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2015: O grande ano do RAP

2015: O grande ano do RAP

Miguel Branco 15/12/2015 17:30

A culpa é deste senhor, que quase não nos permite escrever nesta caixa: Kendrick Lamar. “To Pimp a Butterfly” é um dos melhores discos que o hip-hop já ouviu, e só por isso 2015 já não pode ser considerado um ano qualquer. Mas não é só. Se este parece pertencer a uma outra dimensão – espacial ou temporal, não sabemos ao certo –, seguiram-se uma data de objectos que, fazendo parte deste mundo, são de inegável qualidade. Escolhemos dez, mas podíamos ter escolhido 20 ou 30. Ao top de discos juntamos uma série de outros aspectos que fizeram deste ano o melhor dos últimos tempos. Quem andou distraído e não concorda com os fundamentos em que assentam estas páginas pode parar aqui.

01. Kendrick Lamar

Se a vida fossem dois dias, “To Pimp a Butterfly” teria três. O cliché anuncia o santo graal de 2015. Se até aqui Kendrick Lamar era um grande rapper, com este terceiro disco de originais é um rapper do outro mundo. Uma obra-prima que saltou as barreiras do estilo, que fez gente que não gosta de hip-hop dizer “Isto é genial”. Objecto para emoldurar, que segue um enredo tão perfeito que se torna impossível dizer qual a melhor faixa. É o primeiro e o único, digno de uma estátua nestas páginas. 

02. Vince Staples

Bendita a hora em que Vince Staples entendeu que a criminalidade – embora possa trazer grandes recompensas financeiras – é um risco que talvez não se queira correr a vida inteira. Para trás – diz ele – as diabruras que, com os companheiros, punha em prática em Long Beach, Califórnia.“Summertime’06” tem tanto de agressivo como de incrível. Que não se condene um estilo que nos trouxe faixas como “Señorita” ou “Lift Me Up”. E se aqui enterrou o Verão de 2006, esperemos pelos próximos funerais.

03. Donnie Trumpet & The SocialExperiment

A fechar o pódio um disco profundamente inesperado. Chance The Rapper abdicou do nome no título e preferiu que fosse a sua banda de digressão a assinar o disco, embora todas as letras sejam suas e este seja por certo um dos responsáveis criativos de “Surf”. É notório que se trata de um disco que pertence a uma banda – os acordes, uma forte componente instrumental – mas nem por isso deixa de ser hip-hop. Sim, muitas vezes soa mais a jazz que outra coisa. Mas, cá para nós, nada contra. Se ainda não ouviu...

04. Jay Rock

Na Top Dawg Entertainment (TDE) Jay Rock é pré-Kendrick Lamar. Aliás, foi o primeiro nome a assinar contrato. “90059” não é apenas o título do segundo disco de Jay Rock, é o código postal de Los Angeles, naturezas que se confundem, num disco ora mais bruto ora mais nostálgico, mas sempre bem conseguido: refrães, beats, tudo no sítio. E sim, claro, uma coisa é estar no lugar em que tem de estar, outra é sobressair. Ouça “90059” e tente não gostar de “Vice City”, “Gumbo”, “Easy Bake”... é uma tarefa árdua. 

05. Earl Sweatshirt

Earl Sweatshirt nunca foi uma “maria-vai-com-as-outras”. Quando o clã Odd Future seguia o seu caminho – gravando discos, dando concertos, propagando a sua ideologia perante o rap –, Earl foi mandado pela mãe para Samoa, onde frequentaria uma escola de reabilitação para jovens problemáticos.Afinal Earl só queria cantar. “I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside” é quase um disco de solitária, onde o californiano se esconde no seu canto, já por decisão própria. O mundo, lá fora, não lhe agrada. Percebe-se.

06. Joey Bada$$

Começámos o ano em grande. Todos diziam que seria difícil superar o jovem de Brooklyn. É o que dá lançar os foguetes e querer apanhar as canas sem ver os episódios que se seguem. Atenção: não queremos com isto retirar valor a “B4.Da.$$”, ou nem sequer aqui estaria. A sigla traduz-se em “Before Da Money”, o que até faz sentido visto ser o disco de estreia do rapaz de 20 anos. Agora é tudo quanto queira, num rap agressivo, um flow quase perfeito e um público fiel, que o prefere a quase todos os rappers.

07. BADBADNOTGOOD & Ghostface Killah

Os canadianos BADBADNOTGOOD explicam-se assim: uma odisseia experimental entre o hip-hop e o jazz. Talvez isto não chegue, mas “Sour Soul”, feito a meias com Ghostface Killah, membro dos Wu-Tang Clan, é um bom exemplo de quão longe estes senhores conseguem ir. Uma espécie de artesãos do rap, já que computadores não é com eles. Preferem os instrumentos que aqui caem que nem ginjas na rouquidão de Ghostface. Uns dizem que ele está velho mas a verdade é que não parece.

08. Wiki

Não é injusto dizer que os Ratking, colectivo de putos reguilas ao qual Wiki pertence, modificaram a paisagem nova-iorquina no que ao hip-hop diz respeito. Uma viagem de volta ao início dos noventa, rap marcado, instrumentais cheios de peso e sujidade sobejamente preenchidos pela voz e flow. Algo parecido ao que Wiki faz neste “Lil Me”, sua estreia a solo onde parece seguir caminhos menos sérios e deambular por rimas mais irónicas ou descomprometidas. O talento, esse, que ninguém coloque em questão.

09. Dr.Dre

Perdoemos-lhe o facto de este disco pecar por tardio. Até porque não era este, era outro que nunca chegou a sair apesar de Dre ter estado uma década em estúdio. “Compton” resulta de Dre ter sido responsável pelo filme biográfico em torno dos N-.W.A “Straight Outta Compton”. Voltar ao seu bairro, recuperar momentos e gente do tempo em que todos somos ingénuos levaram-nos até aqui. E ainda bem. Oresto já se sabe: com Dr. Dre não podia correr mal. Bem pelo contrário. 

10. Junglepussy

Utilizar curvas e decotes para ter sucesso é relativamente fácil nesta indústria. O difícil é ter sucesso sem que isso seja o aspecto mais visível. Junglepussy pode até ser menos sensual que Nicki Minaj – não temos bem a certeza – mas em tudo o resto está por cima. “Pregnant with Success” é o pontapé de saída, editado por sua conta, de uma rapper que faz do sarcasmo a sua espingarda, que invoca as suas raízes jamaicanas para dizer que o mundo afinal tem uns problemas. Dêem-lhe poder que isto não fica por aqui.

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