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A poesia em Portugal no tempo pós-polémico

A poesia em Portugal no tempo pós-polémico

Miguel Filipe Mochila 20/12/2015 20:06

Num ano em que alguma coisase ganhou, impossível é esquecerduas perdas colossais.

Tornou-se já redundante reiterar o facto de a poesia estar hoje, em Portugal, a expensas dos pequenos editores, num regime bastante caseirinho a que nos fomos placidamente acostumando, a bulhas tantas no arraial do bairro. Mas se há não muito forcejavam uns no raio da lente que captura os instantâneos do jornal da província, enquanto outros clamavam por insistente desatenção para não serem confundidos com aqueles, o certo é que o atrofio a que a edição e recepção da poesia têm sido sujeitas em Portugal parece ter tido, entre tantas e tão lesivas desvantagens, pelo menos a vantagem de esclarecer alguns pontos.

Neste sentido, e deixando de lado alguns nomes consagrados e já perfeitamente instituídos, 2015 trouxe-nos um par de curiosas novidades sistémicas, chamemos-lhes assim, no que respeita aos gestos fundadores de alguma lógica no enfezado rol de livros de poemas que trazemos por poesia portuguesa actual. Veja-se a novidade, assaz grotesca, de depararmos com o labor quase sísifico da Averno e da Língua Morta na produção de antologias de significativo fôlego de autores internacionais de primeira linha, até à data inéditos em português, ainda para mais vivos (!), num empreendimento de que há já muito as tradicionais editoras de fundo se demitiram, sujeitas à inépcia da indigência material reinante. Nem a meritória publicação de 200 poemas de Emily Dickinson (Relógio d’Água), em tradução de Ana Luísa Amaral, serve para disfarçar tal facto.

Não deixa além disso de ser ainda interessante destacar que a cartografia da nossa poesia se vai desenhando em gestos de peso sistémico assinalável, conscientemente procurando resgatar à lassidão receptiva uma franja de terra habitável. É nesta linha que se inscrevem livros de significativa carga institucional, pró ou contra-sistemicamenete, na ignição e ressonância inter pares da sua instalação no nosso circuito receptivo, que buscam e fazem por merecer. Veja-se a recente antologia de Inês Lourenço, “O Segundo Olhar”, publicada pela Companhia das Ilhas, ou a nova antologia da poesia de Manuel de Freitas, “Sunny Bar”, publicada pela Alambique, ambas sugestivamente fruto da selecção de outros poetas (José Manuel Teixeira da Silva e Rui Pires Cabral, respectivamente) e amparadas em paratextos interpretativos (do antologiador, no caso do livro de Inês Lourenço, e de Silvina Rodrigues Lopes, no caso do livro de Manuel de Freitas). 

Questões de justiça

É na mesma órbita de engendramento de um espaço que procura os seus referentes, entretido no levantamento dos mortos e vivos que ficam depois da travessia do buliçoso quase-deserto dos últimos anos, que se incluem outros gestos a este nível sugestivos, como o da publicação, pela Artefacto, de uma antologia da esquecida poesia de Luís Amorim de Sousa, “Mera Distância”. Assim se procura enquadrar um futuro hesitante a partir da estratégia sempre válida (e não inédita) do revivalismo e da invenção de um injustamente esquecido autor que apadrinhe uma poética nova, que só futuros títulos poderão confirmar ou desmentir. A Averno prossegue, nesta linha, a descoberta de António Barahona, que definitivamente marca os últimos anos da edição de poesia em Portugal, com a justeza merecida. 

Respiração assistida

Seja como for, aquilo que se divisa com alguma clareza é um maior conforto da edição de poesia em encenar deliberadamente os gestos de fixação de uma rede de referentes, num tempo em que, de facto, começa a ser difícil para todos perceber de que é que se é, ou pode ser, afinal, independente, e em que por conseguinte os pruridos institucionais se esbatem. São tão pacatos e tão exclusivos os cânones que as casas editoriais vão erigindo autonomamente que a rixa contínua em que se achavam uns e outros parece já ter aborrecido todos, entregues agora à edificação de referências cada vez mais pessoais, quando não casuísticas, sem o polemismo congénito de outros tempos, optando (ou nem sequer optando) frequentemente pela política do silêncio. 

Bem o resultado de um tempo em que a edição da poesia (sobre)vive em respiração assistida, cujos valedores se vão revezando em turnos cada vez mais morosos, por serem cada vez mais exíguos, é a esclarecedoramente exígua acção da Assírio & Alvim, que, lidando com a claustrofobia do mercado, gere em meia dúzia de títulos uma pluralidade que é a maior vantagem do tempo pós-polémico que é o nosso. O seu catálogo de 2015 confirma os autores habituais (Gastão Cruz, Ana Luísa Amaral), a par daquele que, com “Mirleos” de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d’Água) e com “Sabão Offenbach” de Nunes da Rocha (&etc), é um dos mais fulgurantes livros novos de 2015 (“A Sombra do Mar”). Mas encontramos ainda dois dos mais significativos gestos institucionais do ano que agora termina: a publicação das reuniões poéticas de Rui Pires Cabral (“Morada”) e de Luís Quintais (“Arrancar Penas a um Canto de Cisne”). Num punhado de títulos se constrói uma curiosa diversidade que define uma pretensão institucional de fixação canónica, sem que isso ponha afinal em causa a identidade autoral. Não deixa de ser curioso ter sido necessário esperar pelos sobreviventes para que a pluralidade se tornasse aparentemente tolerável.

Sendo qualquer coisa, é muito menos do que insuficiente. Entretanto, a novidade não está em que proliferem micros e mínimas edições em plaquetes que vão muito bem com o plástico berrante da FNAC, publicadas em catadupa, distribuídas pelos amigos, mas mais talvez na persistente incapacidade de gerar com tal um movimento disruptivo que à abundância de novos autores agregue algum peso sistémico significativo, para lá do eco lá da rua onde se é rei e senhor do mundo na tarde-noite do lançamento. Os outros projectos que vão surgindo e se vão mantendo (a Douda Correria é o caso mais prolixo, mas também a Tinta da China, a Companhia das Ilhas, a Mariposa Azual, entre outros) ainda não conseguiram, ou não quiseram, provocar a força de atrito que poderia dar mais graça ao balanço desta caravana desertada, em que já ninguém parece ter ensejo de enquadrar criticamente a produção própria.

As perdas sem volta

No ano que é o da morte do nosso poeta maior, Herberto Helder, e do nosso editor maior, Vitor Silva Tavares, cabe recordar que era justamente essa a graça séria que a &etc tinha, embaralhando-nos as peças, virando o tabuleiro do avesso, nunca tendo sequer propriamente um jogo, separando o trigo do joio, recusando o festival pomposo dos lançamentos, publicando apesar das equipas que se iam perfilhando. Quando nos faltam essas equipas, natural é que nos faltem esses formidáveis apesares que colheram a admiração, mais ou menos assumida, de todos. 2015 já é para sempre o ano em que também isso acabou. Importa perceber o peso de tamanha perda, a qual decididamente nos força à evidência de sermos habitantes de um tempo depois dos livros e das vidas de Herberto Helder e de Vitor Silva Tavares. Depois deles, apesar dos apesares deles, haverá também, inevitavelmente, um pós-2015 em matéria de poesia portuguesa.

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