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Arte urbana. Morreram quatro jovens a fazer graffitis em doze anos

Arte urbana. Morreram quatro jovens a fazer graffitis em doze anos

Pedro Rainho 11/12/2015 16:23

A comunidade de graffiters ainda está a tentar absorver o que aconteceu. “Estamos todos em choque”, confessa Octávio Pinho, presidente da Associação Portuguesa de Arte Urbana (APAURB) e uma das figuras mais antigas na área. Não havia uma morte em Portugal relacionada com o graffiti desde 2003 - e esse era, até agora, o único caso registado. A Infraestruturas de Portugal diz que o local onde os três jovens morreram colhidos por um comboio, na Maia, era seguro, mas os graffiters pedem mais diálogo. Caso contrário, avisam, os acidentes vão continuar a acontecer.

 

Nos últimos dias, Octávio Pinho perdeu a conta aos comentários que leu online de pessoas que se mostravam satisfeitas com a morte dos três jovens. “Há muita incompreensão face à arte de pintar comboios.” O graffiter diz que, em média, um artista de rua pode gastar até 60 euros em material para fazer uma destas pinturas. “Já chega de dizer que estavam a vandalizar, eles iam fazer uma peça de arte e morreram a pintar”, atira.

Na voz do graffiter ainda se percebe a revolta sentida com a tragédia de segunda-feira. Um sentimento que não mudou mesmo depois de Octávio Pinho ter pintado num mural de Lisboa a homenagem pública aos três jovens que morreram - em particular ao português, um filho do norte, como Octávio.

Apurar responsabilidades

Nunca tinha acontecido um acidente assim em Portugal. Octávio Pinho não aponta dedos, mas olha para a questão através dos olhos de quem pinta. E diz que “o que devia ter acontecido, quando viram que os três miúdos não iam sair dali, era tomar outras providências e não deixar que viesse um comboio a 120km/h e os atropelasse”.

O Ministério Público já abriu um inquérito ao  acidente. Do lado da CP, agora é tempo de deixar correr a investigação. A empresa “lamenta profundamente” as consequências do acidente e diz estar “a colaborar com as autoridades responsáveis pela investigação” para que fique claro o que aconteceu.

Testemunhas directas do acidente ouvidas pela RTP e pelo “Correio da Manhã” contavam que, interpelados pelo revisor, os jovens, encapuzados, lançaram pedras para o interior da carruagem - há até quem se refira ao receio sentido na altura de que se pudessem tratar de terroristas. Para travar toda a situação, o revisor terá recorrido a um extintor e terá sido o fumo resultante desse disparo a tirar visibilidade aos jovens, que não se aperceberam de um outro comboio que se aproximava a grande velocidade na linha em que se encontravam.

Nos dias seguintes ao acidente levantaram-se dúvidas sobre a segurança do apeadeiro onde ocorreu o acidente. A APAURB refere mesmo que já houve atropelamentos de passageiros naquele mesmo local e que, por isso, o facto de os três terem sido colhidos quando tentavam pintar a carruagem deve ser dissociado do acidente.

Fonte da Infraestruturas de Portugal - empresa que gere linhas, acessos aos comboios e infraestruturas - diz o contrário. “Não temos registo de ser um local problemático”, refere.

Soluções precisam-se

A questão é velha de décadas: qual é a melhor forma de lidar com um fenómeno que existe e que não vai ficar por aqui? A repressão não surge como a resposta mais eficaz. “Há 40 anos que se vem investindo em segurança e em câmaras de vigilância e isso não serve”, aponta Pedro Soares Neves, vice-presidente da APAURB.

A associação não vai fazer uma crítica pública cerrada contra os três jovens colhidos quando faziam backjump - Soares Neves admite que “a segurança é onde se traça o limite, até porque a evasão da propriedade de outrem é proibida”. Mas uma condenação para dentro da comunidade terá pouco efeito prático. “Não há receitas, eu não tenho nada que dizer aos jovens porque eles não o vão ouvir, não lhes tenho de dar mensagens ou chazinhos”, considera Pedro Soares Neves.

Na próxima semana, este graffiter vai estar a Londres a participar num encontro onde o tema será, precisamente, a relação entre o graffiti e as companhias de caminhos de ferro. Mais: a iniciativa é financiada por fundos europeus, porque na Europa já se percebeu que o braço-de-ferro entre os dois lados não gera proveitos. Pelo contrário.

Pedro Soares Neves espera voltar de Inglaterra com novas soluções. Para já, para o graffiter, o caminho tem corresponder a um reforço do diálogo. “A solução não passa por tornar o graffiti legal em comboios”, mas, “dentro das instituições, é preciso perceber que estas vontades existem e que estas situações ocorrem e tentar fazer alguma coisa em relação a isso sem ser só reforçar o lobby da segurança”, defende.

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