10/7/20
 
 
António Cluny 05/01/2016
António Cluny

opiniao@newsplex.pt

Um ano que queremos mesmo novo

A ideia da intransponibilidade do “possível” constituiu sempre uma armadilha usada contra o futuro e a justiça

1. O início do ano conduz-nos quase sempre a uma reflexão sobre o passado e à formulação de projetos sobre o que vamos, ou não, continuar a fazer e sobre o que, de novo, tentaremos realizar.

O rebentar das rolhas de espumante significa tanto um tiro no que de mal o ano passado permitiu, como representa um projétil, um foguete de esperança, lançado em direção ao futuro. 

Com a idade, o espírito demora-se, contudo, talvez ainda mais, sobre o passado e menos sobre o futuro, sobretudo quando, pela experiência, não se vislumbram próximas as grandes mudanças com que se embalaram os sonhos jovens.

O “possível”, o cinzento e frustrante “possível”, foi-nos demasiadas vezes imposto como uma fronteira intransponível entre a realidade e o desejo.

A ideia da intransponibilidade do “possível” constituiu, todavia, uma armadilha usada contra o futuro e contra a justiça.

E, no entanto, remexendo as gavetas da memória, das lembranças dos factos e dos desejos que se foram formulando e transfigurando ao longo da existência, todos somos levados a perceber como tudo se cerziu (sempre) num tecido áspero de ilusões e utopias que constitui, afinal, o sentido mais verdadeiro da própria vida.

Dizendo, umas vezes alto, outras entre dentes, frases de que, verdadeiramente, discordamos - “já não acredito em nada, nem em ninguém” - vamos, ainda assim, perseverantes, continuando projetos e acalentando propósitos generosos que, verdadeiramente, nunca abandonámos.

2. Nesta Europa em mudança acelerada e neste Portugal de hoje, tais reflexões parecem, até, poder ganhar maior sentido.

Damos connosco, por isso, a esboçar, de novo, ideias avançadas e generosas, e maneiras criteriosas, mas inventivas, de as levar à prática.

No fundo, verdadeiramente, não há idades para deixar de prosseguir caminhos idealizados e iniciados com entusiasmo.

Quem de nós - a não ser por efeito das limitações físicas que teimam em fazer-se notar - se lembra, de facto, da idade que tem?

Na minha geração, independentemente das diferentes ideias que muitos possam ter abraçado, a perceção da urgência e da inevitabilidade de concluir um projeto de mudança para melhorar a sociedade que herdámos é comum: é comum e atual.

Poucos são, de facto, os que se conformaram de vez com um possibilismo egoísta e inibidor da vontade de ver a sociedade - o nosso semelhante - viver melhor, mais livre e mais justamente.

É verdade que alguns abrandaram o ritmo e procuraram, por vezes, usufruir das coisas boas que sabem ser privilégio só de alguns, por teimosa injustiça.

Mas isso não lhes cerceou, em geral, a consciência das injustiças e da necessidade de continuar a vencer o inexorável - mas nunca aceite - “possível”: o limite de sonho que outros sempre procuraram convencer-nos ser decisivo.

Muitos daqueles, lembremos, arriscaram uma precipitada participação numa guerra em que não acreditavam e alguns foram presos e torturados para - contra a então evidência das coisas - poderem ajudar a fazer um futuro melhor para todos.

3. Hoje, apesar dos riscos e de algumas nuvens negras que pairam sobre a Europa parecem também rasgar-se espaços de céu azul propiciadores de melhores tempos.

Alargar esse céu azul continua, apesar de tudo, apenas e sempre nas nossas mãos.

Não deixemos, por isso, que os velhos do Restelo ou de outros lugares próximos ou situados em qualquer outra parte do mundo, nos procurem cercear o sonho de contribuir para um futuro melhor para todos.  

Jurista. Escreve à terça-feira  

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