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Mário Cordeiro 01/12/2015
Mário Cordeiro

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Pai

Tudo tem um fim, todavia, porque tudo – a começar pela vida – é finito

Hoje na consulta tive o caso de uma mãe perante a anunciada morte prematura do marido, e pai de três crianças. O conhecimento do sofrimento, do fim que não pode ser fim mas que se antevê que seja o fim, do que dizer, fazer, agir, ficar, chorar. Até o medo de chorar por causa dos filhos. Até o medo de chorar por se mostrar fraqueza. Até a perplexidade por tudo isto, a existência e a sua finitude, as relações interpessoais, o tempo que se gasta, esgota, perde com frivolidades, coisas sem interesse, pessoas sem interesse, fretes e obrigações que deveriam ser facultativas e opções. Como conseguir manter vivos os que morrem, presentes os ausentes? Como não deixar que a memória se desvaneça perante o ritmo avassalador do presente e da realidade? Como não remeter quem morre para o estatuto de deus, roubando-lhe a hipótese de se manter humano?

Lembrei-me que, no dia 5 de Dezembro, fará 35 anos que fiquei sem pai. Tanto tempo já. Mas, curiosamente, descubro em cada dia a riqueza do que me transmitiu, regras, princípios, valores, e cada dia revejo mais e mais momentos – simples, pequenos, simbólicos – em que me deu tanto.

Revejo-o em muito do pai que sou e até dou comigo a repetir frases que ele dizia, fosse “a calma é a base da ciência”, quando estávamos apressados e éramos pouco rigorosos a fazer alguma coisa (frase cujo alcance só compreendi mais tarde), ou a perguntar se “éramos acionistas da companhia da eletricidade” quando deixávamos as luzes todas acesas.

Recordo-me de esperar a chegada dele, do consultório, para ter a oportunidade de ainda ir ver as roseiras ou apanhar caracóis dos agapantos – tantos e tantos momentos singelos mas cheios de amor. É isso que sinto, e é isso que me faz falta, embora apenas escassos meses antes de ele morrer tivéssemos encontrado as “palavras-chave” para abrir as portas das nossas respetivas timidezes. O amor do meu pai foi feito de silêncios carregados de sentimentos. Não foi perfeito, mas foi o melhor pai que eu poderia ter tido. E para mim é quanto basta.

Tudo tem um fim, todavia, porque tudo – a começar pela vida – é finito. O tempo, esse elemento inerente à condição humana, não nos dá tréguas. E mostra-nos, desde que temos ano e meio de idade, que não somos omnipotentes nem eternos.

Nem o sultão do Brunei nem o Dr. Fausto, seja com a sua fortuna, seja vendendo a alma ao Diabo, conseguem ter mais um segundo sequer que o mais miserável dos indigentes. A imortalidade é uma fantasia de sonhadores, defesa de inseguros ou apenas um wishful thinking generoso mas ineficaz.

Para se começarem coisas é necessário terminar outras – ciclos normais e desejáveis, em que cada elemento cumpre os seus objectivos e finalidades. Acontece às coisas, às situações, às circunstâncias… aos amigos e familiares.

Talvez seja por isso que existem nuvens, porque os céus sempre azuis carregam consigo a monotonia e o conformismo. Mas entre elas existe um espaço azul. Entre elas surge o sol, como garante da ousadia, exemplo do desejo, imagem da fantasia, símbolo do hoje e do amanhã. A nossa vida é, na melhor das hipóteses, um sexto da de uma fralda descartável. Ou da de um saco de plástico. Mas a nossa eternidade alcança-se na partilha, na explosão da nossa vida em mil pedaços, repartida pelas pessoas que amamos, pelo que fazemos, pela dádiva, pelas impressões digitais que deixamos nesta nossa passagem efémera. E pelo que a passagem dos que nos são próximos nos deixa, se estivermos atentos e pararmos um minuto para reflectir, de vez em quando, amando mais e melhor.

Nada como citar quem escreve e tão bem expressa os sentimentos como Torquato da Luz, a quem retirei este poema, ou a frase final da “Paixão segundo São João”, de Bach.

Talvez o fim não seja o fim e ainda
haja mais qualquer coisa além do fim.
Talvez ao fim da noite que não finda
haja um dia sorrindo para mim.

Ruht wohl, ihr heiligen Gebeine, die ich nun weiter nicht beweine, ruht wohl und bringt auch mich zur Ruh!
(Repousem em paz os teus restos sagrados, que não chorarei. Repousa em paz, e traz-me a mim também a paz.)

É a sensação com que devemos ficar e com que fico passados 35 anos sobre a morte do meu pai: paz, tranquilidade, alegria e uma passagem para o futuro em continuidade com o passado. Assim se vive, goza e frui o presente.

Pediatra
Escreve à terça-feira 

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