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João Ricardo Pedro. De engenheiro a escritor premiado, bastou ser despedido

João Ricardo Pedro. De engenheiro a escritor premiado, bastou ser despedido

06/04/2012 03:00

João Ricardo Pedro nunca foi bom aluno a Português. Nem a nenhuma disciplina da área de Letras. “Era bom aluno a Matemática e ao resto passava sempre à rasca”, conta na pastelaria Biarritz, em Alvalade, Lisboa, perto de sua casa. Desde 2009, altura em que deixou de trabalhar numa empresa de telecomunicações em Sintra, que tem tempo para estar à conversa à tarde em esplanadas. Ou para ir buscar os filhos à escola. O engenheiro de 38 anos foi vítima de despedimento colectivo numa empresa que já fechou, mas nunca mais quis trabalhar em engenharia. Aliás, e apesar de nunca ter sido bom aluno a Português, decidiu fazer o inverosímil: escrever um livro.

“Já há muito tempo que tinha o sonho de escrever e, por falta de tempo, há muitos anos que adiava esse sonho”, conta João. Há três anos, quando foi despedido, nem sequer procurou outro trabalho. No dia seguinte levantou-se, foi pôr os dois filhos à escola, voltou para casa e sentiu “um vazio”. “Pronto”, pensou, “é agora”. E começou a escrever.

No início eram só ideias soltas. “Não comecei logo a escrever este livro”, recorda. “Estava só a tentar ganhar ritmo e a encontrar a minha voz literária.” Essa voz acabou por surgir quase um ano depois, quando “as ideias estavam a tomar um rumo”.

João garante que nunca tinha pensado na história que relata em “O Teu Rosto Será o Último”, livro que chegou às livrarias no sábado passado, editado pela Leya. “A história foi ganhando forma e foi-se impondo à medida que escrevia”, conta. “As personagens só apareceram ao fim de alguns meses e eu ia-me surpreendendo a mim próprio. Não sabia como é que a vida daquelas pessoas ia acabar.”

O romance, que acabou por vencer o Prémio Leya do ano passado, parte do 25 de Abril de 1974 e constrói a história de uma família marcada pelos anos da ditadura e do colonialismo. “Não conta de maneira nenhuma a história da minha vida, mas acaba por ter traços autobiográficos porque escrevemos sobre coisas que conhecemos”, diz João. Os próprios lugares onde se desenrola a história são-lhe bastante familiares: “O livro passa-se essencialmente na serra da Gardunha, onde os meus avós moravam, e tem um lado urbano em Queluz, onde passei a minha juventude.”

Há também episódios em África durante a Guerra Colonial. “Obviamente que não vivi isso, mas desde pequeno que ouço histórias da guerra que me fascinavam”, conta. “Os meus tios e amigos dos meus pais estiveram em Angola e na Guiné e eram histórias com as quais me familiarizei.”

João Ricardo Pedro, que assina com três nomes próprios por mero acaso – “não foi nada reflectido e Pedro é mesmo o meu apelido” –, sempre teve o feeling de que ia conseguir ganhar o Prémio Leya. “A ideia que tinha é que podia ficar a escrever aquele livro para sempre e concorrer ao prémio obrigou-me a ter uma data para acabar”, explica.

Entregou-o em Maio do ano passado e soube que tinha vencido a 18 de Outubro. “Foi o Manuel Alegre [presidente do júri da Leya, do qual também fazem parte os escritores José Castello, Nuno Júdice e Pepetela, entre outros] que me ligou a dar a notícia”, conta João. O prémio, criado em 2008, distingue um romance inédito escrito em português e é o prémio literário de maior valor pecuniário em Portugal, 100 mil euros. Em 2011 teve 162 concorrentes. “[Com o dinheiro] não faço ideia se vou investir nalguma coisa”, ri-se João. “Vou entregar isso a outro departamento familiar [a mulher é economista].”

O mais curioso é que antes de entregar o romance ao júri do concurso João nunca o mostrou a ninguém “por pudor”. “Sempre foi uma coisa muito solitária, o que escrevia ficava só para mim. Mas acabei de escrever o livro convencido de que era muito bom e nem sempre é fácil ter este distanciamento das coisas que fazemos.” Os familiares e amigos que sabiam que estava a escrever o livro apoiavam-no. “Mas penso sempre que havia aquela desconfiança: ‘pá, este tipo enlouqueceu, agora ficou desempregado e está a escrever um livro, é maluco...’”

Apesar de ter tirado Engenharia Electrotécnica no Instituto Superior Técnico e se considerar, na pequena autobiografia na lombada do livro, “um curioso da força de Lorentz”, João não quer mais trabalhar em engenharia. “Agora quero é escrever. Pelo menos enquanto houver dinheiro”, ri-se. Aliás, diz que a maior parte dos desempregados que conhece são engenheiros.

O segundo romance já está a caminho, mas João ainda não sabe sequer qual será o tema. “Isso só ao fim de alguns meses é que se sabe.” O segundo livro será bom para esquecer o primeiro, diz João. “Até porque já estou farto dele até aos olhos. Já lhe conheço muito bem os defeitos. Os livros são o contrário dos filhos, não se gosta sempre.”

A rotina de escrita é a mesma que teve para “O Teu Rosto Será o Último”, “um bocado vida de escritório”. Todos os dias se senta ao computador das 8h30 às 16h30. “A minha vida tornou-se mais simples, deixei de ter chefes e clientes e dediquei o meu tempo a uma coisa de que gosto”, confessa.

Para quem está a pensar escrever o seu primeiro romance, João tem alguns conselhos. O fundamental é “ler muito primeiro”. Ele próprio só começou a ler aos 17 anos. “Depois é ter a certeza de que é aquilo que se quer e se gosta de fazer e ir até ao fim.”

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