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Um clown pode ser um político?

Um clown pode ser um político?

Shutterstock Ana Sá Lopes 28/12/2015 21:05

Coluche candidatou-se às presidenciais de 1981 em França, depois de ter sido varrido dos meios de comunicação social por ridicularizar Valéry Giscard d’Estaing e o caso dos diamantes. A candidatura era, para Coluche, uma tribuna a partir da qual poderia falar - não era uma candidatura real à presidência, era uma forma de chamar a atenção para a censura mediática de que fora objecto.

Rapidamente, a brincadeira passa a ter 16% das intenções de voto para as presidenciais francesas de 1981. Coluche reune à sua volta intelectuais como Félix Guattari, Gilles Deleuze, Pierre Bourdieu, Alain Touraine - e tem o apoio da equipa do “Hara-Kiri”, jornal satírico francês. Mas em Abril de 1981 Coluche decide retirar-se da corrida presidencial. No documentário “Coluche, um palhaço inimigo do Estado”, é relatado por várias testemunhas como a “secreta” francesa fez tudo o que pôde para obrigar Coluche a desistir de ser candidato. Os autores do documentário descobriram um dossiê inteiramente dedicado a Coluche  - as suas actividades diárias estavam sob intensa vigilância da polícia secreta. Coluche retira-se de facto da corrida presidencial mas, mesmo assim,continuará a receber ameaças de morte. O palhaço que não chegou a ser candidato a presidente de França morre em 19 de Junho de 1986, num acidente de mota.

Coluche foi o primeiro - e talvez o mais “sério” - candidato palhaço dos nossos tempos. Em Portugal, temos a tradição Manuel João Vieira que, desta vez não conseguiu as assinaturas.

Mesmo assim, teve direito a página na net - Vieira2016 - e anunciou o manifesto “a bordo da caravela ‘Arca’. “O pintor, músico, performer, poeta, pundita, profeta e político Manuel João Vieira apresenta as motivações morais, económicas e estratégicas que o levam mais uma vez à disputa do mais alto cargo da nação”. Não o levaram, não houve assinaturas que chegassem.

O manifesto é à “Manuel João Vieira”: “No seu manifesto é dito que: em primeiro lugar Portugal é nosso! É preciso construir um país em que os nossos emigrantes possam trabalhar”! Promete destruir o Adamastor da mentira da alta finança! Promete com o coração e a esperança ultrapassar o medo e a depressão com virilidade e confiança!”. E por aí fora, tudo em letras maiúsculas. Acaba com “A Europa é nossa! O mundo é nosso. Só desisto se for eleito”.

Fundador das bandas “Ena Pá 2000”, “Irmãos Catita” e “Corações de Atum”, Manuel João Vieira já tinha anunciado vir a ser candidato à Presidência da República em 2001, 2006 e 2011. Em nenhuma das eleições conseguiu reunir as assinaturas e fazer parte do boletim de voto. O que não impediu de existirem inúmeros fãs do “candidato Vieira” que se misturam com os fãs do músico Vieira.

Tino de Rans anunciou a sua candidatura à Presidência, nas Escadas das Verdades, próximo da Sé do Porto a 24 de Outubro, afirmando logo que já tinha recolhido 6500 assinaturas (o mínimo legal são 7500). A verdade é que entregou as assinaturas no Tribunal Constitucional - resta agora ao tribunal averiguar se são válidas ou não.

Tino de Rans - de seu nome verdadeiro Vitorino da Silva - é calceteiro de profissão e ficou conhecido do grande público pela sua intervenção num congresso do PS quando ainda era secretário-geral António Guterres. Na altura, Tino era presidente da junta de freguesia de Rans, concelho de Penafiel. Anos mais tarde foi candidato à Câmara de Valongo.

Agora, o seu anúncio da candidatura foi claro: “Vou ser Presidente da República. Com 22 anos, o povo da minha terra quis que eu fosse presidente da junta, que pusesse Rans no mapa, não tenho dúvida nenhuma de que o país quer que o Tino seja Presidente da República”, disse no dia em que anunciou a candidatura. A campanha é dirigida à “plebe”: “É pela plebe que sou candidato. Em 872 anos da nossa história, a plebe foi sempre figurante. Nunca teve o papel principal. O povo está muito fino, a plebe sabe o que quer e não tenham dúvidas nenhumas de que pode haver taça, pode haver um tomba-gigantes. Há muita gente que pensa que somos uns peixinhos, mas os peixinhos, se estiverem atentos, podem comer os tubarões”. O adversário principal, diz Tino de Rans, “é Marcelo Rebelo de Sousa”.

Beppe Grillo, líder do movimento “Cinco Estrelas”, conseguiu conquistar um quarto dos italianos nas eleições de 2003. Um dos seus apoiantes foi o dramaturgo Dario Fo, prémio Nobel. “Grillo é como uma personagem de uma das minhas peças”, disse Fo. “Ele é daquela escola do teatro medieval que jogava com o paradoxo e com o absurdo”. Dario Fo escreveu um livro sobre o movimento político do comediante e deu-lhe apoio público num comício em Milão poucos dias antes das eleições.

José Manuel Coelho tornou-se rapidamente conhecido quando foi eleito para o parlamento madeirense pelo PND. Foi o mais eficaz crítico de Jardim - utilizando exactamente as mesmas armas de Jardim, o absurdo, o insulto e o populismo. No fim de Dezembro de 2010 apresentou a sua candidatura à Presidência da República com o apoio do PND. Utilizou a campanha para falar da situação na Madeira e contra o “caciquismo” do poder local em geral, atirando-se também a Cavaco Silva e associando-o ao escândalo BPN.

 Os resultados das presidenciais deram-lhe quase 190 mil  votos que constituíram 4.49% do total. Foi o candidato mais votado no Funchal (41.15%), Machico (41.09%), e Santa Cruz (47.48%). Foi condenado por difamar Jardim.

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