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Diogo Muñoz. Pintor pop com traço para o retrato

Diogo Muñoz. Pintor pop com traço para o retrato

30/05/2012 03:00

A ideia era estudar direito para se tornar um diplomata de respeito, seguindo assim a longa tradição de família que há gerações e gerações fazem da lei profissão. Mas Diogo Muñoz não estava para aí virado. Às escondidas fez os exames de secundário que precisava para entrar em Belas Artes e só quando soube que tinha entrado na faculdade é que contou à família. Aquele que mais temia que não aceitasse era o avô, mas enganou-se: “Fez-me um brinde com champanhe e disse: ‘É a primeira coisa inteligente que fazes na tua vida’”, conta Diogo. Já a avó, que também pintava nas horas livres, não percebeu porque é que o neto não podia ser diplomata e encarar a pintura como uma passatempo, mas teve de se conformar.

Diogo tem 38 anos e quando abre a porta do atelier, num pátio típico alfacinha, não corresponde à imagem de artista que os filmes transmitem. Não tem a camisa azul escura suja de tinta, nem as calças de ganga pintadas. Os mocassins de camurça também estão limpos. Nos dedos há um cigarro permanentemente aceso entre os dedos. “Fumo como uma chaminé”, diz.

Dentro do atelier, há quadros por todo o lado, uns terminados, outros por acabar, grandes, de cores vivas, juntamente com cavaletes, tintas, pincéis e cadeiras. Um retrato inacabado de uma senhora com ar feliz olha-nos de frente e Diogo confessa: “Não gosto de fazer retratos por causa das expectativas das pessoas. A menos que me deixem fazer à minha maneira, como é o caso deste”, refere apontando para a imagem da senhora que nos observa da tela.

Mas são os retratos que lhe pagam as contas, na maioria das vezes, e lhe permitem dedicar-se a outras técnicas. A outra vantagem é o treino da mão: “Faz com que eu depois consiga passar para a tela o que tenho na cabeça, à primeira”.

Tem clientes importantes cujos nomes não revela que continuam a preferir retratos pintados a fotografias ampliadas. Diogo já expôs em Portugal, mas já lá vão dois anos. “Em cinco horas estava tudo vendido”, diz. Mas apesar de ter “alguns clientes fiéis” no país, é lá fora que mais expõem e vende. Na China, por exemplo, gostam muito das obras de Muñoz, o que levou a aprender mandarim para se entenderem melhor. Em Outubro terá uma exposição individual no Albergue SCM em Macau, no mês a seguir no Wilson Institute for Contemporary Art, em Shangai onde estará também representado na feira de arte. Antes disso, e já em Julho, fará parte de uma exposição colectiva em Genebra, na Gallery Space-Gaia.

estilo Se lhe pedimos que descreva a sua pintura, ou que a encaixe num estilo, hesita, mas acaba por responder. “Figuração narrativa, certamente. Tudo gira em torno da figura humana, o homem como centro gravitacional, como se de retrato se tratasse. Retrato aqui como representação de um papel mais do que espelho do real. Agora estou a explorar uma vertente mais onírica, pop, se calhar.”

A maioria das referências que entram na pintura acabam por ser mais literárias do que pictóricas: “Muitas vezes estou a ler e sai-me um quadro”.

Diogo está sempre a pensar em trabalho e não consegue estar muito tempo sem pintar. “Não consigo desligar. Mas não chateio ninguém com o meu trabalho. Só que estou sempre a pensar.” Trabalha em seis ou sete quadros ao mesmo tempo e não usa palete. As tintas são misturadas no braço, no lugar do relógio. Vai para o atelier às 9h30 e nunca sai antes das 19h00. Depois vai a casa jantar e volta para o trabalho. O vício do trabalho é tal que quando rumar à China para uma estadia de dois meses, terá um atelier pronto para se entregar à pintura. Quando quer espairecer, segundo o próprio, dedica-se à escultura.

A componente do seu trabalho que menos gosta, é a transacção financeira. “Não gosto nada da parte de receber dinheiro pelos quadros. Um dia um cliente pagou-me com um cheque e eu nem olhei, guardei-o no bolso. Quando o entreguei à minha mulher, ela viu que era de cinco euros! Passado uma semana o cliente ligou-me. Era a gozar: ‘Mas você nem assim aprende, pá!’”

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