ser visto”. Cem minutos exatos muito bem repartidos que democracia é isso mesmo. Isso e cada um pensar por si e nenhuma cabeça ser igual à outra, haver liberdade de pensamento e esse espaço onde ninguém entra. Diz João Botelho que “graças a Deus. Ou ao bosão de Higgs, tanto faz.”

claudia.sobral@ionline.pt

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