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José Miguel Júdice. “Não há marcelistas em Portugal”

José Miguel Júdice. “Não há marcelistas em Portugal”

Pedro Azevedo Luís Claro 21/01/2016 08:07

José Miguel Júdice está convicto de que Marcelo vai dar “alegria” ao cargo e, se vencer, terá facilidade em conseguir consensos. “Tem uma boa relação com todos. O Cavaco era um tipo completamente crispado”

José Miguel Júdice é amigo de Marcelo Rebelo de Sousa há muitos anos. No PSD fizeram parte da tendência Nova Esperança, que na década de 80 contestava o governo do bloco central. O advogado não tem dúvidas de que Marcelo é “o mais bem preparado” para o cargo dos dez candidatos e que, ao contrário de Cavaco Silva, vai ter facilidade em conseguir consensos.

Acha que as eleições vão resolver-se à primeira volta ou vamos ter segunda volta?

Não sei fazer previsões dessas. Espero que Marcelo Rebelo de Sousa ganhe à primeira volta, mas tenho a certeza de que, não havendo a crispação que houve na eleição entre Mário Soares e Freitas do Amaral, em 1986, nenhum dos outros candidatos conseguirá fazer o pleno de toda a esquerda. E, portanto, acho que ele ganhará. Se não vencer à primeira, vence à segunda.

Marcelo Rebelo de Sousa tem sido acusado de ser uma pessoa instável. Conhece-o bem e há muitos anos. É uma crítica injusta ou há alguma verdade nisto?

Eu costumo dizer que os grandes políticos têm um corpo de valores dos quais não se afastam. Não são muitas coisas, mas são coisas muito importantes que são de uma consistência e de uma coerência total em relação a esse corpo de valores. Depois são muito pragmáticos em tudo o resto. Veja o caso do Mário Soares. É um bom exemplo. Para Mário Soares, havia três ou quatro coisas que eram essenciais e ele nunca mudou, nunca fraquejou, nunca cedeu nisso. Ligou-se à direita, ligou-se à esquerda, meteu o socialismo na gaveta, tirou o socialismo da gaveta... Se você for ver tudo o que disse o Mário Soares, poderá dizer que ele é um completo cata-vento, mas naquilo que era essencial, antes e depois do 25 de Abril, nunca mudou.

Marcelo Rebelo de Sousa, se vencer, fará um mandato diferente?

O Marcelo é uma pessoa divertida, que é uma coisa de que os portugueses gostam pouco. Ele teve de controlar a sua boa disposição porque os portugueses acham que os políticos devem ser umas pessoas maçadoras. Eu acho que ele vai dar alegria. Uma coisa que sei que ele vai fazer depois de ser eleito é ir muito para fora. É capaz de ir almoçar ao restaurante, ir a uma peça de teatro, ir visitar uma exposição, estar a falar com pessoas normais, não se deixar isolar numa redoma. É uma pessoa que está muito preparada para a função e vai fazer exatamente aquilo que diz. O Marcelo Rebelo de Sousa apresentou uma estratégia política, um programa político de Presidente da República. Foi o único e obrigou os outros a fazerem um bocadinho o mesmo. Os outros fizeram programas como se fossem governar o país. Ele é um árbitro, um poder moderador, é alguém que pode ter de tomar decisões mas que, se tudo correr bem, não tem de tomar muitas decisões. Infelizmente, acho que ele vai ter de tomar decisões muito complicadas e é claramente a pessoa mais bem preparada dos dez candidatos.

O que o distingue das outras candidaturas?

É o mais experiente. É o mais experiente em relação à realidade política. O facto de ele conhecer todos os players políticos e de ter uma boa relação com todos eles é algo que lhe vai facilitar o exercício das funções. O Cavaco era um tipo completamente crispado. Só tinha relações com as pessoas que eram muito amigas dele. O Marcelo tem uma enorme vantagem que é a de não ter um grupo por trás dele. Não há marcelistas em Portugal. Ele não tem um bando de pessoas que queiram cargos, não tem e não vai dar. Isso é um paradigma de um excelente Presidente da República e é o único que está ao nível de todos os anteriores.

Marcelo e Cavaco são muito diferentes?

Basta olhar. Não têm nada em comum. Mesmo ideologicamente, o Cavaco é um homem que toda a vida trabalhou no Estado. O Marcelo é um homem da sociedade civil, é muito liberal nos costumes e na maneira de encarar a vida. É um homem muito menos crispado. O Cavaco não tolerava uma crítica. O Marcelo aguenta as críticas com muita tranquilidade.

O próximo Presidente vai ser obrigado a ter uma posição mais interventiva?

Ele vai ter uma posição mais ativa, mas vai pôr as pessoas a falar umas com as outras. Na crise de 2013, o Cavaco tentou fazer isso, mas não tinha jeito para aquilo. Ele teria resolvido aquela crise falando com um, falando com outro, juntando as pessoas...

Cavaco Silva raramente conseguiu esses consensos, apesar de ser uma das suas prioridades.

Nesse sentido, o melhor foi Jorge Sampaio. Ele conseguia pôr as pessoas a falar umas com as outras e o Marcelo adora fazer isso. Ele tem todas as condições para - na medida dos poderes do Presidente da República, que são muito limitados - resolver as crises muito melhor do que qualquer outro antes dele. Talvez apenas o Sampaio... O Sampaio foi excelente nas crises, nalguns casos zangando-se até com os seus amigos. Foi um excelente Presidente da República porque era capaz de enfrentar uma crise e acho que o Marcelo também é um Presidente capaz de enfrentar as crises.

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